Após o fim das eleições de 2026, no último final de semana, iniciou-se uma onda de boicotes a empresas e comércios considerados “esquerdistas”. Listas compartilhadas em grupos de WhatsApp e Instagram incentivam empreendedores e clientela a deixar de comprar nos estabelecimentos ou contratar profissionais que tiverem se posicionado a favor da reeleição do presidente Lula (PT).
No entanto, essa não é a primeira vez que a polarização política no Brasil tem mobilizado o cancelamento de pessoas, empresas e até marcas, alvos tanto da direita quanto, também, da esquerda.
Polarização política boicota marcas e empresas há dez anos
As campanhas públicas de boicote político ganharam força após o impeachment da então presidente, em 2016, Dilma Rousseff (PT). Todo o processo foi acompanhado por uma forte articulação política, com manifestações de rua que fizeram com que a população se posicionasse politicamente de forma pública.
Com as redes sociais cada vez mais presentes no cenário político, a polarização ficou ainda mais evidente nas eleições seguintes. Em 2018, o empresário Luciano Hang, dono da empresa catarinense Havan, teve contato com o então candidato e hoje ex-presidente Jair Bolsonaro, e foi naquela época que seu cargo virou mais que no empresariado, mas também uma figura forte politicamente. Hang chegou a dizer que deixaria o Brasil se Bolsonaro perdesse, o que não aconteceu.
Depois disso, a Havan foi alvo de movimentos por parte da esquerda para que a compra na loja de departamentos fosse evitada. A Central Única dos Trabalhadores (CUT) chegou a publicar uma nota com uma lista de empresas ligadas a Bolsonaro por apoios públicos nas redes sociais, com locais como a própria Havan, Riachuelo e a SmartFit, rede de academias famosa em todo o Brasil.
A Madero e o Coco Bambu, do ramo de restaurantes, também já tiveram seus nomes incluídos nesse tipo de listagem pelo mesmo motivo. O ramo artístico também não ficou de fora, com cantores como Gusttavo Lima sendo alvos de boicotes por apoiarem publicamente Jair Bolsonaro. O cantor sertanejo, por exemplo, voltou a ser criticado por nomes da esquerda por apoiar Flávio Bolsonaro (PL) para o pleito de 2026.
No campo dos atores, Regina Duarte também é lembrada por esse tipo de boicote após manifestações públicas. Ela foi, inclusive, secretária especial da Cultura do governo Jair Bolsonaro. Atualmente, segue com críticas ao governo Lula, chegando a questionar o resultado das eleições de 2026. Em uma publicação, ela disse: “vai ficar por isso mesmo?”, ao falar sobre a vitória de Lula.
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“Quem lacra não lucra”
Por outro lado, o boicote a marcas vistas como de esquerda, muitas vezes sem nem declarar apoio explícito a candidatos, também não é de hoje. Na internet, o bordão “Quem lacra não lucra” é usado por grupos conservadores para criticar empresas e marcas que adotam posicionamentos políticos, sociais ou de diversidade em suas campanhas.
Entre os exemplos de marcas que já sofreram esse tipo de boicote, estão a Natura e o Burguer King. A marca alimentícia chegou a responder diretamente aos críticos na véspera do Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+, transformando em marketing, após receber boicotes por uma campanha sobre homossexualidade.
O mesmo se mostra no meio artístico, com alvos como Chico Buarque e Wagner Moura, protagonista do filme “O Agente Secreto“, que também possuem posicionamentos políticos relacionados à esquerda.
Uma das polêmicas mais recentes foi com a marca de chinelos Havaianas. Isso porque, em uma propaganda, a atriz Fernanda Torres dizia que não era para entrar 2026 com o pé direito, mas com os dois pés. O comercial começou a ser visto como uma provocação ao público de direita.
Veja os boicotes da política
2017 – Santander / Queermuseu
- Alvo: Santander Cultural.
- Motivo: grupos conservadores promoveram cancelamentos de contas após o banco patrocinar a mostra Queermuseu, sob acusações de apologia à pedofilia e desrespeito religioso, forçando o encerramento da exposição.
