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    Tristeza

    Um ano do adeus: familiares de vítimas de incêndio no Ninho do Urubu falam de luto e saudade

    Catarinenses Bernardo Pisetta e Vitor Isaias morreram no incêndio no CT do Flamengo em 8 de fevereiro de 2019

    08/02/2020 - 09h05 - Atualizada em: 08/02/2020 - 10h02

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    Lariane
    Por Lariane Cagnini
    Karollayne
    Por Karollayne Rosa
    Na parede, recordações de Vitor, que morreu no incêndio no Ninho do Urubu
    Na parede, recordações de Vitor, que morreu no incêndio no Ninho do Urubu
    (Foto: )

    No dia 8 de fevereiro de 2019, o Brasil acordou perplexo. Um incêndio na madrugada daquela sexta-feira em um dos alojamentos do Centro de Treinamentos do Flamengo, o Ninho do Urubu, no Rio de Janeiro, destruiu totalmente a estrutura e fez dezenas de vítimas. Dez garotos, com idades entre 14 e 16 anos, perderam a vida precocemente. Entre os meninos que morreram, havia dois catarinenses: o goleiro Bernardo Pisetta, de Indaial, e o atacante Vitor Isaias, de São José. Passado um ano da tragédia, as famílias ainda guardam na memória os momentos vividos ao lado dos garotos que, assim como muitos nas respectivas idades, lutavam para concretizar o sonho de um dia se tornar um jogador profissional de futebol.

    O largo sorriso e a euforia de Vitor Isaías momentos após assinar o contrato com o Flamengo são apenas algumas das tantas lembranças que fazem a voz de Josete Itavalda Adão embargar ao falar do neto.

    – A felicidade dele quando ele chegou em casa... – diz a avó do garoto ao lembrar daquele agosto de 2018, quando o jovem atacante de 15 anos entrou para as categorias de base do rubro-negro carioca.

    Vitinho, como carinhosamente era chamado pela família, completaria 16 anos no dia 1° de janeiro seguinte. Dona Jô era avó de sangue, mãe de criação e a maior incentivadora da carreira de Vitor no futebol. A vida após o incêndio foi de luto e luta para ela. Começou com as idas ao psicólogo. Depois, ao psiquiatra e, enfim, os antidepressivos.

    – Eu encontrava as pessoas na rua e dizia “tenho tudo, mas não sou feliz” – conta a avó.

    Na tentativa de amenizar a saudade, em cada um dos oito meses seguintes à tragédia, uma missa em memória a Vitor Isaías foi rezada na Capela Nossa Senhora Aparecida, localizada dentro do Estádio Orlando Scarpelli, em Florianópolis. Apesar de não ser católica, a proximidade com a comunidade do Figueirense levou a mulher a manter as cerimônias.

    – O pessoal lá já conhecia o Vitor. Na missa de sétimo dia, encheu a igreja. Depois, tinha dia que ia só eu e meu esposo, mas eu continuava fazendo – recorda.

    As cerimônias foram uma forma encontrada por Josete para relembrar a presença do neto após a tragédia. Foi também no ginásio Carlos Alberto Campos, ao lado da casa do Alvinegro, que amigos e familiares se despediram de Vitinho.

    Em 2017, Vitinho foi campeão da Taça Brasil Sub-13 pelo Figueirense após o clube catarinense firmar parceria com a Associação dos Pais de Atletas de Futsal Florianópolis (APAFF), time de futsal onde o garoto jogou dos 7 aos 13 anos de idade. Ao partir para o futebol de campo, foram muitas peneirinhas até o garoto ser contrato pelo Flamengo. Antes de ir para o Rio, Vitinho passou ainda pelas categorias de base do Internacional-RS e do Athletico Paranaense.

    Acordo fechado

    Além do luto pela tragédia, a avó e responsável legal pelo garoto precisou enfrentar uma dolorosa negociação com o clube para ter direito à indenização paga aos familiares das vítimas do incêndio. Um mês após a morte de Vitor, os familiares dos dez garotos participaram de uma reunião no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro para dar início às negociações.

    – Lá o Flamengo pediu para tratar desse assunto com cada família de forma individualizada. Desde então a gente começou a conversar – conta o advogado Thiago Camargo D’Ivanenko, representante da família.

    Após sete meses de conversa, o advogado de dona Jô e o departamento jurídico do Flamengo chegaram a um acordo. O documento foi assinado em outubro de 2019.

