A “armadilha” do iPhone de Vorcaro: como o arquivo temporário do iOS desmontou estratégia de mensagens autodestrutivas

PDFs gerados automaticamente pelo iPhone e registros de envio permitiram à PF associar prints de visualização única ao contato salvo como Alexandre de Moraes

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Daniel Vorcaro é dono do Banco Master (Foto: Reprodução)

Arquivos temporários deixados no iPhone ajudaram a PF a reconstruir mensagens enviadas por Daniel Vorcaro no WhatsApp (Foto: Reprodução)

A estratégia usada pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro para enviar mensagens que desapareciam do WhatsApp esbarrou em um registro involuntário deixado pelo próprio iPhone. Ao capturar a tela de textos escritos no aplicativo Notas, o sistema operacional iOS gerava automaticamente um arquivo temporário em formato PDF com o mesmo conteúdo.

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Esses arquivos, armazenados em uma área interna inacessível ao usuário comum, permitiram à Polícia Federal reconstruir a sequência das comunicações e vincular os textos ao contato salvo no celular de Vorcaro como “Alexandre de Moraes BRASILIA”.

A descoberta consta em um relatório de 218 páginas produzido pela PF em 27 de agosto e tornado público nesta terça-feira (1º) pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF). A análise foi realizada no iPhone 17 Pro apreendido durante a prisão de Vorcaro, em 18 de novembro de 2025, na primeira fase da Operação Compliance Zero.

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Como funcionavam as mensagens

Segundo o relatório, Vorcaro não escrevia determinados conteúdos diretamente no WhatsApp. O ex-banqueiro preparava o texto no aplicativo Notas, fazia uma captura de tela e enviava a imagem pelo aplicativo de mensagens.

Ao tirar o print, porém, o iOS também gerava automaticamente um arquivo temporário em PDF com o mesmo texto. Esse documento ficava armazenado em uma pasta interna do sistema, inacessível ao usuário comum.

“Dessa forma, a presença de arquivos PDF com conteúdo idêntico ao dos blocos de notas capturados demonstra que tais textos foram efetivamente exibidos e manipulados no aparelho examinado, funcionando como registro involuntário deixado pelo próprio sistema e corroborando a dinâmica descrita”, diz a PF, no relatório.

O documento também registra duas formas diferentes de apagar as comunicações. Em 17 de setembro de 2025, o contato salvo de Moraes ativou mensagens temporárias com duração de 24 horas. Já em 17 de novembro, Vorcaro enviou cinco imagens pelo modo de visualização única, que faz o conteúdo desaparecer depois de aberto.

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Como a PF reconstruiu os envios

O PDF permitia saber qual texto estava na tela. Os registros de funcionamento do iPhone, por sua vez, mostravam quando Vorcaro abriu o Notas, fez a captura, acessou o WhatsApp, enviou uma mensagem e para qual número.

A sequência identificada pela PF era a seguinte:

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  • Vorcaro escrevia ou modificava um texto no aplicativo Notas;
  • Fazia uma captura de tela;
  • O iPhone gerava o PDF temporário no mesmo segundo ou um segundo depois;
  • Vorcaro abria o WhatsApp;
  • Segundos depois, enviava uma mensagem ao contato analisado.

Assim, mesmo quando a imagem desaparecia da conversa, o celular ainda mantinha dois rastros: o PDF com o conteúdo do print e o registro do envio no WhatsApp.

Para conferir se o método funcionava, a PF analisou as cinco imagens de visualização única enviadas por Vorcaro em 17 de novembro e recuperadas durante a extração dos dados. Os investigadores encontraram cinco registros de envio, um para cada imagem.

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Depois de confirmar essa correspondência, a PF aplicou o mesmo método aos demais arquivos encontrados no aparelho. Ao todo, foram identificadas cinco notas diretamente na conversa e outros 47 arquivos com o mesmo padrão, totalizando 52 notas analisadas.

Como as mensagens foram ligadas ao contato salvo como Moraes

Segundo o relatório, após fazer as capturas de tela, Vorcaro normalmente abria o WhatsApp e enviava, como primeira interação, uma mensagem ao número salvo como de Moraes.

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Foi por meio da combinação entre o conteúdo dos PDFs, os horários das capturas e os registros dos envios que a PF associou ao contato às notas que Vorcaro enviada a Moraes. A investigação, porém, não revelou o teor das respostas atribuídas ao outro contato. Algumas aparecem apenas como mídias de visualização única ou como mensagens apagadas pelo remetente.

Moraes havia negado recebimento

Em março, quando as primeiras informações sobre as mensagens vieram a público, Moraes afirmou que não havia recebido os conteúdos e classificou a associação como uma “ilação mentirosa”. Nesta terça-feira, o ministro ainda não se manifestou sobre o novo relatório.

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Na noite desta terça, Paulo Gonet pediu a anulação do relatório da PF. O procurador-geral argumentou que André Mendonça teria determinado uma investigação sobre outro ministro do STF sem pedido do Ministério Público ou iniciativa da própria autoridade policial.

Quem é Daniel Vorcaro