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    Ciência e Tecnologia

    Uma nova esperança para os que sofrem de enxaqueca

    Neuroestimulador que custa US$ 99 para 12 aplicações é operado por aplicativo de celular. Novo medicamento também demonstrou redução significativa na dor

    12/01/2020 - 18h52 - Atualizada em: 15/01/2020 - 16h20

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    Por The New York Times
    Uma nova esperança para os que sofrem de enxaqueca
    (Foto: )

    *Jane E. Brody

    Se você mora ou trabalha com alguém que sofre de enxaqueca, há uma informação muito importante que você precisa saber: enxaqueca não é "apenas uma dor de cabeça", como muitos parecem pensar. Também não é algo que se pode simplesmente ignorar e seguir com a vida.

    E, se você sofre de enxaqueca, há uma coisa que pode mudar sua vida e que você precisa saber: existem agora vários medicamentos disponíveis que podem prevenir ou aliviar muitas das crises e um novo acessório – que já está sendo comercializado – que pode ser ativado por meio de um smartphone e que serve para estimular os nervos e aliviar as dores da enxaqueca.

    A enxaqueca é um distúrbio neurológico caracterizado por ataques recorrentes de dor de cabeça severa e muitas vezes incapacitante, bem como pela disfunção do sistema nervoso autônomo, que controla as atividades automáticas do corpo, como a digestão e a respiração. A dor latejante ou pulsante da enxaqueca é frequentemente acompanhada de náusea e vômito.

    Tradução: a enxaqueca é uma dor de cabeça – certo –, mas com efeitos em todo o organismo, já que o cérebro conversa com o resto do corpo. Ela é geralmente severa o suficiente para causar um impacto devastador na capacidade da pessoa de trabalhar, interagir com outras pessoas, realizar as tarefas da vida cotidiana ou até mesmo estar em um ambiente normal. Durante uma crise de enxaqueca, a pessoa pode ser incapaz de tolerar luz, barulho, cheiros ou até mesmo ser tocada.

    "Nos EUA, há 47 milhões de pessoas com enxaqueca, sendo que seis milhões têm enxaqueca crônica, ou seja, mais de 15 dias de dor de cabeça por mês", disse o dr. Stephen Silberstein, neurologista da Universidade Thomas Jefferson e diretor do Centro de Dor de Cabeça Jefferson, na Filadélfia.

    Para o dr. David W. Dodick, neurologista da Clínica Mayo, em Scottsdale, no Arizona, "é hora de acabarmos com o preconceito e oferecermos tratamento eficaz às pessoas que sofrem de enxaqueca. Eles não estão fingindo, não são indivíduos fracos que não querem trabalhar".

    Além do preço pago pelas pessoas que têm enxaqueca, o custo para os empregadores também pode ser exorbitante. Por exemplo, em uma recente pesquisa conduzida pela Sociedade Japonesa de Dor de Cabeça, com mais de 2.400 trabalhadores da Fujitsu, uma empresa de tecnologia da informação com sede em Tóquio, a produtividade de 1 em cada 5 colaboradores foi prejudicada por crises de enxaqueca. Isso resultou em um custo estimado para a empresa, que emprega quase 150 mil pessoas, de US$ 350 milhões por ano.

    Nos Estados Unidos como um todo, o ônus econômico causado pela enxaqueca é exorbitante – ao menos US$ 11 bilhões em custos médicos diretos e relacionados e pelo menos outros US$ 11 bilhões em custos indiretos, em decorrência da deficiência que ela causa, segundo o dr. Wayne N. Burton, de Chicago, ex-diretor médico corporativo global da American Express.

    A condição resulta não apenas no absenteísmo, mas também no que os especialistas chamam de "presenteísmo" – pessoas que estão no trabalho, mas são incapazes de realizar as tarefas de forma eficaz. Trabalhei com um editor que tinha enxaqueca e que ia para casa assim que sentia que uma crise forte de enxaqueca estava se aproximando; caso contrário, ele não conseguiria chegar em casa até que a crise passasse.

