Vorcaro revela suposto esquema de propinas e pagamento de R$ 30 milhões ligado a documentário de Lula, diz revista

Revista VEJA afirma ter tido acesso a áudios de Daniel Vorcaro; grupo jurídico Prerrogativas solicitou investigação da PF sobre suposta delação "estimulada"

Compartilhe:
Alexandre Padilha e outros aliados fariam parte do suposto esquema (Foto: Valter Campanato/Agência Brasil; Divulgação; Fernando Frazão, Agência Brasil)

Alexandre Padilha e outros aliados fariam parte do suposto esquema (Foto: Valter Campanato/Agência Brasil; Divulgação; Fernando Frazão, Agência Brasil)

O ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, teria destinado R$ 30 milhões em dinheiro vivo para um documentário sobre o candidato à Presidência Lula (PT) ao Instituto Lula em um suposto esquema de propinas de 10% com o ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto e o atual ministro da Saúde, Alexandre Padilha. É o que diz a Revista VEJA, que afirma ter tido acesso a áudios com relatos feitos pelo próprio banqueiro.

Continua após a publicidade

Segundo os áudios e documentos, o valor seria destinado à produção sobre um documentário sobre Lula fora do Brasil, de Oliver Stone, além de uma quantia que não foi revelada paga diretamente para o Instituto Lula. A Procuradoria-Geral da República já havia tido acesso ao caso, mas não levou adiante por afirmar que não havia provas. A defesa de Vorcaro, no entanto, afirmou que teria mensagens de WhatsApp, registros das pessoas que retiraram o dinheiro vivo e a relação de lugares e rotas usadas por operadores nas entregas do dinheiro.

Segundo Vorcaro, a aproximação com o PT foi possível a partir do intermédio feito pelo CEO do Master, Augusto Lima, com o então líder do governo Lula no Senado, Jaques Wagner.

Continua após a publicidade

“O meu então sócio, Augusto Lima, através dos caciques do PT da Bahia, se reuniu com João Vaccari Neto. Nesse primeiro encontro ficou aventado que, para que houvessem votos suficientes para o nosso credenciamento junto aos fundos de pensão do Banco do Brasil, Caixa Asset e Previ, deveríamos fazer os seguintes adiantamentos: um pagamento por fora, ou seja, por espécie, na ordem de aproximadamente 30 milhões de reais para cobrir despesas de um documentário no exterior que estava sendo gravado sobre o Lula, e pagamento de valores ao Instituto Lula”, disse o banqueiro em registros levados à PGR em junho.

O esquema contava com a exigência de uma taxa de 10% de tudo que o banco captasse com os fundos de previdência de servidores da Caixa, do Banco do Brasil, da Petrobras e dos Correios, o que poderia resultar R$ 1 bilhão para o PT e, em contrapartida, R$ 9 bilhões.

Em um áudio, Vorcaro também faz uma comparação sobre o dinheiro direcionado ao filme Dark Horse, sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro.

“O filme do Lula eu coloquei acho que até mais (que o filme de Bolsonaro). Eu acho que dá até mais”, disse.

Continua após a publicidade

Quem é Daniel Vorcaro

Ministro da saúde envolvido no esquema

O ministro da Saúde, que até então era ministro da Secretaria de Relações Institucionais da Presidência, Alexandre Padilha, também teria atuado no esquema, conforme o relato de Vorcaro, entre 2023 e 2024.

“No fim de 2023 e início de 2024, formei uma equipe interna no Banco Master para captação institucional junto a novos produtos financeiros através dos fundos de pensão do Governo Federal… Com isso, eu logo passei a receber propostas espúrias (“as mordidas”) de políticos e emissários desses”, disse.

Continua após a publicidade

Para a abordagem com os presidentes dos fundos estatais, ficou responsável um operador chamado de “Júlio”, que teria livre acesso ao gabinete de Padilha no Planalto. No celular de Vorcaro, Júlio aparece como intermediador do banqueiro e do braço direito de Padilha no Planalto, Olavo Noleto. Em algumas mensagens, o banqueiro afirma que pessoalmente ao Planalto conhecer Padilha e teve pelo menos dois jantares com o ministro enquanto tentava colocar em prática o esquema de negócios com os fundos das estatais.

