nsc
    dc

    Descoberta 

    Um estranho dinossauro pode ter nadado nos rios da África

    Em artigo publicado na revista “Nature”, cientistas descreveram o esqueleto do Spinosaurus aegyptiacus. Longos espinhos subiam dos ossos na cauda, formando uma barbatana

    17/05/2020 - 09h00

    Compartilhe

    Por The New York Times
    dinossauro
    (Foto: )

    *Por Kenneth Chang

    Um enigmático dinossauro predador que viveu no norte da África há cerca de 95 milhões de anos possuía uma cauda longa e poderosa que ele usava para se mover pela água, sugerem novos fósseis.

    Se isso for comprovado, essa fera, com mais de doze metros de comprimento e que ainda não havia crescido totalmente quando morreu, era uma raridade: um dinossauro que nadava.

    "O que temos aqui é um dinossauro que não apenas se movimentava na água, mas que também perseguia ativamente presas na coluna d'água", disse Nizar Ibrahim, professor de biologia na Universidade de Detroit Mercy, no Michigan.

    Em um artigo publicado na revista "Nature", Ibrahim e seus colegas descreveram o esqueleto do Spinosaurus aegyptiacus – que significa "lagarto de espinha egípcio". Longos espinhos subiam verticalmente dos ossos na cauda de 4,5 metros de comprimento, formando uma estrutura semelhante a uma barbatana que, segundo os cientistas, poderia ondular para frente e para trás.

    Pense nisso como um cruzamento entre um lagarto e uma enguia – na escala de um tiranossauro rex. "É um animal que realmente não tem equivalente nos dias de hoje. Em vários aspectos, você está trabalhando com um ser extraterrestre", afirmou Ibrahim.

    Em um tanque com água, os cientistas mostraram que um recorte de plástico na forma da cauda era melhor para gerar propulsão do que as caudas de outros dinossauros. O impulso e a eficiência eram comparáveis às criaturas aquáticas contemporâneas como os crocodilos, explicaram os cientistas.

    "Além da aparência estranha, a cauda também fazia todo o sentido", disse Matthew C. Lamanna, paleontólogo do Museu de História Natural Carnegie, em Pittsburgh, que foi um dos revisores do artigo da "Nature".

    descoberta
    (Foto: )

    David Hone, paleontólogo da Universidade Queen Mary, de Londres, que não estava envolvido na pesquisa, elogiou o fóssil. "Geralmente, não temos muitas caudas de dinossauros em bom estado. Ela é realmente muito estranha em vários aspectos, o que é realmente interessante e muito legal, mas não estou muito convencido de algumas das interpretações ecológicas que imputaram a ela", declarou.

    Hone disse que os experimentos em pequena escala eram intrigantes, mas que era exagero afirmar que o Spinosaurus era um nadador rápido o suficiente para perseguir presas na água. "Não quero dizer que estejam errados. Só acho que esse argumento não se sustenta com os dados disponíveis."

    Os dinossauros, que surgiram entre cerca de 230 e 247 milhões de anos atrás, dominaram a terra por 180 milhões de anos e, depois, ao evoluir para pássaros, também dominaram o céu. Mas, durante todo esse tempo, os dinossauros pareciam ter ficado fora da água. (Outros répteis da época, como plesiossauros e mosassauros, nadavam nos mares, mas não eram dinossauros.)

    O Spinosaurus é definitivamente um dinossauro. Ele é classificado em um grupo conhecido como terópodes, que também inclui os tiranossauros e os velociraptores. O Spinossaurus, no entanto, era um terópode estranho.

    Em 2014, Ibrahim descreveu um fóssil bem preservado descoberto no Marrocos, argumentando que possuía características – mandíbulas semelhantes a crocodilos, ossos densos que poderiam ter servido como lastro, pés chatos que se assemelhavam a remos – que pareciam ser adequadas à vida na água. Hoje, essa região é o Saara, o maior deserto do mundo. Mas, no período Cretáceo, quando o Spinosaurus habitava a região, havia um vasto sistema de rios e lagos.