2018 – Havan, Riachuelo e Smart Fit
- Alvo: Havan (Luciano Hang), Riachuelo (Flávio Rocha) e Smart Fit (Edgard Corona).
- Motivo: centrais sindicais e setores da esquerda organizaram boicotes contra essas grandes redes após seus fundadores declararem apoio público e militarem ativamente na campanha de Jair Bolsonaro.
2019 – Burger King
- Alvo: Burger King Brasil.
- Motivo: campanhas publicitárias com temática LGBTQIA+ irritaram grupos de direita, que difundiram a hashtag #BoicoteBurgerKing e o lema “quem lacra não lucra” nas redes sociais.
2020 – Madero
- Alvo: Rede de restaurantes Madero (Junior Durski).
- Motivo: apoiadores da esquerda lançaram o movimento #MadeiroNuncaMais após o empresário minimizar as mortes causadas pela pandemia de Covid-19 em prol do funcionamento da economia.
2020 – Natura
- Alvo: Natura.
- Motivo: A inclusão de Thammy Miranda na campanha de Dia dos Pais motivou um boicote de lideranças conservadoras, gerando um contra-ataque de apoiadores que passaram a comprar produtos e ações.
2020 – Coco Bambu
- Alvo: Rede de restaurantes Coco Bambu.
- Motivo: A revelação do apoio de um de seus sócios a pautas do governo federal e contra restrições sanitárias inseriu a rede em listas de boicote promovidas por consumidores progressistas.
2022 – Listas do Pós-Eleição Presidencial
- Alvo: Pequenos comércios, clínicas e prestadores de serviços locais.
- Motivo: Grupos de direita criaram listas no WhatsApp contra empresas cujos donos declararam voto em Lula, motivando investigações do Ministério Público por assédio e perseguição comercial.
2023 – Bis (Mondelez)
- Alvo: Chocolate Bis/Mondelez.
- Motivo: A contratação do influenciador Felipe Neto para publicidade revoltou a base bolsonarista, gerando a campanha #BisNuncaMais e vídeos de descarte do produto em protesto.
2025 – Havaianas
- Alvo: Havaianas (Alpargatas).
- Motivo: A escalação da atriz Fernanda Torres para um comercial gerou apelos de boicote por parte de figuras da direita, devido a posicionamentos políticos históricos atribuídos à artista.
2026 – Ypê
- Alvo: Ypê (Química Amparo).
- Motivo: Ações de fiscalização da Anvisa contra a fábrica foram vistas pela oposição como perseguição política às doações feitas pelos proprietários, transformando a marca em mote partidário.
Pós-eleições 2026: boicotes a pequenos comércios e empresários
Na mais nova onda de boicotes, no entanto, o cenário são as pequenas empresas. Em Santa Catarina, sindicatos e associações denunciarem esse tipo de lista, em que profissionais são apontados como “petistas”, incentivando a clientela a deixar de comprar nesse tipo de estabelecimento.
Desde janeiro, o Ministério Público do Trabalho (MPT) analisa casos parecidos. Já foram 1.937 denúncias recebidas por assédio eleitoral em todo o país, com 21,4% dos casos foram registrados a partir do domingo de eleições.
Os trabalhadores, comércios e empresários que sofreram alguma situação de assédio eleitoral pode apresentar denúncia ao MPT pelo site www.mpt.mp.br. O registro pode ser feito de forma remota e sigilosa, com apresentação de provas e documentos que comprovem a demissão injusta.
Boicote é crime?
Guilerme Guimarães, professor de Direito da Universidade de São Paulo (USP), afirmou em entrevista à BBC News Brasil, que não existe tipificação de time em recusar ou sugerir que outras pessoas façam o mesmo em relação a serviços e produtos de alguma empresa. Ele defende que a decisão é “liberdade de empressão e consumo”.
Apesar disso, investigações pelo Brasil já foram abertas para investigar possíveis crimes com listas que circulam sobre boicotes pelos crimes de stalking, quando é perturbada a liberdade da vítima que, neste caso é o empresário; ameaça e constrangimento ilegal; difamação e injúria relacionada ao estabelecimento; e incitação ao crime, quando o estímulo envolver violência.










