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    Opinião 

    A alma acalorada

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    César
    Por César Seabra
    16/05/2020 - 05h00
    dia
    (Foto: Arquivo Pessoal)

    Em meio aos afazeres domésticos e profissionais, as leituras. “O Rei do Mundo”, de David Remnick, conta a ascensão do herói americano Muhammad Ali; “Torto Arado” é um espetacular romance do baiano Itamar Vieira Júnior;  “Dez Drogas”, do americano Thomas Hager, revela de forma didática e bem humorada como a história da medicina foi mudada por plantas, pós e comprimidos; “O Novo Iluminismo”, de Steven Pinker, mostra a convicção de que a razão e a ciência impulsionam a Humanidade e precisam de defesa vigorosa nos dias de hoje; revisitar “Manuelzão e Miguilim”, de Guimarães Rosa, sempre faz bem para o coração; e aí me deparo com Fernando Pessoa.

    “Quando Fui Outro” é uma coletânea de poesias e crônicas do poeta português, organizada pelo escritor brasileiro Luiz Ruffato. Nada de academicismos aborrecidos, nem teses literárias enfadonhas. Para publicar o livro, Ruffato trilhou caminho sentimental: levou às páginas o que mais gosta de Pessoa.  

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    De começo, duas surpresas. A primeira: Fernando é neto paterno de Dionísia Seabra e filho de Joaquim de Seabra Pessoa. O que isso pode significar? Nada. Mas farei uma profunda pesquisa sobre minha árvore genealógica.

    A segunda: em vida, o poeta lançou apenas um livro (“Mensagem”). Assim como o genial pintor holandês Van Gogh, Fernando Pessoa não teve seu talento reconhecido em vida (ele morreu aos 47 anos, em Lisboa).

    Desta vez decidi abandonar o Pessoa poeta e debruçar-me no Pessoa cronista. A seguir, algumas sentenças que mostram a escrita lindamente maravilhosa do português:

    1. “A constituição inteira de meu espírito é de hesitação e de dúvida”.

    2. “Não pondero, sonho; não me sinto inspirado, deliro”.

    3. “Toda literatura consiste num esforço para tornar a vida real”.

    4. “Nuvens... Existo sem que o saiba e morrerei sem que o queira”.

    5. “Meu Deus, meu Deus, a quem assisto? Quantos sou? Quem é eu? O que é este intervalo que há entre mim e mim?”

    6. “A decadência é a perda total da inconsciência; porque a inconsciência é o fundamento da vida. O coração, se pudesse pensar, pararia”.

    7. “No meu coração há uma paz de angústia, e o meu sossego é feito de resignação”.

    8. “Nunca vou para onde há risco. Tenho medo a tédio dos perigos”.

    9. “Não choro a perda da minha infância; choro que tudo, e nele a (minha) infância, se perca”.

    Em todos os momentos, ler Pessoa serve como um refresco para o coração. Em tempos de pandemia e idiotia, reencontrar Pessoa encoraja e acalora qualquer alma.

    O céu de Florianópolis na manhã de terça-feira, dia 12, digno da obra de Fernando Pessoa: a poesia em cores, a luz de esperança de que tudo isso passará e a vida voltará ao normal.

    A escolha é sua

    Para o psicanalista Christian Dunker, as pessoas têm dois caminhos a seguir a partir da pandemia. Um, de progresso à individualização:  “Tenho recurso, preciso salvar meu lucro, pago respirador, sou especial e posso sair na rua”.

    O segundo, o da solidariedade. “A situação impõe que as pessoas olhem para o lado, se organizem a ajudar quem está numa situação pior, de se importarem com a coletividade”.

    É a diferença entre os “espertos” (o primeiro grupo) e os “despertos” (o segundo grupo). A escolha é sua, fique à vontade.

    O preço que pagamos

    Trecho da linda “La Storia de un Soldato”, do maestro italiano Ennio Morricone:

    “Conte todas as cruzes e conte todas as lágrimas./Estas são as perdas e lembranças tristes./Essa devastação já foi uma nação./Então, quão alto é o preço que pagamos”.

    Feita em 1966, a música é sobre a Guerra Civil americana. E parece tão atual...

    Viva o jornalismo!

    O presidente chama jornalista de idiotas e manda que nos calemos. O governador, aborrecido com a cobertura jornalística do escândalo dos respiradores, sugere um boicote econômico à imprensa.

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