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Coronavírus

Médicos relatam complicações em pacientes que usaram ‘tratamento precoce’ para Covid em SC

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Por Dagmara Spautz
22/01/2021 - 12h57 - Atualizada em: 22/01/2021 - 15h37
Tratamento precoce contra Covid-19 pode causar complicações
Tratamento precoce contra Covid-19 pode causar complicações (Foto: Folhapress)

Alvo de polêmica, o ‘tratamento precoce’, que inclui medicamentos como hidroxicloroquina e ivermectina, não é apenas ineficaz contra a Covid-19, como atesta a Sociedade Brasileira de Infectologia. Os ‘kits-Covid’ também têm feito com que pacientes cheguem aos hospitais com complicações decorrentes do uso das medicações. 

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A coluna ouviu médicos que atuam na linha de frente do combate ao coronavírus - alguns deles, em condição de anonimato - e teve acesso a mensagens trocadas por especialistas. O tom é de preocupação com a popularização dos tratamentos e com a pressão sobre os médicos para prescrevê-los. 

A infectologista Clarissa Guedes, responsável pela enfermaria Covid no Hospital São Francisco, em Concórdia, diz que pelo menos metade dos pacientes que chegam para internação fizeram uso do ‘tratamento precoce’. Os kits têm receita médica e uma parte é de receituário controlado, como os antibióticos. As formulações também contêm corticoides e complexo vitamínico, com algumas variações. Nenhum desses medicamentos tem eficácia comprovada contra a Covid-19 - nem como uso preventivo, nem como tratamento de sintomas iniciais.

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- O paciente tem a ilusão de que está protegido, seguro, de que não precisa de acompanhamento médico, ou de que não está mais transmitindo. Essa falsa sensação de segurança pode levar a um pior desfecho. São muitos os pacientes na enfermaria e UTI do hospital que eu trabalho que fizeram uso dessa medicação sem nenhuma melhora clínica, e evoluindo para a doença mais grave. – diz a médica.

Alguns dos medicamentos incluídos no ‘tratamento precoce’ podem ter efeitos adversos, como o agravamento de problemas cardíacos no caso da cloroquina, ou pancreatites causadas pelo abuso da ivermectina. O que mais preocupa Clarissa, no entanto, são os corticoides:

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- Vários pacientes que usaram o tratamento precoce têm efeito colateral importante, como imunossupressão pela prednisona (corticoide que faz parte do kit-Covid). São pacientes que provavelmente tiveram uma pior evolução pela corticoterapia precoce, com risco de pior prognóstico de progressão para doença moderada a grave.

"Assassinos"

Clarissa concordou em falar abertamente à coluna, mas nem todos os médicos se sentem seguros para se exporem. A politização em torno do ‘tratamento precoce’, que foi recomendado pelo governo federal e respaldado por um grupo de médicos no Brasil, fez com que os especialistas que se recusam a adotar os coquetéis, por falta de evidências de eficácia, sejam atacados. Há relatos de ameaças virtuais e também reclamações em consultas, de pacientes que exigem o ‘tratamento precoce’.

Vários pacientes que usaram o tratamento precoce têm efeito colateral importante Clarissa Guedes, infectologista

- Somos tidos como assassinos, como pessoas que querem a morte da população por não prescrevermos essas drogas. Na verdade, a maior parte dos infectologistas nesse país nunca trabalhou tanto pela saúde, pela vida das pessoas como agora. Em 18 anos de infectologia, nunca havia passado por uma situação em que, em 10 meses, tratei 750 pessoas de uma única doença infecciosa. São 24 horas em função desse trabalho para receber esse tipo de comentário, de que somos assassinos, negacionistas, queremos ganhar dinheiro com a internação ou a morte das pessoas – desabafa Clarissa.

Infectologista, Clarissa Guedes atua na linha de frente desde o início da pandemia
Infectologista, Clarissa Guedes atua na linha de frente desde o início da pandemia
(Foto: )

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Cloroquina testada em SC

Remédios como a hidroxicloroquina e a ivermectina, ‘estrelas’ do ‘tratamento precoce’, foram alvo de pesquisas desde o início da pandemia. O médico Eduardo Campos, infectologista da Diretoria Estadual de Vigilância Epidemiológica (Dive), lembra que elas chegaram a ser testadas em Santa Catarina. Mas não tiveram resultado.

