A Região Sul de Santa Catarina registrou nove feminicídios entre 1º de janeiro e 24 de agosto de 2026, segundo dados da Secretaria de Estado da Segurança Pública (SSP-SC). No mesmo período de 2025, foram seis casos. A diferença representa um aumento de 50%.
Os nove casos correspondem a 23,7% dos 38 feminicídios registrados em Santa Catarina em 2026. No Sul, as ocorrências estão distribuídas entre Criciúma, Braço do Norte, Araranguá, Balneário Rincão, Imbituba e Sangão.
O crescimento ocorre em meio a avanços nos mecanismos de atendimento e proteção às mulheres. Para o promotor de Justiça Samuel Dal Farra Naspolini, da 12ª Promotoria de Justiça da Comarca de Criciúma, o cenário representa um paradoxo para quem atua diretamente no enfrentamento à violência contra a mulher.
“É um paradoxo, porque a gente avançou tanto nas medidas de proteção e também nas ações de conscientização. É difícil achar uma explicação objetiva para esse crescimento do feminicídio”, afirmou Naspolini.
Segundo o promotor, as medidas protetivas em Criciúma estão em uma crescente há anos e quase triplicaram quando os números atuais são comparados aos de 2021 ou 2022. Ele também destacou o avanço no diálogo entre os órgãos de proteção e no uso da tecnologia, com mecanismos como o botão do pânico e as tornozeleiras eletrônicas.
“Hoje nós temos meios mais efetivos de apoio a essas vítimas, porém, o crime mais violento, que é o feminicídio, em relação ao qual também a legislação mudou e mudou para combatê-lo com mais ênfase, ele continua crescendo. É um grande desafio “, disse ao NSC Total.
Criciúma concentra quatro dos nove casos de feminicídios
Criciúma é o município com maior número de feminicídios na Região Sul em 2026. Dos nove casos registrados entre janeiro e agosto, quatro ocorreram na cidade.
Os outros cinco feminicídios foram registrados em Braço do Norte, Araranguá, Balneário Rincão, Imbituba e Sangão, com uma ocorrência em cada município.
No mesmo período de 2025, o Sul havia registrado seis feminicídios, distribuídos entre Forquilhinha, Criciúma, Jaguaruna e Timbé do Sul. Criciúma concentrava três deles.
Considerando todo o ano passado, a Região Sul encerrou 2025 com 11 feminicídios. Em 2026, nove casos já foram registrados até agosto.
Sul concentra quase um quarto dos feminicídios de SC
Os nove feminicídios registrados no Sul representam 23,7% dos 38 casos contabilizados em Santa Catarina em 2026, segundo os dados da Secretaria de Estado da Segurança Pública.
No cenário estadual, o Oeste concentra o maior número de ocorrências, com 16 casos, seguido pelo Sul, com nove. Na sequência aparecem Grande Florianópolis, com cinco, Norte, com quatro, Vale do Itajaí, com três, e região Serrana, com um.
Em 2025, foram registrados 53 feminicídios em Santa Catarina durante todo o ano. O Vale do Itajaí encerrou aquele período com o maior número, 14 casos, seguido pelo Sul, com 11. Oeste teve nove registros, Grande Florianópolis oito, região Serrana sete e Norte quatro.
No Sul, a comparação pelo mesmo intervalo mostra que os casos passaram de seis entre 1º de janeiro e 24 de agosto de 2025 para nove no mesmo período de 2026, aumento de 50%.
Casos sem medidas protetivas preocupam
Entre os pontos destacados pelo promotor está a ocorrência de feminicídios envolvendo mulheres que não tinham medidas protetivas e ainda não haviam passado pela rede de proteção.
“Nós tivemos recentemente, inclusive, feminicídios de vítimas que não possuíam medida protetiva. Vítimas muito jovens que não tinham passado pelo sistema ainda” afirmou.
Naspolini cita o caso de Joviana Evelyn Iankovski como uma das situações em que a vítima não tinha medida protetiva ou passagem anterior pelo sistema relacionada a medidas de proteção.
Para o promotor, situações como essa reforçam a importância da conscientização e da identificação de sinais de violência nos relacionamentos. Entre os comportamentos que merecem atenção, ele cita controle, ciúme excessivo e restrição à liberdade da parceira.
“São comportamentos que denotam um sentimento de posse que estaria na origem do crime mais grave” , explicou.
Ameaças estão entre os sinais de alerta
O promotor também chama atenção para situações em que esses comportamentos avançam para agressões verbais ou físicas. A ameaça, segundo ele, não deve ser minimizada ou naturalizada dentro de um relacionamento.
“Relacionamento algum pode tolerar uma ameaça, ameaça de agressão, ameaça de morte, ainda que não se concretize. A ameaça é muito perigosa”.

Para Naspolini, abordar o tema com os mais jovens é de extrema importância. Ele destaca a necessidade de trabalhar a conscientização sobre comportamentos violentos dentro dos relacionamentos. “Não apenas como reprimir, mas o feminicídio tem que ser prevenido” pontou.
