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    Vitória de 'Parasita' nos Oscars mostra transformação na Academia

    "Parasita" fez história na premiação do Oscar por ser o primeiro longa-metragem em língua estrangeira a receber o prêmio de melhor filme

    20/02/2020 - 11h29

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    Por The New York Times
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    *Por Nicole Sperling e Brooks Barnes

    Los Angeles – Song Kang Ho, uma das estrelas de "Parasita", chorou no palco do Oscar. O diretor do filme, Bong Joon Ho, sorriu e brincou.

    "Parasita" fez história na premiação do Oscar por ser o primeiro longa-metragem em língua estrangeira a receber o prêmio de melhor filme. Sua vitória foi a comprovação dos elogios praticamente universais ao filme – um claro contraste com o vencedor do ano passado, "Green Book" – e ao diretor, Bong, que se tornou uma figura querida pelo público ao se deleitar com a pompa das premiações.

    "Sinto que algo vai me acertar e vou acordar deste sonho", afirmou nos bastidores, com duas das quatro estatuetas do Oscar presas em suas mãos como dois halteres. Para a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, o sonho de Bong é algo que estava caminhando há muitos anos para se tornar realidade, desde que houve a humilhação pelas manifestações da hashtag #OscarsSoWhite.

    "Temos muito orgulho da academia. Conversamos durante alguns anos sobre como reconhecer a qualidade dos cineastas do mundo todo e prestar atenção em sua forma de narrar, sua visão e sua criatividade. Esta noite isso aconteceu", afirmou Cheryl Boone Isaacs, ex-presidente da organização, durante uma entrevista no Baile do Governador, a festa oficial que é realizada após a premiação.

    Desde 2016, depois de dois anos seguidos sem que nenhum ator não branco fosse indicado aos Oscars, a academia tem trabalhado para diversificar sua base de votação: seja por raça, gênero ou nacionalidade. De acordo com uma análise feita pelo "The Hollywood Reporter", cerca de 39 por cento dos novos membros da academia não são originalmente dos EUA.

    No ano passado, a academia convidou 842 pessoas de 59 países para se tornarem membros, incluindo a diretora coreana Yim Soon-Rye ("Minha Pequena Floresta") o diretor de fotografia de "Parasita", Hong Kyung-Pyo, e o documentarista sul-coreano Hong Hyung-Sook ("Reclaiming Our Names").

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    A academia convidou 928 pessoas de 59 países para se tornarem membros no ano anterior, além de 774 de 57 países no outro ano. Em comparação, no início da década a academia costumava convidar menos de 180 pessoas por ano para se tornarem membros, com a maioria dos convites direcionados a quem já trabalhava em Hollywood. A academia convidou apenas 105 pessoas em 2008.

    Ainda assim, o efeito na votação do Oscar não foi imediato. A academia foi criticada este ano por, mais uma vez, não ter indicado nenhuma mulher para a categoria de melhor diretor. A maioria dos indicados a melhor filme eram homens brancos. E, dos 20 atores indicados em quatro categorias, apenas uma atriz, Cynthia Erivo, era negra. Nenhum integrante do elenco de "Parasita" foi indicado.

    Então, chegou a grande noite para "Parasita", que superou muitos filmes mais tradicionais – como "1917" e "Era Uma Vez... em Hollywood" – com seu exame profundo das relações de classe do ponto de vista de duas famílias intimamente relacionadas.

    "Não estamos apenas celebrando o filme 'Parasita', mas comemorando a vitória de um filme estrangeiro. Isso abre as portas para amantes do cinema internacional e significa muito para nós", afirmou Choi Woo Shik, que interpreta o filho da família principal no filme que desafia categorias.

    No ano passado, o filme "Roma", da Netflix, um drama familiar que se passa no México, foi indicado na categoria de melhor filme e seu diretor, Alfonso Cuarón, recebeu a estatueta de melhor diretor. Alguns observadores afirmaram que isso abriu o caminho para a vitória de "Parasita".

    "Há cinco anos, 'Parasita' jamais teria ganhado como melhor filme. A ideia de que um filme em língua estrangeira seja visto por um número de pessoas grande o suficiente para garantir uma vitória é extraordinária", afirmou o produtor Mark Johnson, um dos governadores da academia, responsável pelo comitê de filmes em língua estrangeira há quase duas décadas.

    Ainda assim, existe algo de especial em "Parasita" desde que o filme estreou no Festival de Cinema de Cannes, em maio, onde recebeu a concorrida Palma de Ouro. Isso ajudou o filme a alcançar uma bilheteria internacional de US$ 130 milhões, antes de chegar aos Estados Unidos e faturar mais US$ 35 milhões.

    Miky Lee, a herdeira e magnata que financiou e distribuiu "Parasita" por meio de sua posição como vice-diretora do conglomerado coreano de mídia CJ Group, conta que assistiu ao filme 18 vezes. "A primeira vez que o vi, achei que os pobres parasitavam os ricos. Quando vi pela segunda vez, compreendi que eles parasitam uns aos outros. Isso é algo que afeta a todos – como coexistir sem passar dos limites", afirmou durante o Baile do Governador.

    Segundo Bong, a internet também ajudou a tornar os eleitores e o público em geral abertos a um conteúdo mais diversificado. "Existem serviços de streaming, YouTube, mídias sociais. Espero que cheguemos ao dia em que a vitória de um filme em língua estrangeira será comum", afirmou nos bastidores da premiação.

    Ainda assim, quem viu a academia abraçar a inclusão em outras ocasiões, e pouco depois voltar aos velhos hábitos, continua duvidando do progresso. Spike Lee, que ganhou seu primeiro Oscar no ano passado pelo roteiro adaptado de "Infiltrado na Klan", um dos sete vencedores negros daquele ano, afirmou ao "The New York Times" no começo deste ano: "Depois da cerimônia do ano passado, saí com a certeza de que este ano não seria igual. Quando não temos um banquete, passamos fome."

    Quando questionado durante o Baile do Governador se as vitórias de "Parasita" compensavam a falta de diversidade em outras partes da premiação, Lee não titubeou. "A luta continua", disse.

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