Um mês após o governo de Santa Catarina divulgar a assinatura da ordem de serviço para a reforma da barragem de José Boiteux, as obras na maior estrutura contra enchentes do Vale do Itajaí ainda engatinham. Na manhã desta quarta-feira (17), apenas quatro trabalhadores estavam no local. Três roçando e um operando a máquina que abriu acesso para as galerias e removeu os galhos que obstruíam a passagem de água, onde o fluxo deve ser mantido sempre aberto.

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Os primeiros passos

A empresa que venceu a licitação de R$ 9,9 milhões é a Saks, de Videira, que inclusive fazia a manutenção da barragem de José Boiteux até 2015. O governo estadual diz que a primeira etapa, em andamento agora, é a limpeza das chamadas tulipas. São duas estruturas gigantes por onde passa a água que chega às comportas e que têm a função de reter sujeiras grandes que poderiam danificar a estrutura caso entrassem com a água.

Com elas limpas, a água escoa mais rápido.

— Essa limpeza inicial é um trabalho complexo e cirúrgico, mas essencial. Retirar esse material acumulado é o que vai nos dar terreno seguro para acessar a comporta que hoje está travada. Estamos limpando o caminho para entrar na fase mais crítica e definitiva da engenharia dessa obra — explica o diretor de Gestão de Obras da Secretaria de Estado da Proteção e Defesa Civil, Douglas Meincheim.

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Tulipas levam a água para as comportas e servem como filtros (Foto: Patrick Rodrigues, NSC)

Recuperação de comporta emperrada

É preciso que o nível de água esteja baixo para a equipe chegar até a comporta emperrada fechada desde as enchentes de 2023 em virtude da corrosão, segundo a Secretaria de Estado de Proteção e Defesa Civil. Remover o cilindro e fazer o conserto é considerado prioridade. A expectativa é que os trabalhos de recuperação da comporta tenham início dentro de aproximadamente um mês. Mas ainda será preciso resolver colocar um gerador para levar energia elétrica ao local

O local onde fica a casa de máquinas, com os equipamentos e painéis, hoje é só um esqueleto. Tudo o que tinha lá quando a estrutura foi inaugurada, em 1992, sumiu ou foi depredado. Essa estrutura em concreto deve ser toda refeita e ganhar equipamentos novos para permitir a abertura e fechamento das comportas apertando apenas botões.

Atualmente, se for necessário fazer essa operação em uma eventual enchente, é preciso chamar um guincho hidráulico, seja da Celesc ou de empresa privada.

Casa de máquinas e estrutura para operação das barragens será reformada (Foto: Patrick Rodrigues, NSC)

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Cercamento da barragem

Também se estuda uma forma de fazer o cercamento da área onde fica a estrutura física da barragem, que consiste na casa de máquinas, em alvenaria, e o barramento, que é o paredão em si que garante o represamento da água da chuva. Tudo deve ficar pronto dentro de um ano.

Os moradores do Vale do Itajaí têm pressa para a reforma, principalmente diante da possibilidade de um El Niño forte entre novembro de 2026 e janeiro de 2027. A última vez que o fenômeno ocorreu, em 2023, a barragem de José Boiteux chegou, pela primeira vez, à capacidade máxima e verteu alguns centímetros.

“O cronograma da obra considera o cenário climático previsto para os próximos meses. As atividades mais sensíveis às condições meteorológicas foram planejadas para ocorrer antes do período historicamente mais chuvoso, previsto entre a primavera e o verão. As chuvas previstas não devem comprometer o andamento dos trabalhos”, garante o governo do Estado.

Tudo ocorre sob os olhos da comunidade Xokleng. Afinal, a barragem de José Boiteux foi construída dentro de uma terra indígena legalmente demarcada e deixou um rastro de prejuízos.

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Quem construiu a estrutura, à época, foi o governo federal e ficou sob a responsabilidade estadual fazer a operação da barragem quando chove. O problema é que não se definiu quem iria arcar com as perdas sofridas pelos moradores das aldeias. A situação virou tema de impasses entre indígenas e governantes.

Um acordo firmado na Justiça Federal estabeleceu o que é preciso ser feito à comunidade local como forma de compensação (veja lista aqui). Casas, igrejas, casas paroquiais, escola, ponte e estradas estão na lista. As 46 residências, por exemplo, começaram a sair do papel em setembro do ano passado com a promessa de entrega em um ano. Ainda está dentro do prazo, mas até o momento nenhuma ficou pronta.

Casas para comunidade indígena ainda não estão prontas (Foto: Patrick Rodrigues, NSC)

Uma barragem gigante

A barragem de José Boiteux é a maior contra enchentes do Vale do Itajaí. Ela tem capacidade para represar 357 bilhões de litros de água. Isso é o suficiente para abastecer Blumenau por 15 anos, considerando o consumo médio da cidade em 2025. Mas o que isso quer dizer e como funciona essa estrutura? Vamos lá.

A barragem fica no Rio Itajaí do Norte, ou Rio Hercílio, como alguns chamam. Nele foi construído um grande paredão com 60 metros de altura e 380 de largura, que vai de uma margem a outra do rio. Isso faz com que a água da chuva fique represada nessa estrutura.

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Porém, ela tem duas comportas, que são como a porta de casa mesmo. Quando abre, a água desce o rio em direção ao mar. Quando fecha, a água fica represada para cima do paredão e alaga as aldeias indígenas. Há ainda as galerias livres. São cinco pontos de passagem — aquelas citadas no início da reportagem, onde galhos estavam obstruindo o fluxo de água. Duas delas estão permanentemente fechadas desde quando a barragem ficou pronta. Outras três passam água.

Desde as enchentes de 2023, uma comporta está emperrada fechada. Atualmente, sem a reforma prevista, é preciso improvisar um caminhão hidráulico para abrir ou fechar a comporta que ainda funciona. Isso porque o maquinário colocado na construção da estrutura simplesmente sumiu durante os vários atritos entre indígenas e governos.

Mas, voltando ao funcionamento da barragem, é a Secretaria de Estado de Proteção e Defesa Civil, em Florianópolis, que decide quando fecha e quando abre as comportas. A decisão é tomada considerando os níveis dos rios, o quanto choveu nas últimas horas e qual a previsão de chuva para as horas seguintes. O manual de operação das barragens de SC está disponível na internet.

Quando a estrutura atinge a capacidade máxima, como ocorreu em 2023, a água da chuva começa a passar por cima do chamado vertedouro. Outro paredão, esse um pouco mais baixo que a altura total do paredão da barragem, por onde passa uma estrada que dá acesso a aldeias indígenas (foto abaixo). Em 2023, estima-se que a estrutura evitou que a enchente em Blumenau fosse dois metros mais alta do que foi. Isso revela a importância da barragem para a região.

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Imagem explica barragem de José Boiteux (Foto: Patrick Rodrigues, NSC)