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Tratamento precoce

Rancho Queimado vira argumento de governistas na CPI da Pandemia; Mandetta ironiza

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Por Ânderson Silva
10/05/2021 - 09h44 - Atualizada em: 11/05/2021 - 16h03
CPI da Pandemia, no Senado Federal
CPI da Pandemia, no Senado Federal (Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado)

Senadores governistas escolheram Rancho Queimado, em Santa Catarina, para defender a tese do tratamento precoce na CPI da Pandemia. Na última semana, tanto Jorginho Mello (PL-SC), como Luiz Carlos Heinze (Progressistas-RS), citaram dados do município para justificar um alegado sucesso no combate à pandemia. Os números oficiais do governo do Estado, porém, comprovam que não há nenhuma diferença entre Rancho Queimado - que registrou duas mortes por Covid-19 - e outras cidades catarinenses do mesmo porte, como a coluna mostrou em março deste ano. Além disso, há três municípios do Estado que ainda não registraram óbitos, sendo um deles com porte semelhante ao da cidade da Grande Florianópolis.

Rancho Queimado: dados oficiais desmentem tratamento precoce e número de mortos por Covid

Heinze e Jorginho foram os mais ativos na defesa do município de SC, mas coube ao senador as alegações mais enfáticas. Ele chegou a apresentar uma "pesquisa" com cidades brasileiras que usaram o tratamento precoce. Em uma das manifestações, chegou a dizer que Rancho Queimado fica no Rio Grande do Sul. O senador gaúcho chamou o trabalho catarinense de "extraordinariamente positivo".

Na última semana, durante depoimento à CPI da Pandemia, o ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, foi questionado por Heinze sobre os resultados de Rancho Queimado. Como resposta, ouviu: "acho louvável procurar, mas acho importante submeter e discutir, porque assim que é feito. Não tem como a gente falar: eu torço por "a" ou por "b". Para mim, uma substância "a", "b" ou "c", desde que ela se imponha...".

Por fim, Mandetta ironizou: "As academias da Europa, dos Estados Unidos, Nova York, Califórnia, todo mundo quer, todo mundo está procurando. Que Rancho Queimado tenha descoberto a fórmula e ela se imponha, espero que sim".

Checagem sobre Rancho Queimado

Os colegas do portal Gaúcha ZH checaram na última semana as declarações do senador Heinze durante a CPI. Uma delas é justamente sobre Rancho Queimado. A reportagem ouviu o epidemiologista Pedro Hallal, da Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Ele afirmou que o quantitativos de casos registrados no município, que era de 392 naquele dia, a taxa de letalidade local está dentro dos padrões corriqueiros na pandemia.

Hallal disse à Gaúcha ZH: "Com esse quantitativo de casos, é esperado que morram justamente de duas a três pessoas, de acordo com as estatísticas que temos. A letalidade estimada da covid, considerando o número de pessoas que pegam o vírus e quantas morrem, é abaixo de 1%. Não tem nada de pior ou de melhor em Rancho Queimado do que no resto do mundo. É uma letalidade esperada".

Tratamento precoce

Em janeiro, médicos de SC que atuam na linha de frente no combate à Covid-19 relataram complicações causadas pelos remédios incluídos nos kits de tratamento precoce. Os problemas incluíram agravamento de quadros cardíacos, pancreatites e piora na evolução da Covid-19 por imunossupressão. A crença dos pacientes na eficácia do protocolo também reduziu o acompanhamento, o que, na avaliação dos médicos, favorece o surgimento de quadros mais graves da doença.

O portal Aos Fatos, que faz checagens sobre informações que circulam em redes sociais, analisou o cenário de Rancho Queimado e também contestou as informações divulgadas pela prefeitura. Ao mesmo tempo, averiguou que "é enganoso afirmar que uma combinação de seis medicamentos seja eficaz na cura da Covid-19, como fazem postagens que circulam nas redes sociais". A verificação ocorreu para um coquetel de hidroxicloroquina, ivermectina, nitazoxanida, azitromicina, vitamina D e zinco.

O site cita a OMS (Organização Mundial da Saúde), que publicou em 1º de março uma metanálise, revisão de seis estudos clínicos que contaram com 6059 participantes, que concluíram que a hidroxicloroquina teve um efeito muito pequeno ou nenhum efeito na prevenção, internação hospitalar e mortalidade por Covid-19. Segundo a entidade, a hidroxicloroquina não deve continuar como uma prioridade de pesquisa e os recursos devem ser direcionados para avaliar outras substâncias mais promissoras.

Fabricante contesta eficácia da Ivermectina contra Covid-19

A farmacêutica estadunidense Merck Sharp&Dohme (MSD), responsável pela fabricação da ivermectina, publicou um comunicado em 4 de fevereiro afirmando que os dados disponíveis não apontam a eficácia do medicamento contra a Covid-19. "Não acreditamos que os dados disponíveis sustentem a segurança e a eficácia da ivermectina além das doses e dos grupos indicados nas informações de prescrição aprovadas por agências regulatórias", diz o comunicado.

A Merck Sharp&Dohme também destacou no comunicado que a ivermectina segue sendo recomendada contra a estrongiloidíase e a oncocercose — as duas doenças são provocadas por parasitas. Segundo a farmacêutica, os cientistas "continuam a examinar cuidadosamente as descobertas de todos os estudos disponíveis".

No mesmo sentido, a Apsen, fabricante da hidroxicloroquina, respondeu à Repórter Brasil, que seu trabalho é pautado pela ciência: "Atualmente, com base nas últimas evidências científicas, a Apsen recomenda a utilização da hidroxicloroquina apenas nas indicações previstas em bulas, as quais são aprovadas pela Anvisa", afirmou.

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Colunista da NSC Comunicação, publica diariamente informações relevantes sobre as decisões que impactam o catarinense, sem esquecer dos bastidores dos poderes. A rotina de Florianópolis em texto e imagens também está no radar da coluna.

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