O surgimento de novos casos de varíola dos macacos no mundo tem levado brasileiros a procurarem pela vacina no país. Até esta sexta-feira (27), nenhum caso foi confirmado da doença foi confirmado no Brasil.
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Em um levantamento feito pela Associação Brasileira de Clínicas de Vacinas (Abcvac) a pedido do jornal Folha de S.Paulo, 73% dos associados responderam que aumentou a procura por um imunizante. Do total, 25% afirmaram que há “muita” demanda e 48%, que há “alguma” demanda.
Apesar do interesse recente, nenhum imunizante da varíola está disponível nem na rede privada nem no Sistema Único de Saúde (SUS).
— Essas vacinas hoje têm produção muito limitada. Elas são usadas apenas em militares que vão para expedição, profissionais de laboratório que manipulam o vírus da varíola, produtores de vacinas. São grupos muito específicos. Não há produção suficiente nem uso em nenhum [outro] lugar do planeta — explica o diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações, Renato Kfouri.
A vacina da varíola parou de ser aplicada no Brasil em 1979 e, em maio de 1980, a Assembleia Mundial da Saúde declarou oficialmente a erradicação da doença. O histórico de vacinação virou motivo de piada –e de festa– para quem nasceu antes disso.
“Primeira vantagem que vi agora em ser velha. Eu tomei [a vacina]!”, escreveu no Twitter a psicóloga e roteirista Déia Freitas.
— Não chequei meu cartão de vacinação porque não tenho mais, mas fiquei aliviada de saber que em 1975, ano em que nasci, todo mundo ainda era vacinado — disse à reportagem.
Quem guardou o cartão de vacinação faz questão de exibir a relíquia. Nascido em 1965, o biomédico e professor Mario Cesaretti tomou três doses da vacina da varíola: em 1966, 1970 e 1973. Ele conta que, quando o assunto da vacinação veio à tona, não teve dúvidas de que o cartão estaria completo.
— Minha mãe era professora da escola de enfermagem do que hoje é a Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). Ela guardou o cartão de vacinação e deixou comigo. Está, inclusive, em um saco plástico. Quando a vacina fazia uma bolinha na pele, como se fosse uma lesão de varíola, eles escreviam ‘positivo’ no cartão. Na segunda vez [que tomei], a vacina não reagiu mais. Aí escreveram ‘negativo’ — conta.
Apesar da comemoração nas redes sociais, a avaliação do presidente da Sociedade Brasileira de Virologia, Flávio Fonseca, é de que as pessoas que tomaram a vacina da varíola antes da década de 1980 não estão mais imunizadas. Fonseca integra o grupo consultivo criado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações para acompanhar o avanço da doença.
— Estudos mostram que a imunidade dura cerca de 30 anos. Pode ter uma variação para mais ou para menos, dependendo da pessoa. O mais certo de se pensar é que ela não está mais protegida porque um componente importante de proteção é a reapresentação ao patógeno [agente causador da doença]. No Brasil, com a erradicação da varíola, não houve uma nova estimulação — explica.
Ethel Maciel, epidemiologista e professora da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), afirma que existem duas vacinas capazes de proteger contra a varíola dos macacos.
— O que se sabe até o momento é que a vacina da varíola que a gente administrava no Brasil tem eficácia de 85% contra a varíola dos macacos. Em 2019, nós tivemos a aprovação de uma nova vacina específica para a varíola dos macacos, mas ela não existe em larga escala — diz.
Além do aumento da procura, a Abcvac identificou uma aparente confusão entre varíola e varicela, o vírus causador da catapora.
— Muitas clínicas associadas pelo Brasil todo relataram a procura por uma vacina contra a varíola. As pessoas também estão querendo saber se a vacina de varicela protege do monkeypox [vírus da varíola dos macacos]. É papel de cada clínica, enquanto estabelecimento de saúde, passar as orientações de que a vacina da varicela não protege contra o monkeypox e explicar que a vacina aplicada no passado contra a varíola não é mais usada há anos no Brasil — afirma o presidente da associação, Geraldo Barbosa.
— O interesse por uma vacina contra a varíola foi proporcional ao destaque dado nos meios de comunicação e, infelizmente, a procura por vacinas disponíveis, como a de gripe, está em queda tanto no setor público, como no privado. Sobram doses — complementa.
Kfouri afirma que, apesar do surgimento de casos em diferentes países, não há motivo para procurar o imunizante:
— A gente ainda tem muitas dúvidas sobre como usar essas vacinas. Temos pouca informação sobre a doença, a forma de contágio, os grupos de risco. E temos pouca vacina. Hoje não há recomendação de estratégia de vacinação, seja para proteção individual, seja para saúde pública.
O que é a doença?
A varíola dos macacos é do gênero Orthopoxvirus, o mesmo da varíola, e tem sintomas similares ao dela, embora menos graves. A maioria dos pacientes se recupera em poucas semanas, mas há possibilidade de evolução para casos problemáticos.
O vírus tem duas variantes principais: a cepa do Congo, mais grave e com até 10% de mortalidade, e a da África Ocidental, com mortalidade de 1%. Por enquanto, os casos reportados foram dessa cepa menos mortal.
O Brasil, até o momento, não registra casos suspeitos da doença. O governo federal montou um grupo de especialistas e emitiu um alerta aos estados com orientações para os profissionais de saúde sobre o diagnóstico e a notificação da doença.
Segundo especialistas, a transmissão se dá por contato próximo prolongado, não necessariamente sexual. O vírus pode entrar no corpo humano através do trato respiratório ou pelo contato, direto ou indireto, com fluidos contaminados.
Os sintomas incluem erupções cutâneas, febre, dores e calafrios.
*Por Thaísa Oliveira, de Brasília, para Folhapress
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