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Crônica

Carta para uma francesa

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Por César Seabra
31/08/2019 - 05h45
(Foto: AFP)

Madame Brigitte, sem apresentações formais nem mais delongas, conto que somos um país relativamente novo. Recentemente saímos de uma ditadura militar para a democracia. Estamos ainda engatinhando por um caminho muito bem conhecido por vocês, amigos franceses. 

Estamos aprendendo a lidar com os Poderes, procuramos entender o papel e até onde cada um deles pode ir. Somos uma bagunça com muitos partidos e políticos de aluguel, quase nenhuma ideologia, oposição praticamente nula. “Une désordre”, como se diz em seu país. 

Nestes anos de aprendizado dois presidentes foram banidos do palácio onde moravam. Outro está vivendo numa cela da Polícia Federal, condenado por corrupção. O atual não dá a mínima bola para a liturgia do poder, sequer demonstra sinal de humanismo e respeito por instituições.

Somos, Brigitte, jecas, caipiras, toscos. Indo direto aos finalmentes, não gostamos de leis. Elas nos servem para desrespeitá-las. Não somos nada cordiais e usamos a agressividade e a intolerância para discutir coisas banais. 

Somos racistas, misóginos, homofóbicos. Matamos índios a pauladas. Queimamos nossas florestas. Assassinamos nossas mulheres. Agredimos gays e lésbicas nas estações de metrô. Maltratamos as duas pontas da vida, a infância e a velhice. Somos o que somos. 

Temos 12 milhões de desempregados – sem contar, Madame Brigitte, os desiludidos que desistiram de buscar trabalho. Ainda contamos 11 milhões de pessoas que não sabem ler nem escrever, em pleno século 21. Nosso trânsito mata mais do que guerras. Nossos pais acreditam que a vacinação pode levar os filhos à morte. 

Brigitte, costumamos atribuir a um conterrâneo seu uma frase marcante sobre a gente. Entre fevereiro e março de 1963 houve, também, um pequeno sobressalto diplomático entre os governos brasileiro e francês, por causa da pesca de lagostas. Então, o presidente e estadista Charles de Gaulle teria dito que o Brasil não é um país sério.

A frase é emblemática. Cinquenta e seis anos depois mostramos ao mundo, quase diariamente, que estamos longe de nos tornar um país digno de ser levado a sério.

Por tudo isso, Madame Brigitte, humildemente te peço perdão por toda nossa ignorância e falta de decoro.

Coincidências

Do escritor americano de origem russa Gary Shteyngart: “O que Trump fez foi invadir nossas vidas num nível que não sobrou mais nada. Lembro que no primeiro ano era quase impossível ter uma conversa sobre qualquer coisa que não fosse ele.”

Qualquer semelhança com o Brasil não é mera coincidência.

Argentinos

Os vizinhos argentinos sempre enchem as nossas praias e sempre nos oferecem bons livros. Seguem duas dicas: “As coisas que perdemos no fogo”, de Mariana Enriquez; e “A fúria”, de Silvina Ocampo.

Para quem gosta de contos, são dois tesouros da literatura latino-americana.

Futuro em brasa

De Ségolène Royal, ex-ministra francesa do Meio Ambiente, Energia e Mar: “Aqueles que destroem o ambiente arcarão com as consequências disso. Fenômenos de seca e de calor extremo serão observados nos próximos meses. E o impacto será rápido para o Brasil, infelizmente.”

Quem avisa amigo é.

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Percepções sobre Santa Catarina a partir do olhar do diretor de jornalismo da NSC Comunicação

cesar.seabra@somosnsc.com.br

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