“[…] Nessa conversa, Padilha mais ouviu do que falou, mas afirmou que ‘o que eu tratasse com Olavo seria como se eu estivesse tratando com o próprio Padilha”, afirmou Vorcaro.

Continua após a publicidade

Júlio teria, também, cobrado um pagamento de R$ 500 mil no mesmo dia em que o Master foi autorizado para operar nos fundos. Dois dias depois, houve um novo jantar entre Padilha, Olavo e Júlio na casa de Vorcaro. Ao longo do tempo, outros jantares aconteceram.

Em outubro, houve uma conversa para um possível encontro entre Lula e Vorcaro, organizado pelo gabinete do ministro.

Continua após a publicidade

“Daniel, liga pro Olavo… O PR vai te receber…”, disse Júlio em uma mensagem.

No entanto, não há provas sobre a realização desse encontro de Lula com Vorcaro. Até o momento, a única reunião confirmada no Palácio do Planalto aconteceu no dia 4 de dezembro, fora da agenda oficial, que teve como pauta o Master e o Banco Central.

Continua após a publicidade

Procurado pela reportagem, Lula afirmou que “jamais solicitou ou recebeu qualquer vantagem financeira nem autorizou terceiros a receber recursos de Vorcaro em seu nome”. Noleto e Padilha também afirmaram que não possuem qualquer relação com Vorcaro. Os outros nomes citados não se manifestaram.

Investigação da PF sobre suposto falso depoimento

O grupo jurídico Prerrogativas afirmou que solicitará à Polícia Federal a abertura de um inquérito sobre este depoimento de Vorcaro que, segundo o grupo, pode ter sido “estimulado”, conforme a Folha de S.Paulo.

Continua após a publicidade

Em troca, conforme o grupo, Vorcaro teria recebido como contrapartida a oferta de ser libertado no início de 2027 com uso de tornozeleira eletrônica, enquanto seu pai, Henrique Vorcaro, sairia da prisão imediatamente.

“Foi dito ao grupo Prerrogativas que esse depoimento [de Vorcaro] foi dado recentemente à Polícia Federal, com o objetivo de trazer prejuízos políticos e eleitorais ao presidente Lula, à campanha e a alguns ministros, que foram indevidamente envolvidos nesse suposto pedido”, afirmou o advogado Marco Aurélio Carvalho, coordenador do grupo.

Continua após a publicidade

Investigação em andamento sobre filme Dark Horse

Ao mesmo tempo do depoimento de Vorcaro sobre o documentário de Lula, há duas investigações em andamento com relatoria de ministros do STF sobre o filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro. O caso que faz parte da operação da PF desta quinta-feira tem como objetivo apurar o suposto uso irregular de emendas parlamentares e dinheiro público que chegou a entidades e empresas ligadas à produtora do filme. Já a outra investigação está sob relatoria de André Mendonça e apura os repasses feitos por Vorcaro a pedido de Flávio Bolsonaro e o percurso desse dinheiro.

No entanto, até o momento, não era de conhecimento público que Flávio Bolsonaro era alvo de uma ação individual relacionada ao financiamento do filme.

Continua após a publicidade

Desde o início, Flávio nega qualquer participação em possíveis irregularidades envolvendo o filme Dark Horse. Segundo ele, todos os recursos do filme foram privados.

“Não há um centavo de dinheiro público. Pode revirar do avesso”, disse Flávio durante a campanha nesta semana.

Continua após a publicidade

No entanto, depois da revelação da abertura do inquérito, ele não se manifestou até o momento.

A investigação em que Mendonça é relator apura se o dinheiro enviado por Vorcaro foi enviado para a produtra do filme em um fundo sediado nos Estados Unidos, além de bancar gastos no país do ex-deputado Eduardo Bolsonaro.

Continua após a publicidade

Mendonça homologou, também, a delação premiada do operador do mercado financeiro Antonio Carlos Freixo Júnior, dono da Entre Investimentos e Participações, usada para repasses de dinheiro entre o banqueiro Daniel Vorcaro e a produção de “Dark Horse”. Segundo a colunista Malu Gaspar, do O Globo, o operador confirmou à Procuradoria-Geral da República sete transferências bancárias para o fundo Havengate a pedido de Vorcaro, em um total de R$ 69 milhões.