    Embora isso tenha acontecido há décadas, hoje em dia ainda há várias razões pelas quais a enxaqueca é mal controlada por tantas pessoas. Uma é a falta de apreço tanto dos médicos quanto das pessoas em geral, o que pode desencorajar os pacientes a procurar tratamento. Outra é a tendência de quem sofre de enxaqueca de achar que pode ou deve ser capaz de lidar com o problema por conta própria, com medicamentos que requerem ou não receita médica.

    Segundo Silberstein, com base nessa suposição surge mais um obstáculo que pode realmente piorar a condição: o abuso de medicamentos. "Metade dos pacientes com enxaqueca crônica faz uso excessivo do tratamento de acordo com as pesquisas que realizamos", disse ele.

    Por outro lado, afirmou o médico, quando um ataque é iminente, muitas pessoas esperam demais para iniciar o tratamento, "porque estão em negação e esperam que a dor de cabeça desapareça por conta própria".

    "Mas, quanto mais você esperar, mais difícil será o alívio das dores", acrescentou ele. "Talvez o principal problema seja a escassez de médicos especialistas – 580, ou um médico para cada 80 mil pessoas com enxaqueca, que sabem da condição e conhecem as terapias disponíveis", disse Dodick.

    E, mesmo que encontrem um especialista, muitos planos de saúde não cobrem o tratamento com especialistas certificados em dor de cabeça. Por isso, muito frequentemente, os pacientes durante uma crise insuportável de enxaqueca acabam indo para o pronto-socorro de um hospital, que Silberstein descreveu como "o pior lugar para ir durante uma crise de enxaqueca, com todas as luzes, barulho, atividade e espera". Como disse Dodick, "o cérebro amplifica os sinais que recebe, intensificando a dor e os sintomas por todo o corpo".

    Existem quatro medicamentos orais em duas classes que foram aprovados pela FDA (agência federal norte-americana responsável pelo controle de alimentos e remédios) para a prevenção de enxaquecas: dois anticonvulsivantes e dois betabloqueadores. Além disso, pacientes com enxaqueca crônica que apresentam sintomas todos os dias ou em dias alternados podem receber injeções de Botox.

    "Quarenta por cento das pessoas com enxaqueca deveriam estar em tratamento preventivo, mas somente treze por cento estão", informou Silberstein.

    Para tratar uma crise de enxaqueca, os médicos contam com os remédios chamados triptanos, que agem como a serotonina química do sistema nervoso e acalmam os nervos que transmitem os sinais de dor. Há também os medicamentos biológicos, anticorpos monoclonais que podem ser administrados uma vez por mês ou a cada três meses. Eles foram desenvolvidos para tratar enxaquecas e agem na proteína ou no receptor que transmite os sinais de dor, disse Dodick.

    Infelizmente, os produtos biológicos são caros e os planos de saúde geralmente insistem que as dores não são aliviadas após três meses de tratamento com qualquer um dos dois medicamentos, antes de cobrirem os custos. Contudo, para alguns pacientes, incluindo aqueles com problemas cardíacos, a cobertura do plano de saúde pode ser mais facilmente obtida se seus médicos documentarem que os medicamentos mais antigos trazem riscos à saúde deles. Ainda assim, frequentemente os médicos precisam encarar um demorado processo jurídico para conseguir a liberação necessária para os pacientes.

    Silberstein pediu paciência ao testar um novo medicamento para enxaqueca. Ele e seus colegas estudaram pacientes que notaram pouca melhora nos sintomas da enxaqueca após um ou dois meses de tratamento biológico, mas que, depois de seis meses, praticamente não tiveram dor de cabeça.

    Uma nova opção não alopática é um neuroestimulador comercializado pela Theranica como Nerivio Migra. Trata-se de uma braçadeira com uma bateria recarregável que transmite impulsos elétricos fracos na pele e que pode ser ligada e desligada conforme necessário por meio de um aplicativo de celular. O preço base do dispositivo é de cerca de US$ 99 para doze aplicações.

    Também no horizonte está uma nova classe de compostos chamados gepants, que agem nas crises de enxaqueca. Um estudo com um desses medicamentos, o ubrogepant, publicado recentemente no "The New England Journal of Medicine", por exemplo, registrou uma redução significativa na dor e em outros sintomas da enxaqueca em pacientes que tomaram 50 miligramas desse medicamento por via oral.

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