O ataque dos Estados Unidos contra a Venezuela, que resultou na captura do presidente Nicolás Maduro e deve representar um novo governo no país vizinho comandado temporariamente pelos Estados Unidos, provocou reações de venezuelanos que vivem em Santa Catarina. O Estado já recebeu mais de 40 mil imigrantes do país vizinho nos últimos anos, segundo dados da Polícia Federal. Cidadãos da Venezuela que moram e trabalham em SC buscaram fazer contato com familiares nas horas seguintes à ofensiva dos EUA e veem a situação do país com um misto de incerteza e esperança. Em Blumenau, dezenas de venezuelanos foram às ruas na tarde deste sábado (3) e comemoraram a captura de Nicolás Maduro em um ato em frente à prefeitura, cartão-postal da cidade.
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William Hernández, que estava na manifestação deste sábado em Blumenau, deixou a Venezuela há 12 anos. A decisão de partir veio quando o salário em supermercado não era mais o suficiente para colocar comida na mesa. Não à toa, passou as últimas duas semanas antes de migrar comendo apenas uma vez por dia para economizar. O dia que cruzou a fronteira teve choro. Hoje, também.
— Eu chorei por ter que deixar meu país. Lembro do militar da Venezuela me xingar um monte por escolher tentar uma vida nova no Brasil. Do outro lado, o policial brasileiro me acolheu. Desde aquele dia, nunca mais voltei por medo — recorda.
Sobrinho de militar em Caracas, William mandou mensagem para a prima após ver os vídeos do ataque e fez uma pergunta direta: “Isso é verdade?”. O “sim” da resposta trouxe um misto de sentimento.
Veja fotos da manifestação de venezuelanos em Blumenau
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Emyli Platz, que também participou do ato em Blumenau, conta que soube da notícia por meio da família.
— Duas horas da madrugada meu irmão me acordou e começou a mostrar os vídeos. Chamamos a família inteira. Nunca mais pensei que iria poder voltar para o meu país — desabafa, contando que mandou estampar camisas com a frase “Venezuela livre”.
Também foram registradas manifestações de venezuelanos em outras cidades catarinenses, como Chapecó e Joinville.
Venezuelanos de SC buscaram contato com familiares
Horas antes da manifestação em Blumenau, pela manhã, após acordar e saber da notícia do ataque à Venezuela, o economista venezuelano José Antonio Lara Duran, morador de Blumenau, entrou em contato com familiares que estão em território venezuelano. Soube que um padrinho havia saído às pressas de Caracas, alvo do ataque, para se refugiar no interior. O cenário por ora é de incerteza.
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— Teve um padrinho que teve que sair às pressas de Caracas para o meu estado, Lara, e lá eles conseguiram se refugiar. Mas o cenário era de muita incerteza. Infelizmente, para quem mora lá, já não há um estilo de vida normal, um dia a dia normal — revela o venezuelano.
José saiu da Venezuela em 2016 e veio morar no Brasil à procura de estabilidade financeira, crescimento profissional e melhores condições de vida. Hoje, vive em Blumenau, de onde torce pela mudança de governo venezuelano, pelo fim de uma ditadura e da escassez que vive o país, afirma.
Apesar da surpresa, a motorista de aplicativo Virginia Cova conta que não sentiu medo após os ataques estadunidenses. Para ela, o sentimento é de otimismo com uma possível abertura política no país.
Ainda que tenha saído da Venezuela há 10 anos, ela tem parentes que continuam morando no país, como o pai, tios e tias. Eles vivem no interior e passam bem.
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— Não senti medo porque o ataque foi direcionado ao alto comando militar. E, a falta de alimentos, de luz, água e internet é muito comum, logo, nada surpreende — relata a venezuelana, que mora em Joinville desde 2021.
Enquanto isso, Virginia confessa que o episódio registrado neste sábado causou satisfação. A família também respirou um pouco aliviada diante da possibilidade de mudança no governo venezuelano.
Após os ataques, José revela que o sentimento também não foi de medo, mas de incerteza e frustração. Para ele, esta é uma oportunidade que o país tem de se livrar de um sistema ditatorial.
— A verdade é que atualmente o sentimento é um pouco de frustração porque historicamente a gente tem passado por muitos períodos de aproximação da saída do regime ditatorial, mas mesmo a gente se aproximando muito, acabamos não conseguindo [sair do atual governo]. Então, isso deixa a população muito frustrada e o sentimento atual é de muita incerteza, não saber o que vai acontecer e isso deixa o pessoal um pouco constrangido com o futuro — cita, sem saber qual será o futuro do país.
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Engenheira que mora em SC cita “alívio”
Mayela Moreno Medina deixou a Venezuela há quase três anos e veio para Santa Catarina. Na manhã deste sábado (3), ao receber uma mensagem da irmã sobre a ação norte-americana, o primeiro sentimento da engenheira industrial foi medo.
Depois, refletindo um pouco mais, veio o alívio de saber que os parentes que ficaram no país até então sob o controle de Maduro podem começar a escrever uma história longe da ditadura. Quando ela decidiu sair do país natal, o cenário era dramático, conta:
— A crise econômica bateu forte em nossa família. Estávamos com dificuldade até para comer.
Em SC, foi acolhida e conseguiu emprego. Passou a ver à distância os desafios enfrentados pelos parentes. Agora, com a família em segurança, longe da capital Caracas, onde se concentram os ataques dos EUA, os relatos são de satisfação e otimismo com possíveis mudanças.
Estados Unidos vão administrar país
Como vai funcionar o governo da Venezuela após o ataque norte-americano e a captura de Nicolás Maduro ainda não está claro. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse durante a coletiva de imprensa na tarde deste sábado (3) que o governo estadunidense irá administrar o país venezuelano.
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— Nós vamos administrar até que uma transição adequada possa acontecer. Não queremos que outra pessoa assuma o poder e a situação se repita. Portanto, vamos governar o país — declarou. Ele não especificou quanto tempo essa transição deve durar.
María Corina Machado, líder da oposição ao regime de Nicolás Maduro, defendeu que Edmundo González Urrutia seja proclamado “legítimo Presidente da Venezuela”. Em nota, a vencedora do Nobel da Paz disse que o adversário de Maduro nas eleições de 2024 deve assumir “imediatamente o mandato constitucional e ser reconhecido como Comandante em Chefe da Força Armada Nacional por todos os oficiais e soldados que a integram”.