- Nossa expectativa era que alguma dessas medicações pudessem ser úteis para Covid. Todas falharam. Nós chegamos a prescrever, dentro de protocolos de estudo no Hospital Nereu Ramos e no Regional, de São José, cloroquina, azitromicina. Nenhum deles ao final mostrou efetividade.

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A crença na cloroquina começou com uma hipótese levantada pelo médico Didier Raoult, na França - mas acabou questionada pelos cientistas. Ao redor do mundo a medicação, originalmente usada para tratar um tipo específico de malária, ganhou a companhia de outros medicamentos como a azitromicina, a ivermectina e as vitaminas. Era o que ficaria conhecido como ´kit-Covid'. 

Somos tidos como assassinos, como pessoas que querem a morte da população por não prescrevermos essas drogas. A maior parte dos infectologistas nesse país nunca trabalhou tanto pela saúde, pela vida das pessoas como agora Clarissa Guedes, infectologista

Na política, a cloroquina ganhou força quando foi defendido pelo ex-presidente dos EUA, Donald Trump, que acabou abandonando a estratégia tempos depois. A essa altura, já havia sido abraçada pelo governo brasileiro.

O ‘tratamento precoce’ chegou a ser recomendado e incentivado pelo Ministério da Saúde em Manaus (AM), dias antes do Amazonas sofrer com colapso na oferta de oxigênio para os pacientes. O caso integra uma investigação contra o ministro Eduardo Pazuello.

Médicos ouvidos pela coluna, em condição de anonimato, apontam que além de motivações ideológicas, que atraem uma parte dos médicos mais alinhados às ideias do presidente Jair Bolsonaro, outros fazem a recomendação porque se confortam com a sensação de estarem oferecendo uma alternativa aos pacientes – ainda que não haja eficácia.

- O médico se sente aliviado em dar alguma coisa para o paciente tomar quando não tem o que oferecer. Mas muitos estão fazendo atendimento à distância, teleconsultas. Não sabem como está a saturação de oxigênio do paciente, não estão vendo a realidade nas emergências e UTIs – disse um dos especialistas.

 80% dos pacientes melhoram, seja com cloroquina ou chá de boldo. Estão oferecendo placebo, achando que é tratamento. Eduardo Campos, infectologista

O infectologista Eduardo Campos comentou que os dados empíricos, sobre a suposta melhora de pacientes, vêm da evolução natural da doença. Ele explica que é uma questão matemática: de 100 pacientes com Covid-19, 80 terão sintomas muito leves, ou não sentirão nada. Quinze terão sintomas como febre alta, tosse intensa, mal-estar, vômito e diarreia. Os cinco restantes poderão ser internados e parte deles precisará de suporte de oxigênio, alguns em UTI.

- Quando vejo essa proporção sei que 80% dos pacientes melhoram, seja com cloroquina ou chá de boldo. Estão oferecendo placebo, achando que é tratamento. O médico tem a convicção de que salvou vidas, mas não faria diferença – avalia.

O que fazer

Apesar de contrários ao ‘tratamento precoce’ com o kit-Covid, os médicos ouvidos pela coluna recomendaram a busca por atendimento precoce, o que vem sendo preconizado também pelo Ministério da Saúde recentemente. A orientação é para que os pacientes não deixem de fazer acompanhamento médico da evolução da Covid-19.

- A recomendação é para que o paciente não espere falta de ar franca para procurar auxílio médico. Essa doença, entre 9 e 12 dias depois do início dos sintomas, pode evoluir para uma fase inflamatória importante, com pneumonite viral, muitas vezes com coinfecção bacteriana. As pessoas podem, mesmo assintomáticas, passar por uma situação que chamamos de hipoxemia silenciosa, em que o paciente faz pneumonia, tem diminuição da saturação de oxigênio, e não tem sintoma franco de falta de ar, dispneia. Então o acompanhamento médico é importante sim, ter uma equipe que reavalie esse paciente pelo menos até o 10º, o 12º dia a partir do início dos sintomas, em função do risco de evolução para situação de maior gravidade – afirma Clarissa.

A orientação de acompanhamento médico é especialmente importante para pacientes com mais de 60 anos, e para quem tem fatores de risco como obesidade, cardiopatia, pneumopatia, asma, enfisema, fumantes crônicos, imunossuprimidos e diabéticos.

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