    Na parede de casa, montagem em memória a Vitor, vítima de incêndio no Ninho do Urubu
    Na parede de casa, montagem em memória a Vitor, vítima de incêndio no Ninho do Urubu
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    Em Indaial, Bernardo Pisetta vive na memória da comunidade

    Na homenagem prestada a Bernardo Pisetta no Torneio de Verão deste ano em Indaial, no Vale do Itajaí, um gesto de respeito. Aos 14 anos, ele foi um dos jovens talentos que perdeu a vida no incêndio do Ninho do Urubu, em 8 de fevereiro de 2019. Um ano depois, a família ainda aguarda um acerto definitivo com o clube, e ainda um comportamento mais humano por parte da instituição. Para a família, faltou carinho, acolhimento e gestos que indenização nenhuma é capaz de reparar.

    A habilidade com as mãos, que apareceu logo nas primeiras partidas em que atuou como goleiro, fizeram com que Bernardo deixasse a cidade de cerca de 70 mil habitantes rumo a Curitiba aos 12 anos. Em julho de 2018, deixou o Athletico Parabaense rumo ao Rio de Janeiro, para defender as cores do time do coração. Um sonho do menino que a família apoiou, da mesma maneira como sempre respeitou os desejos do caçula.

    – Meu filho era flamenguista, e o que quero é que o Bernardo fique bem. Ele era um menino muito calmo, sereno, não gostava de confusão, e essa mesma postura estamos adotando com o clube. Que ele fique tranquilo onde está, pois não queremos entrar em atrito – ameniza o pai do garoto, Darlei Pisetta.

    Um ano depois da tragédia, a família tenta driblar a saudade e manter as boas lembranças vivas. Darlei, a esposa Leda e o filho Murilo, 20 anos, recebem atendimento psicológico custeado pelo Flamengo, além de um valor mensal não informado pela família. A decisão final sobre a indenização pela morte de Bernardo ainda não saiu, mas o que ainda mexe muito com a família é a maneira como tudo foi conduzido.

    – Não a parte desportiva, mas a administração, pela magnitude do clube, pelos torcedores, pela grandeza, foram infelizes no tratamento com as famílias. Não vou falar em indenização, pois é muito peculiar, e vai de cada um, mas na questão de um carinho, um afeto, um abraço, nisso eles pecaram. Faltou sensibilidade – lamenta Pisetta.

    Nas manifestações do clube sobre as indenizações, toda vez que se fala em valores altíssimos oferecidos para as famílias, Pisetta se ressente. Não há valor que valha uma vida, argumenta, e ainda questiona:

    – Quanto seria um valor altíssimo, caso os filhos fossem de dirigentes do clube, e não os nossos?

    Até hoje, nenhum grande nome do clube conversou com os familiares, mesmo que eles já tenham ido ao Rio de Janeiro algumas vezes. A relação é com funcionários, psicólogos e advogados, sem nenhuma aproximação de diretores ou da presidência. A indiferença incomoda. Mas, enquanto isso, o carinho de quem está perto é contínuo e reconforta.

    – Ainda hoje a ficha não caiu direito. A gente sempre está sentado à mesa em casa e espera aquela porta abrir, que ele entre como sempre fazia, mas infelizmente não é isso. A gente tem que tentar seguir adiante. Foi um ano de muito aprendizado, muita dor, muita saudade. Em certos momentos, de revolta, mas a revolta não adianta, pois não leva a lugar nenhum –complementa.

    Não há valor que valha uma vida, dizem familiares de Pisetta
    Não há valor que valha uma vida, dizem familiares de Pisetta
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    Homenagens e carinho ao ex-goleiro no Vale

    Em Indaial, cidade onde vive a família, o Torneio de Verão de Futsal é uma das competições mais tradicionais, e na 35ª edição, este ano, o homenageado foi Bernardo. A família participou da cerimônia de abertura e recebeu uma placa repleta de palavras de carinho. Nas poucas linhas, o desejo de que “a trajetória dentro do esporte sirva de inspiração, exemplo e motivação para as futuras gerações”.

    Na final do torneio, outra vez a lembrança do jovem atleta, querido pela cidade.

    – Logo após o que aconteceu com o Bernardo, várias pessoas nos procuraram, sabendo que todo ano nós homenageamos algum desportista. Foram torcedores, comunidade, a Câmara de Vereadores indicou, todos pensando nele – conta o diretor-presidente da Fundação Municipal de Esportes, Ademir Packer.

    Com talento para o esporte, Bernardo deixou a casa dos pais em busca de uma profissão. O sonho foi interrompido, mas para milhares de crianças e jovens, o esporte ainda é o caminho para uma vida melhor. Pensando nisso, a cidade também vai ganhar uma área de lazer remodelada, que vai levar o nome de Centro Esportivo Bernardo Pisetta.

    Na primeira etapa, o investimento será de R$ 1,6 milhão. A praça terá academia, parque infantil, quadra poliesportiva, cancha de bocha e outros atrativos para a comunidade. Um maneira de incentivar o esporte e manter viva a memória do talentoso menino de Indaial.

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