Com quatro anos e meio de implantação, o sistema de despoluição da Beira-Mar Norte, em Florianópolis, convive com os olhares desconfiados da população e as tentativas de explicação das autoridades. Prometido para tornar balneável a praia da avenida que é um dos cartões de visitas da Capital, o projeto conseguiu atingir este objetivo em poucas oportunidades. Entretanto, há um ano e sete meses nenhum dos três pontos da Beira-Mar monitorados pelo Instituto do Meio Ambiente (IMA) apresenta condições para banho. Para a construção e implantação, foram aplicados R$ 18 milhões no local.

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Em 2021, o sistema chegou a empolgar as autoridades. Com dois anos de implantação, à época, os resultados positivos passaram a aparecer. Entre março e setembro daquele ano, o ponto monitorado pelo IMA em frente à Rua Esteves Junior, no Centro, apareceu próprio para banho em seis testes consecutivos, que foram feitos mensalmente. Depois disso, porém, não houve mais a mesma continuidade.

Contratante do projeto, a prefeitura de Florianópolis diz que apostou numa proposta feita por técnicos da Casan, empresa responsável pela água e esgoto na Capital. O entendimento atual do município é que o despejo de esgoto no mar diminui bastante e as condições da água melhoraram. Entretanto, a prefeitura entende que o sistema não resolveu o problema por completo. Alguns pontos foram levados para discussão com a Casan, como a necessidade de manutenção constante das unidades de recuperação ambiental (URAs), e um possível subdimensionamento da estrutura.

Beira-Mar Norte está há um ano e sete meses imprópria para banho, segundo o IMA

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A Casan entende que a Beira-Mar não é balneável porque na região entre o Corpo de Bombeiros e a Ponta do Coral, num trecho de três quilômetros e meio, existem 22 galerias que drenam águas pluviais diretamente para a baía na Beira-Mar. Essas galerias levam contribuições irregulares das edificações e das próprias redes para o mar. A empresa afirma que “nunca falou em balneabilidade”, e sim em recuperação ambiental. Assim, enxerga avanços como a extinção do cheiro “fétido”, a volta de peixes para a baía e “ganho ambiental considerável.

Conforme a Casan, o sistema da URA contabiliza mais de 13 bilhões de litros de esgoto tratado, equivalente a 5.364 piscinas, com “melhorias constantes para melhorar qualidade do efluente tratado”.

Obstáculos do sistema

Em material enviado à coluna, a Casan traz uma lista de “obstáculos” para o avanço do sistema. Segundo a empresa, em tempos de chuva a URA é obrigada a abrir as tampas que evitam que o esgoto oriundo das galerias pluviais chegue ao mar. O sistema não resiste a um volume tão grande de água, o que corrobora com a visão da prefeitura que pode ter ocorrido um subdimensionamento do sistema. Porém, a Casan diz que uma estrutura que comportasse os níveis de chuva seria inviável.

Beira-Mar Norte ainda sonha com balneabilidade 4 anos após obra milionária em Floripa

Na lista dos obstáculos, a empresa também considera as ligações irregulares de esgoto e o longo tempo de depósito de resíduos na baía norte, entre outros fatores: “Não é possível definir prazo porque a balneabilidade depende de ações complementares como limpeza do fundo do mar para remover anos de lodo e sujeira decantados”.

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O que é o sistema

  • URA: É a unidade que se propõe a complementar o sistema de esgoto existente na região central da cidade, tratando a carga residual de esgotos que persiste nas galerias de drenagem e que chega ao mar.
  • O equipamento: Tem capacidade de tratar água da rede pluvial e o esgoto clandestino, em até 150 litros por segundo. Ao todo, 13 milhões de litros por dia.
  • Meta: Recuperação ambiental de três quilômetros e meio de praia, no trecho da Ponte Hercílio Luiz à Ponte do Coral
  • Lançamento da unidade: Março de 2019
  • Custo: R$ 18 milhões

Veja fotos da unidade e da Beira-Mar Norte

“A solução não está só no saneamento tradicional”, diz especialista

O sistema construído pela Casan, com o aval da prefeitura da Capital, prevê o seguinte caminho: o esgoto dos canais de drenagem é recolhido e enviado para a URA, que faz o tratamento e envia o efluente, que é o material tratado, para o mar. Assim, se espera retirar toda a estrutura de esgoto que antes ia “pura” para a praia.

Paulo Horta, professor e pesquisador do departamento de Botânica da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), faz a ressalva sobre a importância de se observar o passivo da baía Norte:
– Temos o passivo que está lá, que entra sistematicamente há anos e não consegue ser devidamente tratado, por isso produz esse estado crônico de baía permanentemente não balneável – destaca Horta.

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A alternativa para uma solução eficaz, segundo ele, passa por soluções que envolvam desde a atenção para as comunidades da população nas adjacências até questões diretas da própria baía. Assim, a questão de saneamento nos bairros aonde hoje o esgoto vai para o mar e a recuperação ambiental de áreas como os manguezais são fundamentais, de acordo com Horta:

– A solução não está só no saneamento tradicional, mas também na revisita a esse conceito de que o saneamento deve ter, e neste caso, de um saneamento que encare o desafio de restaurar o ecossistema – finaliza o especialista.

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