Estragos em praia de Florianópolis tiveram “tempestade perfeita” e estudo alertou para risco

Projeto da UFSC avaliou alargamentos de praia em 2023 e citou risco de medida ser "parcial e temporária"

Compartilhe:
Ondas causaram estragos em casas e muros na Praia dos Ingleses (Foto: Cristiano Gomes, NSC TV)

Ondas causaram estragos em casas e muros na Praia dos Ingleses (Foto: Cristiano Gomes, NSC TV)

Os estragos registrados após o mar “engolir” um trecho de cerca de 300 metros da Praia dos Ingleses, no Norte da Ilha, em Florianópolis, foram resultado de uma “tempestade perfeita”, segundo o professor de Ecologia e Oceanografia e pesquisador em mudanças climáticas da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Paulo Horta. Apesar disso, o fenômeno era considerado previsível pelo especialista e chegou a ser antecipado em um estudo de dois anos atrás que analisou obras de alargamento de praias em SC. 

Continua após a publicidade

A combinação que resultou nos danos desta terça-feira envolve carência de sedimentos causada pelo aumento da urbanização, ressaca influenciada pela maré alta e pela força dos ventos e fatores globais, como a elevação do nível do mar. 

No total, cinco postes de iluminação e 12 casas e estabelecimentos foram atingidos. Moradores relataram nunca ter visto o mar com tamanha intensidade. A ressaca levou embora parte do trecho da praia que passou por obras de alargamento em 2023. 

Continua após a publicidade

Apesar disso, o especialista afirma que o desfecho para a obra de alargamento era “previsível”. Uma nota técnica divulgada em outubro de 2023 pelo programa do qual o pesquisador faz parte, o Ecoando Sustentabilidade, avaliou os projetos licenciados de ampliação da faixa de areia e citou que nas obras já executadas o processo de erosão que vinha sendo registrado era mais intenso do que antes do aterro. 

Veja fotos dos estragos na Praia dos Ingleses

“O aspecto relacionado com a proteção das infraestruturas é legítimo, mas a solução apontada é ineficaz. A ação proposta tem duração de curto prazo e com custos na casa das dezenas de milhões de reais. Uma proteção parcial e temporária das infraestruturas deveria ser considerada apenas quando esta faz parte de um planejamento visando a soluções a médio ou longo prazo”, afirma um trecho da nota técnica do grupo de pesquisa. 

No documento, os pesquisadores afirmam que os efeitos da erosão que atinge locais como a Praia dos Ingleses são intensificados por fenômenos regionais, como a carência de sedimentos, e globais, como o aumento dos eventos extremos e do nível do mar. “Como as previsões são de intensificação dos eventos extremos e aumento do nível do mar, qualquer medida paliativa, temporária e isolada não surtirá efeito para objetivo pretendido. A estratégia de mitigação e adaptação possível é a transferência progressiva das infraestruturas próximas às praias para áreas mais distantes e elevadas e uma restauração do sistema praial que vise potencializar as características que maximizam a proteção da costa”, afirmaram. 

Tempestade perfeita, mas “previsível”

O professor Paulo Horta explica que o avanço da urbanização, com construções que ocupam áreas costeiras e envolvem mineração de areia, somada à construção de barragens e hidrelétricas, que também represam sedimentos que iriam para o mar e ajudariam a conter a erosão, formam o cenário que resulta em mais casos de estragos causados por ressacadas. Tudo isso em um momento de mudanças climáticas, com elevação do nível do mar e aumento de eventos extremos. 

Continua após a publicidade

— O que observa em Ingleses é resultado dessa convergência, uma tempestade perfeita, em que ações foram equivocadas em um momento que demandaria o oposto, demandaria elevar a oferta de sedimentos para evitar processo de erosão — avalia. 

Na análise dele, o episódio pode motivar uma mudança de paradigma para o planejamento de soluções futuras. 

Continua após a publicidade

— O que acontece é pedagógico na perspectiva de reconhecermos o que se fez de errado e, a partir daqui, adotarmos protocolos para o enfrentamento do momento que vivemos, em que o planeta aquece, o mar eleva e eventos como os que a gente está vivendo são mais frequentes, e às vezes mais intensos — afirma Horta. 

Uma proposta defendida ainda no estudo de 2023 era a exigência de Estudo de Impacto Ambiental e de Relatório de Impacto Ambiental (EIA/RIMA) e audiência pública para obras deste porte em aterros em faixa de areia, que atualmente são dispensadas dessas exigências em razão de uma legislação ambiental.

Continua após a publicidade

Soluções já cogitadas como uma nova avenida na região, por exemplo, são criticadas por ele. O especialista defende que as soluções devem estar em outra direção, como a restauração de vegetações nas áreas de restinga e dunas, e até mesmo de sistemas marinhos de vegetação para reduzir a força das ondas. 

— Era previsível [o que ocorreu nos Ingleses], considerando tudo que a gente já tinha de informação em 2023. O que é pior é que o cenário de 2023 era “menos pior” que o cenário de hoje. Quando fizemos essa nota técnica, estávamos começando o ano que se mostrou mais quente da história até ali, mas 2024 foi mais quente ainda — compara. 

Continua após a publicidade

O que diz a prefeitura 

A Defesa Civil informou que o cenário no local dos estragos desta semana vinha sendo monitorado há cerca de três semanas. A Prefeitura de Florianópolis informou que técnicos estão avaliando os impactos e estudam novas medidas para conter a erosão costeira e garantir a segurança dos moradores. Uma vistoria técnica estava prevista para a tarde desta terça-feira.

A prefeitura argumenta que os estragos ocorreram em um ponto considerado crítico da praia, no Canto Sul. “Apesar disso, em virtude da infraestrutura trazida pelo alargamento, o avanço se deu em apenas 300 metros da orla, não afetando o restante da extensão que teve a faixa de areia ampliada, que totaliza 3,3 km”, afirmou a administração municipal, em nota.

Continua após a publicidade

Uma manutenção da faixa de areia que já estava prevista para esta semana e que aguardava melhoria das condições climáticas também deve ser executada. O município também pretende discutir com o Instituto do Meio Ambiente (IMA) medidas de longo prazo para ampliar a capacidade de proteção da costa naquela localidade. Uma das alternativas cogitadas pelo município é a construção da nova Avenida Beira-mar.

Leia também

Moradores relatam pânico e momentos de tensão após mar engolir praia em Florianópolis

Continua após a publicidade

Mar “engole” praia, e derruba postes e muros em bairro famoso de Florianópolis

Ondas que “engoliram” praia de Florianópolis chegaram a 1,4 metro