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Voar já foi rotina. Durante a pandemia, é uma façanha

Jornalista norte-americano relata a experiência de viajar da Europa para os Estados Unidos, em meio às restrições sanitárias impostas pelo novo coronavírus no mundo

28/06/2020 - 09h00 - Atualizada em: 28/06/2020 - 09h27

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Por The New York Times
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*Por Jack Ewing

Frankfurt, Alemanha – Recentemente, tomei o metrô em Frankfurt pela primeira vez desde fevereiro, o início de uma viagem transatlântica de 6.440 quilômetros para me encontrar com minha esposa após uma separação de três meses.

Ao longo do quarto de século em que vivi e trabalhei na Alemanha, já voei inúmeras vezes para os Estados Unidos. Mas agora, no meio da pandemia, essa parecia uma viagem rumo ao desconhecido.

Cruzar fronteiras não é mais rotina. Os europeus ainda são persona non grata nos Estados Unidos. Eu estaria voando de um país que acabou de sair do confinamento para outro onde o vírus ainda está em ação em algumas comunidades.

No fim de um longo dia, eu estaria com minha esposa, Bettina. Mas a experiência, às vezes frustrante, às vezes surreal, me deixou com a impressão de que voar nunca mais seria a mesma coisa.

Ficou claro que a viagem era mais difícil hoje em dia assim que tentei reservar um voo. A Lufthansa não me permitiu resgatar um voucher de voo de uma viagem cancelada on-line. Em vez disso, tive de ligar para o centro de atendimento, severamente sobrecarregado, que depois de uma longa espera fez minha reserva, mas depois se esqueceu de me enviar uma confirmação por e-mail. Eu não sabia se tinha uma reserva válida ou não.

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Depois de inúmeras tentativas de novamente falar com eles, incluindo uma vez em que esperei por uma hora e a ligação acabou caindo, consegui confirmar minha reserva. Então, faltavam menos de 24 horas para a partida.

No dia em que eu voaria, a Lufthansa reportou uma perda trimestral de 2,1 bilhões de euros, ou US$ 2,4 bilhões, à medida que o tráfego de passageiros desaparecia em meio ao surto de coronavírus. Uma pergunta para a gerência da Lufthansa: se você precisa de todos os clientes que conseguir, por que dificultar tanto a reserva de passagem?

Cerca de duas dúzias de pessoas estavam na fila no check-in quando cheguei ao aeroporto de Frankfurt na manhã da minha viagem. Normalmente, os voos para os Estados Unidos estão cheios de turistas alemães. Mas todos agora falavam inglês com sotaque americano. Deduzi de suas conversas e mochilas camufladas que muitos eram militares voltando para casa com a família.

Então, para meu espanto, o funcionário da companhia aérea que verificava passaportes me tirou da fila e me instruiu a esperar pela imigração. Depois dos problemas com a Lufthansa, eu já estava nervoso com o tipo de problema administrativo que poderia encontrar nessa viagem.

Para meu alívio, a imigração estava procurando por alguém com um nome vagamente semelhante ao meu, mas com metade da minha idade. Alguns minutos depois, eu estava com o cartão de embarque em mãos, passando por uma série de lojas fechadas. Eu podia ouvir meus próprios passos ecoando no piso de mármore.

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E aqui está a coisa estranha. Havia algo intrigantemente agradável em um aeroporto deserto. Muito do estresse das viagens aéreas vem das longas filas e das multidões, mas Frankfurt estava pacífico. Até os guardas organizando as bandejas de plástico na segurança pareciam alegres.

A sensação de estranho contentamento continuou no avião, um Boeing Dreamliner operado pela United Airlines, parceira da Lufthansa na Star Alliance. Havia pelo menos um lugar vazio entre os passageiros, exceto para as famílias. Em outras palavras, não estávamos apertados como sardinhas.

A United ofereceu garantias de que o avião tinha sido completamente desinfetado. Ainda assim, limpei meus apoios de braço e a bandeja de assento com um lenço desinfetante. E também usei máscara durante a viagem toda.

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O único lado ruim foi o almoço. Ninguém espera muito da culinária de bordo, mas, em nome do saneamento, o "frango picante" e o pote de frutas vieram em embalagens seladas com filme plástico que tiveram de ser retiradas. Depois, não houve café ou chá.

De alguma forma, tenho a sensação de que pequenos privilégios como café e pães frescos nunca mais vão voltar.

Cerca de oito horas depois, aterrissamos no Aeroporto Internacional de Dulles, perto de Washington, onde eu planejava pegar uma conexão para Burlington, Vermont. Foi lá que cresci e lá minha esposa e nossa filha de 24 anos faziam sua quarentena.

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Chegar aos Estados Unidos era a parte da viagem que mais me preocupava. O formulário oficial que meus companheiros de avião e eu tivemos de preencher antes do pouso deixou claro que as pessoas da União Europeia não eram bem-vindas. Não houve menção de uma isenção para cidadãos americanos como eu, embora eu soubesse que deveria haver.

Mas foi tudo fácil. Em Dulles, uma mulher com roupa de enfermeira checou meu formulário, me perguntou se eu estava me sentindo mal e apontou um sensor para minha cabeça.

É fácil imaginar exames de saúde como esse se tornando parte permanente das viagens internacionais, juntamente com a piora da comida. Os viajantes só podem esperar que a pandemia também traga algumas mudanças positivas, como voos menos lotados e mais liberdade para mudar a reserva sem pagar taxas rígidas.

O sensor disse que minha temperatura corporal era de 36,7 ºC. Estava liberado.

O Aeroporto de Dulles parecia ainda mais sonolento que o de Frankfurt. Fileiras de jatos da United estavam estacionadas em uma pista lateral, evidentemente esperando uma vacina para retomar as viagens aéreas. Tudo, exceto alguns restaurantes, estava fechado no aeroporto. Fiquei feliz por ter trazido algumas barras de cereais.

O avião para Burlington, outro voo da United, estava tão vazio que o piloto pediu às comissárias de bordo que transferissem os passageiros para a frente do avião. "Estamos um pouco pesados na parte de trás", informou ele pelo interfone.

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Vermont exige que as pessoas que chegam de fora do estado fiquem em quarentena por 14 dias. Mas não havia ninguém tomando nomes quando aterrissei, apenas o rosto amigável da minha esposa. Parecia que o único controle era uma placa na saída para o aeroporto, como as usadas para alertar sobre obras na estrada à frente. "Fique em casa", dizia.

Subestimei o governo estadual de Vermont. Alguns dias depois, recebi um telefonema de uma mulher amável do Departamento de Saúde perguntando se eu me sentia bem, lembrando-me das regras de quarentena e oferecendo informações sobre onde fazer um teste de coronavírus se eu quisesse. Estou bem, respondi, mas obrigado por perguntar.

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