Rede de proteção avançou em Criciúma
Ao mesmo tempo em que os feminicídios aumentaram, o promotor aponta avanços na estrutura disponível para atender mulheres em situação de violência. Entre eles está a reativação da casa-abrigo para mulheres vítimas de violência em Criciúma, após nove anos sem o serviço no município.
Naspolini também cita a atuação do Núcleo de Enfrentamento às Violências e Apoio às Vítimas (Neavit), do Ministério Público, e da Rede Catarina, da Polícia Militar.
As medidas protetivas de urgência previstas pela Lei Maria da Penha estão entre os principais mecanismos disponíveis. Conforme o promotor, elas podem ser solicitadas em delegacias, no Fórum ou pela internet, por meio do boletim de ocorrência virtual, sem a necessidade de advogado.
Naspolini ressalta ainda que a mulher pode solicitar uma medida protetiva mesmo que não queira que o agressor seja processado. “Se ela não quer o desgaste de um processo, não tem problema, mas ela pode pedir a medida da mesma forma”, explicou.
As medidas também são acompanhadas pela Rede Catarina, da Polícia Militar. Já o Neavit atua em rede no apoio às vítimas, inclusive por meio de atendimento psicológico oferecido a partir de convênios.
Dúvida já deve ser sinal para pedido de ajuda
A busca por orientação não precisa começar necessariamente em uma delegacia ou no Judiciário. Segundo Naspolini, é comum que mulheres tenham dúvidas sobre estarem ou não vivendo uma situação de violência.
“O simples fato de existir a dúvida já deve levar essa mulher a pedir ajuda”, destacou.
No primeiro momento, segundo o promotor, a mulher pode conversar com amigos e familiares ou procurar orientação em serviços da própria comunidade, como o Centro de Referência de Assistência Social (Cras).
A partir da identificação da situação de violência, a vítima pode acessar uma rede que reúne alternativas de apoio nas áreas policial, judicial, psicológica e social. “Quanto mais a gente discutir essas questões, eu acho que mais pessoas a gente salva” concluiu Naspolini.
Por trás dos números, nove mulheres
Os nove feminicídios registrados no Sul de Santa Catarina em 2026 representam histórias interrompidas pela violência. As vítimas foram Grasiela Cândido, em 28 de março; Tateana Marcos Medeiros, em 4 de abril; Jádna Custódio Ferreira Vieira, em 15 de abril; Bárbara da Silveira Bagé, em 19 de abril; Maria Eduarda Salvaro, em 19 de junho; Viviany Souza, em 3 de agosto; Joviana Evelyn Iankovski, em 10 de agosto; Luana Mendes Darella, em 16 de agosto; e Neide Pavan Vieira, em 22 de agosto.
Os três casos mais recentes ocorreram em um intervalo de 13 dias, entre 10 e 22 de agosto. Joviana tinha 19 anos, Luana, 29, e Neide, 68.
Joviana Evelyn Iankovski era estudante de Ciências Biológicas da Unesc. Ela foi encontrada morta em 10 de agosto, na casa do namorado, em Sangão, após a família se preocupar com o desaparecimento da jovem. Segundo a Polícia Civil, o namorado, de 21 anos, confessou o crime. O exame cadavérico apontou asfixia por constrição cervical como causa da morte, conforme informado pela polícia.
A morte da estudante também mobilizou colegas. Um ato realizado em frente ao Diretório Central dos Estudantes (DCE) da Unesc reuniu integrantes da comunidade acadêmica em homenagem a Joviana e contra a violência às mulheres.
Seis dias depois, em 16 de agosto, Luana Mendes Darella, de 29 anos, foi encontrada morta dentro de casa, no bairro Fábio Silva, em Criciúma. Ela apresentava sinais compatíveis com estrangulamento, segundo a Polícia Militar.
Luana era mãe de duas crianças, um menino de quatro anos e uma menina de sete. Quando os policiais chegaram à residência, os filhos estavam sob os cuidados de vizinhos. Depois, foram encaminhados à avó materna, com acompanhamento do Conselho Tutelar. O caso é investigado pela Polícia Civil.
Mais seis dias se passaram até o caso mais recente. Neide Pavan Vieira, de 68 anos, e Afonso Becker, de 70, foram encontrados mortos dentro da casa dele, em Criciúma, na madrugada de 22 de agosto. O caso é tratado como feminicídio e homicídio.
Segundo a Polícia Civil, o principal suspeito é o ex-companheiro de Neide. Os dois estavam separados havia cerca de um ano. Testemunhas relataram à Polícia Militar que um carro branco deixou o local após disparos.
Posteriormente, agentes da Delegacia de Homicídios localizaram o investigado morto nas proximidades do local do crime. Com a morte do suspeito, o inquérito deve ser finalizado em razão da extinção da punibilidade, segundo a Polícia Civil.
