A atriz Vera Holtz volta a Florianópolis neste fim de semana com o espetáculo Ficções, espetáculo inspirado no best-seller Sapiens – Uma breve história da humanidade, do filósofo Yuval Noah Harari. Em cartaz no Teatro Ademir Rosa (CIC), a montagem convida o público a refletir sobre a condição humana — tema que, segundo a atriz, parece cada vez mais urgente.
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— Percebi quantas pessoas estão precisando conversar sobre a condição humana, seja nas inter-relações, nas crises do feminino e do masculino, no viver, no contraponto entre morte e vida — diz a artista.
Escrita e encenada por Rodrigo Portella, a peça aborda uma ideia central no livro de Harari: a capacidade humana de criar ficções coletivas — crenças, narrativas e sistemas que organizam a vida em sociedade. No palco, Vera alterna personagens, improvisa, canta e dialoga diretamente com a plateia, em uma encenação que mistura humor, música e reflexão sobre o comportamento do homo sapiens.
Depois de três anos em circulação e mais de 160 mil espectadores, o espetáculo terá três apresentações na capital catarinense, na sexta-feira (6), às 20h30min; no sábado (7), às 20h, e no domingo (8), às 19h. Os ingressos seguem à venda na plataforma Disk Ingressos.
Em entrevista ao NSC Total, Vera Holtz fala sobre a contemporaneidade da peça, a importância do humor e a relação única com a plateia. A atriz também recorda passagens da carreira na televisão e relembra o trabalho com Dennis Carvalho, diretor da Globo que faleceu na semana passada, no Rio de Janeiro, com quem trabalhou em novelas.
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Veja a entrevista com Vera Holtz
Você vem a Florianópolis para três apresentações de Ficções. A peça está em cartaz desde 2022, já teve grande repercussão de público e você inclusive recebeu prêmios por ela. Na sua visão, o que explica esse sucesso?
Ontem eu estava numa reunião e a gente conversava sobre alguns temas. Percebi quantas pessoas estão precisando conversar sobre a condição humana, seja nas inter-relações, nas crises do feminino e do masculino, no viver, no contraponto entre morte e vida e em todo esse sistema de crenças e narrativas que estamos vivendo agora. Como se diz, “o nosso céu está coalhado de drones, e as nuvens que nos protejam”. Eu acho que a peça fala sobre isso.
É um lugar onde não tem fake news. As pessoas vão para lá para se reunir e falar sobre a condição humana, sobre o comportamento do homo sapiens. Partimos da ideia de que ele é um animal, como todos os outros. Não é uma discussão sobre o homem no centro, é sobre o homo sapiens. E quem conta a história da humanidade é esse ser que tem uma capacidade extraordinária de adaptação, cooperação e invenção. Ele inventa coisas que não existem, o outro acredita e todo mundo passa a acreditar. Esse giro coletivo faz com que todos passem a acreditar na mesma coisa e sigam em frente. Acho que a peça tem essa relação. Recentemente estivemos em Curitiba, no Teatro Guaíra, com o teatro lotado. As pessoas participavam, conversavam entre elas e, pelos comentários que recebemos depois, ficaram muito felizes com a ideia de, por alguns instantes, conversar sobre o homo sapiens.
Parece que, de uma forma indireta, a peça também fala de política.
Sim, porque a gente não localiza nada. Não estamos falando de direita ou esquerda. A gente diz que existe direita, esquerda e várias outras coisas, mas que tudo isso foi criado pelo ser humano. Tudo faz parte da humanidade. É uma reflexão. E também que, se você cria, você descria. Você pode ter novas crenças, novas ficções e novos acordos. Obviamente isso é um movimento complexo da nossa humanidade, da nossa história. Mas levanta essa questão: claro que eu posso mudar, claro que eu posso ser diferente.
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Desde 2022, houve alguma mudança no texto da peça ou na encenação?
Acho que quem mudou fomos nós. A peça em si não mudou muito. Tentamos fazer uma versão mais enxuta, praticamente sem cenário, só com iluminação e música. Temos uma pedra em cena e dois elementos que se movimentam junto com a gente. Pensamos nisso mais para o futuro, quando talvez não tenhamos tanta facilidade de deslocamento, porque o Brasil é muito grande e às vezes é difícil ir de uma cidade para outra. Mas a peça continua a mesma. Nós é que nos transformamos. À medida que você fala disso o tempo todo, vai ficando mais próximo da história contemporânea e mais consciente do que está dizendo. Às vezes algumas pessoas da plateia nunca pensaram que tudo é criação humana, que muita coisa foi inventada pela humanidade. Então é delicado. Também fomos percebendo a dimensão da obra conforme fomos viajando. O Brasil é muito grande, o público é muito diversificado. E já fomos a Portugal com a peça. Lá tem a facilidade da língua, que para o teatro é importante, porque a comunicação é direta.
A peça tem improvisações também, certo?
Tem, por causa da plateia. A gente brinca com a plateia, sugere algumas músicas para que nos acompanhem ou repitam algum chamado. Às vezes eu me coloco no lugar do público. Tudo isso dentro do contexto do espetáculo, que fala de comportamento. O espetáculo é todo aberto. Você vê o palco praticamente nu, aquela ilha cenográfica onde a gente representa, mas também vê os diretores de cena, a contrarregragem, a camareira. Eu tenho um ponto em cena, porque como o espetáculo estreou muito rapidamente, às vezes, quando eu abro muito a guarda, eu esqueço a parte do texto. Então tem uma pessoa ali que me dá a deixa para continuar. É um ponto presencial, ao vivo, não é eletrônico.
