Quando vemos que o orçamento do Congresso Nacional foi confirmado em R$18,1 bilhões para 2026, a pergunta é inevitável: o que isso significa para o bolso do contribuinte? O debate vai além do valor absoluto, trata-se de entender por que a estrutura brasileira se tornou tão maior, e mais cara, do que a de outras democracias ao redor do globo.
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Para compreender essa conta, é preciso separar dois conceitos que, muitas vezes, confundem a opinião pública: o custo operacional da estrutura (“o custo da casa”) e o poder de direcionar verbas (“o poder da caneta”).
O custo de um mandato
A manutenção administrativa da Câmara dos Deputados gira em torno de R$14 bilhões anuais, valor que cobre salários de deputados e servidores. Dentro desse montante, o custo direto dos 513 deputados federais (salários, verba de gabinete, auxílio-moradia e CEAP) soma cerca de R$1,4 bilhão ao ano.
Em média, cada parlamentar custa R$270 mil por mês, ou R$3,2 milhões por ano, para manter sua estrutura de trabalho. É fundamental não confundir esse custo operacional com as emendas parlamentares. Estas últimas, que somaram R$61 bilhões em 2026, integram o Orçamento Geral da União e funcionam como ferramenta de execução de projetos e obras nos estados, e não como despesa de custeio da Casa.
Por que o nosso modelo é tão diferente?
A disparidade entre o Brasil e países como Estados Unidos ou Reino Unido fica evidente quando observamos a estrutura de pessoal. Enquanto legisladores nessas democracias operam com equipes enxutas, média de 4 a 6 assessores por mandato no Reino Unido, ou de 10 a 20 nos Estados Unidos, a Câmara brasileira sustenta uma estrutura de cerca de 14 mil servidores.
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A média nacional é de 25 assessores por deputado. Essa estrutura robusta é o reflexo direto da fragmentação partidária brasileira: com mais de 30 partidos ocupando cadeiras, a articulação política e o atendimento às bases regionais exigem uma estrutura administrativa que, na prática, funciona como uma empresa de médio porte para cada gabinete.
O rastro do “Cotão”
O uso da Cota para o Exercício da Atividade Parlamentar (CEAP) revela como essa estrutura se adapta a diferentes necessidades geográficas. Em estados com extensões territoriais gigantescas e infraestrutura logística limitada, como no Pará e no Amazonas, o fretamento de aeronaves figura como uma das maiores despesas. Nessas regiões, os gastos anuais com transporte aéreo podem variar entre R$160 mil e R$355 mil por parlamentar.
A logística terrestre também pesa: parlamentares com bases em estados extensos registram contas de combustíveis e lubrificantes que frequentemente superam os R$110 mil anuais. Quando olhamos o volume global de gastos do “Cotão” em 2025, o peso acompanha o tamanho das bancadas:
- PL: R$ 39 6 milhões
- PT: R$ 31,7 milhões
- União Brasil: R$ 28 milhões
A reforma que não sai do papel
A discussão sobre o custo do Legislativo sempre encontra uma barreira política. Especialistas da Comissão Mista de Orçamento (CMO) apontam que a modernização da máquina esbarra na resistência interna dos gabinetes, com propostas de PECs que travam no debate quanto ao tamanho ideal da estrutura.
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O desafio do Congresso brasileiro, portanto, não é a falta de transparência, já que os dados são públicos, auditáveis pelo Tribunal de Contas da União (TCU) e acessíveis via Portal da Transparência, mas a busca pela eficiência. A sociedade cobra um sistema menos custoso, mas a dinâmica partidária mantém um modelo que prioriza a manutenção de uma vasta estrutura de apoio.
No fim das contas, a pergunta que o contribuinte faz não é sobre a legalidade dos gastos, mas sobre o quanto dessa engrenagem é, de fato, indispensável para o funcionamento da democracia.






