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Uma nova teoria questiona: a máscara poderia ser uma 'vacina' grosseira?

As exposições com o uso de máscara não substituem uma vacina genuína

21/09/2020 - 11h44

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Por The New York Times
Experimentos em hamsters sugeriram uma conexão entre a dose e a doença
Experimentos em hamsters sugeriram uma conexão entre a dose e a doença
(Foto: )

*Por Katherine J. Wu

Enquanto o mundo aguarda uma vacina contra o coronavírus que seja segura e eficaz, uma equipe de pesquisadores apresentou uma nova teoria provocativa: a máscara pode ajudar a imunizar, grosseiramente, algumas pessoas contra o vírus.

A ideia não comprovada, descrita em um comentário publicado na semana passada no "The New England Journal of Medicine", é inspirada no antigo conceito de variolação – a exposição deliberada a um patógeno para gerar uma resposta imunológica protetora. Tentada pela primeira vez contra a varíola, a prática arriscada acabou caindo em desuso, mas abriu caminho para o surgimento das vacinas modernas.

As exposições com o uso de máscara não substituem uma vacina genuína. Mas dados de animais infectados com o coronavírus, bem como as informações coletadas de outras doenças, sugerem que a máscara pode diminuir as chances de uma pessoa ficar doente, já que reduz o número de vírus que encontram a via respiratória.

Os pesquisadores argumentam que, se ainda assim, um pequeno número de patógenos escapar, eles podem levar o corpo a produzir células imunológicas capazes de se lembrar do vírus e de permanecer por perto para combatê-lo novamente.

"Você pode ter esse vírus, mas ser assintomático. Portanto, se você puder aumentar as taxas de infecção assintomática com a máscara, talvez isso se torne uma forma de variolar a população", afirmou a dra. Monica Gandhi, médica infectologista da Universidade da Califórnia, em San Francisco, e um dos autores do comentário.

Isso não significa que as pessoas devam usar máscara para se inocular intencionalmente com o vírus. "Essa não é, de forma alguma, a recomendação. Nem as festas de varíola", acrescentou ela, referindo-se às reuniões sociais que misturam pessoas saudáveis e doentes.

A teoria não pode ser provada diretamente sem ensaios clínicos que comparem os resultados de pessoas que usam máscara na presença do coronavírus com os resultados daqueles que estão sem elas – uma configuração experimental antiética. Embora alguns especialistas tenham ficado intrigados com a teoria, eles relutaram em adotá-la sem mais informações e aconselharam uma interpretação cuidadosa. "Parece um exagero. Não temos o suficiente para apoiar isso", disse Saskia Popescu, epidemiologista de doenças infecciosas do Arizona, que não participou do comentário.

Se interpretada da maneira errada, a ideia poderia conduzir o usuário de máscara a uma falsa sensação de complacência, colocando-o potencialmente em maior risco do que antes, ou talvez até mesmo reforçar a noção incorreta de que a cobertura facial é totalmente inútil contra o coronavírus, uma vez que não pode tornar o usuário imune à infecção.

"Ainda queremos que as pessoas sigam todas as outras estratégias de prevenção", comentou Popescu. Isso significa ficar atento para evitar multidões, manter distanciamento físico e higienizar as mãos – comportamentos que se sobrepõem em seus efeitos, mas não podem substituir um ao outro.

A teoria da variolação do coronavírus se baseia em duas suposições que são difíceis de provar: que doses mais baixas do vírus levam a doenças menos graves e que infecções leves ou assintomáticas podem estimular a proteção em longo prazo contra surtos subsequentes de doenças. Embora outros patógenos ofereçam algum precedente para ambos os conceitos, as evidências para o coronavírus permanecem escassas, em parte porque os cientistas tiveram a oportunidade de estudar o vírus por apenas alguns meses.

Experimentos em hamsters sugeriram uma conexão entre a dose e a doença. No início deste ano, uma equipe de pesquisadores na China descobriu que roedores alojados atrás de uma barreira feita de máscaras cirúrgicas tinham menos probabilidade de ser infectados pelo coronavírus. E aqueles que contraíram o vírus ficaram menos doentes do que outros animais sem máscara para protegê-los.

Algumas observações em humanos também parecem apoiar essa tendência. Em locais lotados, onde as máscaras são amplamente usadas, as taxas de infecção parecem despencar. E, embora as coberturas faciais não possam bloquear todas as partículas de vírus que chegam para todas as pessoas, elas parecem estar associadas a menos doenças. Os pesquisadores descobriram surtos, em grande parte silenciosos e sem sintomas, em locais que vão desde navios de cruzeiro até fábricas de processamento de alimentos, todos cheios de pessoas que em sua maioria usavam máscara.

Dados que ligam a dose aos sintomas foram coletados de outros micróbios que atacam as vias respiratórias humanas, incluindo os vírus da gripe e as bactérias que causam a tuberculose. "Mas, apesar de décadas de pesquisa, os mecanismos da transmissão aérea permanecem em grande parte uma caixa preta", afirmou Jyothi Rengarajan, especialista em vacinas e doenças infecciosas da Universidade Emory, que não participou do comentário.

Ela explicou que isso ocorre, em parte, porque é difícil determinar a dose infecciosa necessária para adoecer uma pessoa. Mesmo que os pesquisadores acabem estabelecendo uma dose média, o resultado vai variar de pessoa para pessoa, uma vez que fatores como a genética, o estado imunológico e a arquitetura das passagens nasais podem influenciar a quantidade de vírus capaz de colonizar o trato respiratório.

E confirmar a segunda metade da teoria da variolação – que a máscara permite a entrada de vírus apenas o suficiente para preparar o sistema imunológico – pode ser ainda mais complicado. Embora vários estudos recentes tenham apontado a possibilidade de que casos leves de Covid-19 possam provocar uma forte resposta imunológica ao coronavírus, a durabilidade da proteção não pode ser comprovada até que os pesquisadores coletem dados sobre infecções por meses ou anos depois de sua resolução.

"No geral, a teoria tem alguns méritos. Mas ainda estou bastante cética", disse Angela Rasmussen, virologista da Universidade Columbia, que não participou do comentário.

De acordo com ela, é importante lembrar que as vacinas são inerentemente menos perigosas do que as infecções reais, razão pela qual práticas como a variolação (às vezes chamada de inoculação) acabaram por se tornar obsoletas. Antes que as vacinas fossem descobertas, os médicos esfregavam pedaços de crostas de varíola ou pus na pele de pessoas saudáveis. As infecções resultantes eram geralmente menos graves do que os casos de varíola detectados da maneira típica, mas "as pessoas definitivamente contraíram varíola e morreram de variolação", relatou Rasmussen. E a variolação, ao contrário das vacinas, pode tornar as pessoas foco de contágio para outras.

Gandhi reconheceu essas limitações, observando que a teoria não deve ser interpretada como outra coisa que não seja isso – uma teoria. Ainda assim, ela disse: "Por que não aumentar a possibilidade de não adoecer e ter alguma imunidade enquanto esperamos pela vacina?"

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