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    Opinião 

    O amor ao redor

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    César
    Por César Seabra
    25/04/2020 - 05h00
    arte
    (Foto: Divulgação)

    Há mais de um mês em confinamento, confesso certo cansaço e acuso a preguiça para escrever. Preguiça para comentar as irresponsabilidades infames e nefastas de alguns presidentes. Preguiça para discutir sobre energúmenos que vão às ruas pedir o fim da democracia e a volta da ditadura.

    Preguiça para criticar imbecis que, com seus carrões caros, protestam e interditam as entradas de hospitais lotados de vítimas da Covid-19. Preguiça para desaprovar e condenar marginais que se sentem no direito de agredir, física ou verbalmente, quem pensa diferente deles. Me bateu preguiça de ler e escrever sobre esses fanáticos desatinados.

    Melhor usar a energia boa que armazenamos para falar dos companheiros de isolamento social. Na literatura, Otto Lara Resende, Rubem Braga, Carlos Drummond de Andrade, Manoel de Barros, Murilo Mendes, Paulo Mendes Campos, David Remnick, Albert Camus, Teju Cole, Ian McEwan, Amós Oz, Javier Mariás, Mia Couto, Valter Hugo Mãe.

    Na música, Strokes, Fiona Apple, Caetano Veloso, Milton Nascimento, John Coltrane, Branford Marsalis, David Byrne, Nick Cave, Chico Buarque, Clara Nunes, Mutantes, Renato Teixeira, Rolling Stones, Gal Costa, Novos Baianos, Back, Beethoven, Pulp, Primal Scream, Beatles.

    Na telinha, Martin Scorsese, Ridley Scott, “Fleabag”, “Modern Love”, Larry David, ‘The Last Dance”, “Match Point”, Sergio Leoni, Clint Eastwood, David Lynch, Spike Lee, Fernando Meirelles, Walter Salles, “Boneca Russa”, “Succession”, os jogos da Seleção Brasileira nas Copas de 1970 (brilhante) e de 1982 (nem tão brilhante assim, como diz a lenda).

    Outra coisa boa, uma redescoberta em tempos de coronavírus, é conversar com os amigos, saber como estão vivendo, o que estão fazendo, como estão se virando, se estão se divertindo, namorando, rindo (apesar dos pesares). Marcelo, Milton, Luciana, PM, Ledu, Outeira, Good, Tiago, Adriana, Perna, Márcia, MotoMoto, Lédio, Cerol, Maurício, Jorge, Gilmar, Tadeu, Karen, Dani, Maiara, Dag, família Gallotti, Anselmo, Raquel, Mutley, Joãozinho, Cleuza, Zé, Dr. Toninho, Tigrão, Sherman, Fino, Flavinho.

    E o que seria isso tudo sem o apoio de irmãos, pais, filhos, a pessoa que amamos? Desde o dia 15 de março não os vejo. Mas todos os domingos, às 17h, graças aos milagres do mundo moderno, conversamos por uma hora. Leila, Augusto, Catia, Sandra, Cintia, as Marinas, João, a Maggie. Impossível chamar isso de conversa. É uma bagunça digna de família italiana, na qual transbordam afeto, carinho, delicadeza, gentileza, cuidado. Um refresco para a alma e o coração.

    Recentemente, numa entrevista, o grande ator argentino Ricardo Darín disse: “É muito difícil lutar contra a pandemia de idiotas”. Mas temos salvação. Um livro, um disco, um filme, um álbum de fotos, um amigo, a família, a simplicidade, os sonhos, o amor. Tudo isso está bem próximo da gente. Basta olhar ao redor.

    De tempos que não voltam mais

    1) Do escritor francês Albert Camus, em “Esperança do Mundo”: “Jovem, eu exigia das pessoas mais do que elas podiam me dar: uma amizade contínua, uma emoção permanente. Agora eu sei pedir a elas menos do que podem me dar: uma companhia sem frases”.

    2) Do cronista capixaba Rubem Braga, em “Os Pobres Homens Ricos”: “Um amigo meu estava ofendido porque um jornal o chamou de boa-vida. Vejam que país, que tempo, que situação! A vida deveria ser boa para toda gente; o que é insultuoso é que ela o seja apenas para alguns”.

    3) Do cronista cuiabano Manoel de Barros, em “Manoel por Manoel”: “Em vez de peraltagem eu fazia solidão. Brincava de fingir que pedra era lagarto. Que lata era navio. Que sabugo era um serzinho mal resolvido e igual a um filhote de gafanhoto. Cresci brincando no chão, entre formigas. Eu tinha mais comunhão com as coisas do que comparação”.

    4) Do poeta Carlos Drummond de Andrade, em “Lembrança do Mundo Antigo”: “As crianças olhavam para o céu: não era proibido. A boca, o nariz, os olhos estavam abertos. Não havia perigo. Os perigos que Clara temia eram a gripe, o calor, os insetos. Havia jardins, havia manhãs naquele tempo!”.

    5) Da filósofa francesa Simone Weil, em carta a um amigo distante no começo do século passado: “Tratemos de amar essa distância, que é inteiramente feita de amizade, pois aqueles que não se amam não estão separados”.

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