“Esconder o erro”: Funcionária faz denúncia após troca de corpos em Florianópolis

Três corpos foram trocados após uma falha na liberação de corpos no Instituto Médico Legal (IML) de Florianópolis em abril deste ano

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Sepultamento de Juliano Henrique Guadagnin aconteceu no dia 13 de abril (Foto: NSC TV, Reprodução)

Sepultamento de Juliano Henrique Guadagnin aconteceu no dia 13 de abril (Foto: NSC TV, Reprodução)

Uma funcionária que trabalha na funerária envolvida no erro que levou a troca de corpos em Florianópolis denunciou que, depois que o equívoco foi constatado, servidores públicos do Instituto Geral de Perícias (IGP) teriam sugerido que os corpos permanecessem trocados, sem que as famílias fossem comunicadas, para evitar que o erro fosse descoberto.

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Aline Thaise Nunes Mikna afirmou que, quando foi até à Polícia Científica ao lado do gerente da outra funerária envolvida depois que viu que a documentação entregue para a funerária em que trabalha estavam corretos, mas os corpos das vítimas trocados.

— Foi sugerido a questão de fazer continuar da maneira que estava, esconder o erro. Que lacrasse a urna, entregasse pro velório normalmente para a família e, depois, posteriormente fizesse o sepultamento. Assim nenhum dos três casos seriam descobertos, o erro não seria descoberto. Então a gente se recusou a fazer isso — revelou a funcionária.

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Ela, que trabalha há 13 anos no setor funerário, afirmou que “nunca tinha visto” um erro desse tipo.

— Foi extremamente desgastante, você ver o que as famílias estão passando, você como ser humano se colocar no lugar, tem empatia — disse.

Procurada pela reportagem, a Polícia Científica negou que a proposta tenha sido feita.

Corpos foram recolhidos na mesma viatura

Três homens tiveram os corpos trocados. Juliano Henrique Guadagnin, de 24 anos, morreu em um acidente de moto no dia 9 de abril. No mesmo dia, outros dois homens, Denner Dario Colodina, de 29 anos, e Patrick Nunes Ferreira, de 33, foram encontrados mortos em São José, em casos investigados como homicídio. Os três corpos foram recolhidos pela mesma viatura e encaminhados ao Instituto Geral de Perícias (IGP) da capital.

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Dois dos corpos foram liberados pelo Instituto Médico Legal (IML) já no dia seguinte, com direcionamento para as funerárias e, a partir disso, fossem feitas cerimônias de despedida. O corpo de Denner foi sepultado no Cemitério do Rio Vermelho no lugar do corpo de Juliano no mesmo dia. Já o corpo de Patrick foi sepultado no lugar de Denner, ambos em caixões fechados. O corpo de Juliano ficou retido no IML.

Mônica Raquel Guadagnin, mãe de Juliano, disse que recebeu uma ligação da funerária, sendo informada de que havia ocorrido “um problema com o IML”, e que ela precisava retornar à Central de Óbitos.

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— Velar e sepultar um filho já é uma dor que não se acaba. Mas eu passei por isso duas vezes. Eu carreguei o caixão de uma outra pessoa achando que era meu filho — relatou Mônica.

Uma familiar de Denner, que preferiu não se identificar, descreveu a sensação de reviver o processo de enterrar novamente um familiar como “se a pessoa tivesse morrido duas vezes”.

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Tudo veio à tona quando a família de Patrick foi até o IML para identificar o corpo. Para o advogado da funerária, a responsabilidade pela conferência e entrega correta dos corpos cabe aos servidores do IML, e não aos agentes funerários. Isso porque os plantonistas do IML afirmam, no Relatório de Plantão do IML, o qual a reportagem teve acesso, atribuem a responsabilidade ao agente funerário.

No documento, os funcionários dizem que, apesar de ter sido indicada a localização correta dos corpos, o profissional teria retirado equivocadamente o corpo de Patrick, acreditando se tratar de Juliano. Isso teria acontecido, segundo o documento, quando uma servidora do IML fazia o armazenamento de cartões de coleta de material genético e a higienização da sala de necropsia.

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“Erro operacional”, diz Polícia Científica

Em nota, a Polícia Científica de Santa Catarina reconheceu que houve um erro operacional na unidade de Florianópolis durante a liberação dos corpos. A instituição pediu desculpas às famílias, manifestou condolências e informou que o próprio sistema interno identificou a inconsistência. Segundo a nota, providências imediatas foram tomadas para corrigir a situação e o caso está sob apuração da Corregedoria.

A Polícia Científica também informou que iniciou revisões nos protocolos e procedimentos de custódia, identificação e liberação de corpos, com o objetivo de reforçar os controles e evitar que situações semelhantes voltem a ocorrer.

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Veja na íntegra

“A Polícia Científica de Santa Catarina (PCISC) vem a público reconhecer, com transparência e responsabilidade institucional, que ocorreu um erro operacional na unidade de Florianópolis durante a liberação dos corpos. A PCISC lamenta profundamente o ocorrido e exterioriza suas sinceras condolências e pedido de desculpas às famílias afetadas, que atravessam um momento de dor e merecem todo o respeito e o compromisso desta instituição.

Importa destacar que o próprio sistema procedimental de controle interno da PCISC foi responsável pela identificação da inconsistência. Detectado o equívoco, foram imediatamente adotadas as providências necessárias para a correção da situação, com a devida comunicação e acompanhamento às famílias envolvidas.

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O caso encontra-se sob apuração interna, instaurada pela Corregedoria da Polícia Científica de Santa Catarina, com vistas a identificar com precisão as causas do ocorrido, identificar responsabilidades e determinar as medidas disciplinares e preventivas cabíveis. A PCISC reitera seu compromisso com a integridade, a ética e a responsabilidade em todas as suas ações.

Em decorrência do ocorrido, foram imediatamente iniciadas revisões nos protocolos e procedimentos operacionais relativos à custódia, identificação e liberação de corpos, com o objetivo de reforçar os controles rígidos já existentes e implementar novas salvaguardas. A instituição está determinada a assegurar que situações desta natureza não voltem a ocorrer.

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A Polícia Científica de Santa Catarina realiza, anualmente, mais de 5.000 exames de necropsia em todo o Estado, prestados com rigor técnico, profissionalismo, zelo e dedicação por equipes altamente qualificadas. O episódio ora noticiado representa uma exceção lamentável no histórico da instituição, com medidas imediatas adotadas para que algo semelhante nunca volte a se repetir”.