A investigação da Polícia Civil de Santa Catarina que resultou na apreensão recorde de 4,4 toneladas de cocaína em Balneário Piçarras teve como ponto focal a identificação de um padrão operacional atípico mantido por um grupo de cidadãos britânicos no Litoral Norte catarinense.
Em coletiva de imprensa realizada na sede da Delegacia Geral, em Florianópolis, a corporação detalhou nesta sexta-feira (30) exatamente como o trabalho de inteligência e monitoramento permitiram desmantelar o esquema antes que a droga fosse distribuída.
Veja fotos da apreensão de 4,4 toneladas de cocaína em Piçarras:
Suspeita policial
A descoberta do esquema aconteceu por meio do trabalho de inteligência conduzido pela Delegacia Especializada no Combate ao Tráfico de Drogas de Itajaí. Entre três e quatro semanas antes do desfecho da operação, os investigadores passaram a apurar movimentações suspeitas no município de Balneário Piçarras, no Litoral Norte catarinense.
O que chamou a atenção da equipe policial foi o contraste entre a frota de veículos e a rotina diária dos investigados.
O grupo utilizava dois utilitários esportivos novos, um Hyundai Creta e um Nissan Kicks, ambos alugados, para fazer o deslocamento diário de Balneário Camboriú até Balneário Piçarras. Ao chegarem em Piçarras no período da manhã, os suspeitos estacionavam os carros de luxo e migravam para uma van branca.
A bordo da van, os indivíduos passavam o dia inteiro realizando trajetos de carga e transporte de mercadorias pela região, retornando aos SUVs apenas ao final do expediente.
Diante do comportamento incomum, a Polícia Civil aprofundou as investigações cruzando dados em sistemas policiais e realizando consultas de inteligência em base de dados privadas. Após a confirmação dos indícios, a operação entrou em sua fase mais crítica: uma campana de 72 horas promovida por policiais civis, que monitoram passo a passo cada itinerário percorrido pela van.
O momento do flagrante
O cerco policial foi fechado no exato instante em que a van branca deixava o galpão monitorado em Balneário Piçarras. Ao abordar o furgão, os agentes encontraram cinco cidadãos britânicos no veículo.
Na revista preliminar, foram apreendidos 5 quilos de cocaína e pedaços de borracha, insumo utilizado no revestimento e na vedação do entorpecente para tentar burlar a fiscalização. A equipe policial avançou imediatamente para o interior do galpão de onde o veículo acabara de sair. No local, os agentes prenderam o sexto integrante do grupo e constataram o centro de armazenamento da organização criminosa.
Apesar do grande volume de droga e do perfil transnacional da organização, nenhum armamento foi localizado durante as buscas.
Logística e Perfil
A apuração confirmou que todos os seis detidos são nacionais do Reino Unido. Eles ingressaram no Brasil regularmente no dia 16 de setembro e mantinham como base residencial dois apartamentos de alto padrão alugados em Balneário Camboriú. Até o estágio atual da investigação, não foi identificada a participação direta de cidadãos brasileiros na operação presencial do grupo.
Em razão da nacionalidade dos envolvidos e do enquadramento nos crimes de tráfico internacional de drogas e associação para o tráfico, a Polícia Civil notificou formalmente a Embaixada do Reino Unido no Brasil. A corporação requereu ao Poder Judiciário a conversão das prisões em flagrante em prisões preventivas, visando assegurar a permanência dos investigados sob custódia estatal.
Prejuízo de R$ 486 milhões e segunda fase da investigação
A Polícia Civil calcula que a cocaína apreendida seria vendida no mercado consumidor britânico por cerca de R$ 110 mil por quilo. Dessa forma, a apreensão das 4,4 toneladas desferiu um baque financeiro estimado em mais de R$ 486 milhões à estrutura do narcotráfico internacional.
A interrupção da logística britânica em Santa Catarina evitou a circulação de R$ 486 milhões no mercado europeu. A investigação avança agora para determinar a rota de entrada do entorpecente em solo catarinense e o modal marítimo ou porto que seria utilizado na exportação.
A segunda fase da Operação Policial concentra-se em duas frentes de inteligência, identificar as rotas de transporte terrestre ou aéreo e os fornecedores que introduziram as 4,4 toneladas de cocaína no Litoral Norte catarinense e determinar a infraestrutura portuária escolhida pelo grupo para o embarque rumo à Europa e identificar outros membros ou facilitadores da rede criminosa transnacional.
*Sob supervisão de Bárbara Siementkowski