A peça tem bastante humor. Qual que é a importância de fazer as pessoas rirem quando a gente está falando de algum assunto sério?
Eu acho que é a única saída que tem, porque o humor é o distanciamento crítico. Você não está em um extremo nem em outro. Está tendo uma visão crítica e se distanciando daquilo para criar uma situação de humor. O humor é muito importante como gênero. As pessoas riem porque se identificam com algumas coisas. A peça é uma tragicomédia, vamos dizer assim. A gente nem sabe exatamente como definir.
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Costumamos dizer que é uma jam session: a gente dá o tema e todo mundo entra para ficar junto naquele momento de alinhamento de pensamento, presença e música, que é o Federico Puppi, que é um cello italiano, está comigo em cena e é o diretor musical. Está comigo há quatro anos. Então o que às vezes você não sente pela palavra, você sente pela música. Então esse diálogo entre a palavra e a música está bem presente no espetáculo. E isso já foi a ideia do diretor, já foi concebido dessa forma o espetáculo.
O teatro acontece muito dessa relação única, naquela noite, entre a plateia e o artista. Ficções dá uma abertura para que tenha mais ainda essa troca. Você gosta da relação direta que o teatro cria com o público?
Gosto. O teatro dá muita liberdade pra gente. Liberdade no sentido de retorno, é muito rápido tudo. Você tá ali, a pessoa já fala, já retorna, ele gosta, ele não gosta, ele ri, ele não ri.
Algumas ficam muito entusiasmadas e esperam a gente na saída para conversar. Elas comentam o que acharam, o que deixaram de achar. É muito acolhedor. O público é espetacular. E essa diversificação do público brasileiro também vai expandindo muito a gente.
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Tem algum tema da peça que você gosta mais?
Gosto muito de falar do sistema de crenças, dessa coisa da criação mesmo. Se você cria, você descria. Gosto desse recorte: se tudo é ficção, significa que eu posso recriar. A peça também traz esperança também. A personagem tem uma hora que quer ter filho. Às vezes a plateia dá risada, imagina, eu quero ter um filho.
Mas ela fala um pouco da ideia, da continuidade, da procriação para dar o direito de que as novas gerações inaugurem novos tempos, não fiquem só no lugar dessas crenças que se repetem coisas que já estão defasadas, que já não precisariam mais estar nesse lugar.
Vera, você sente falta da televisão?
Sinto falta dos meus amigos: diretores, maquiadores, cabeleireiros, contrarregragem, camareiros. Do dia a dia. A rotina da televisão é muito dinâmica e divertida. Eu sempre fui muito estudiosa, então quando chegava na televisão estava bem preparada para o trabalho e eu queria tmabém me relacionar. Passeava pelos estúdios todos para rever meus amigos.
Perdemos o Denis Carvalho nesta semana. Trabalhei com ele em Paraíso Tropical (2007) e depois em Desejo de Mulher (2002). A gente se divertiu muito. Era muito gostosa a presença dele. Ele era vibrante, potente. A gente se divertia bastante trabalhando com ele.
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Qual é a grande diferença, para você, entre trabalhar com televisão e com teatro?
Eu passei mais de 30 anos na televisão. Comecei em 1988 e fui até 2022. Foram 34 anos em que a gente estava habituado a estar no trem-bala. Porque a televisão tem aquela dinâmica. E eu peguei uma um período em que é essas questões de sucesso eram medidas dia a dia.
No teatro você conversa com a pessoa na saída, na televisão você saia de manhã, ia para Copacabana, na rua, era uma conversaiada, “porque isso, porque aquilo”, comentários sobre novela, todo mundo parava. As pessoas gostavam, assistiam e davam retorno imediato.
Imagine bem que você está com trem bala, e você está colocando um transatlântico por ano no mar. Não tem como retornar. Então você está sempre nessa dinâmica. Seis capítulos por semana. Gravava praticamente um longa por semana. Então, era uma dinâmica. Isso que é o ponto da virada: como você está com uma máquina preparada para esse grau energético de trabalho, e recuar? Ter horas de descanso, tempo para pensar. Ócio, né? A gente não tem muito tempo para ter ócio na televisão. O teatro permite o que chamamos de ócio criativo.
Eu estou falando no meu caso, porque a minha experiência é a minha história. Outras pessoas poderiam ser de outra forma, mas eu não casei, não tenho filho. Então não tinha aquela dinâmica da casa, de você chegar e sair de um lugar e ir para outro. Então a gente ficava na televisão até tarde, chegava, estudava, gravava no outro dia. Essa festa aí toda, permanente, num período.
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Quais são os seus planos para o futuro?
Nós combinamos de levar Ficções aonde houver procura. Fomos convidados para um festival em Cabo Verde, então talvez no final do ano eu vá para lá. Já estive lá com a Sara Antunes em outro espetáculo, e agora levaríamos Ficções. Também temos um cenário em Portugal, o que facilita, mas ainda não está acertado se vamos levar ou não. Gostaria muito de fazer algumas ilhas de Portugal. Queria também Angola e Moçambique, mas acho um pouco difícil nas circunstâncias atuais.
Então vamos fazendo enquanto formos convidados e conseguirmos manter o grupo. A gente se auto-intitula o grupo de Sapiens. Enquanto esse coletivo tiver energia e paixão, seguimos fazendo Ficções. Não tenho nada de audiovisual ou cinema que eu possa antecipar agora. Acho que não vou conseguir mais fazer duas ou três coisas ao mesmo tempo. Prefiro fazer uma e fazer da melhor forma possível.