    Todos estavam convencidos, porém, de que esse dinossauro era realmente aquático. Os cientistas estudaram um esqueleto incompleto que não parecia um nadador hábil, o que levou muitos paleontólogos a presumir que o Spinosaurus vivia uma vida semelhante à dos ursos pardos de hoje em dia: em terra na maior parte do tempo e entrando em águas rasas ocasionalmente para pegar peixes para comer.

    "Na verdade, não tínhamos realmente um motor, uma estrutura propulsora que demonstrasse de maneira plausível como esse animal se movia na água. Houve um pouco de resistência, e isso se dá porque existe um dogma profundamente arraigado que diz essencialmente que os dinossauros nunca de fato invadiram o mundo aquático", argumentou Ibrahim.

    De 2015 a 2019, Ibrahim retornou várias vezes ao local no Marrocos. "Mal sabíamos que a parte mais emocionante ainda estava enterrada nas rochas quando descrevemos a primeira parte do esqueleto", continuou o professor.

    A equipe removeu, com perseverança, mais de quinze toneladas de rochas de uma encosta íngreme em meio a tempestades de areia, cobras, inundações e temperaturas de quase 50 ºC. Ibrahim se lembrou de quando encontraram um osso próximo ao fim da cauda que tinha um longo espinho apontando para cima. "Só pensei: 'Isso é realmente estranho'", afirmou.

    Ao contrário da cauda da maioria dos dinossauros carnívoros, os ossos da cauda do Spinosaurus não eram interligados, o que sugere que a cauda poderia se mexer mais, ondulando para a frente e para trás em um movimento parecido com o de uma cobra.

    Para reforçar tal afirmação, Ibrahim procurou Stephanie E. Pierce, professora de biologia orgânica e evolutiva de Harvard, que reconstrói os movimentos de animais extintos.

    Pierce e seu colega de Harvard, George V. Lauder, que estuda a biomecânica dos peixes, usaram um aparelho no qual um pedaço bidimensional de plástico flexível no formato da cauda – com cerca de vinte centímetros de comprimento, não em tamanho real – fora anexado a um braço robótico imerso em água corrente. Eles mediram a quantidade de impulso produzido à medida que a cauda se movia para a frente e para trás.

    descoberta
    (Foto: )

    "Ela gerou um impulso muito mais forte do que outras caudas de dinossauros; mais alinhado com o que você espera ver em um animal semiaquático moderno, como um crocodilo, uma salamandra ou um tritão. Outras caudas de terópodes eram horríveis, ineficientes", disse Pierce.

    Donald M. Henderson, curador de dinossauros do Museu Real Tyrrell, em Drumheller, em Alberta, disse que era provável que o Spinosaurus vivesse à beira da água e comesse peixe – o estilo de vida do urso pardo –, mas continuava a duvidar que o animal fosse de fato um nadador. "De jeito nenhum. Em primeiro lugar, eles realmente não demonstraram que essa cauda era capaz de produzir impulso suficiente para mover um corpo de seis toneladas e meia pela água", observou Henderson.

    Segundo ele, o que os pesquisadores deveriam ter feito era pegar os resultados experimentais e dimensioná-los para o tamanho total do dinossauro.

    Ele disse que os pesquisadores também deveriam considerar se o Spinosaurus poderia ter músculos suficientemente fortes para mover essa cauda longa e pesada e para arrastar a vela gigante em suas costas – sua principal característica. "Tente arrastar um grande outdoor pela água. Não dá certo", insistiu Henderson.

    Para ele, o formato do Spinosaurus parecia ser muito dinâmico e propenso a tombar para os lados, ao contrário do corpo mais largo dos crocodilos. "Eles não explicaram isso de forma adequada."

    Pierce concordou que o argumento de Henderson fazia sentido, mas os cálculos mais detalhados não são simples. "Essa é a primeira visão. Vai causar algum arrepio. E tenho certeza de que gerará todos os tipos de análises interessantes", disse a professora.

    The New York Times Licensing Group – Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito do The New York Times.

    Deixe seu comentário:

    Últimas notícias

    Loading... Todas de Cotidiano

    Colunistas