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    Crônica

    O bem comum

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    Por César Seabra
    16/02/2019 - 04h00

    Durante as últimas semanas correu nas redes sociais uma frase sintomática: "O Brasil não tem alvará nem para ser um país". Em pouco mais de um mês deste ano, Brumadinho, chuvas e Flamengo. Três tragédias, vidas desperdiçadas, famílias dizimadas.

    O Brasil não tem alvará, nem fiscalização. Sejamos diretos, fiscalização aqui é papo furado. Quando há é corruptível, com raríssimas exceções. Pontes estão caindo, barragens derretendo, estacionamentos viram alojamentos irregulares, pessoas morrem. 

    Vamos de novo a Nova York. Em 1994, o prefeito Rudolph Giuliani lançou o “Tolerância Zero”.  Pelo plano, pequenas violações da lei eram rigorosamente vigiadas e punidas para evitar a ocorrência de crimes mais graves. Um exemplo bem simples do “Tolerância Zero”: cachorro fez cocô na calçada da Quinta Avenida e madame não limpou? Multa na hora.

    E assim foi-se educando as pessoas, mudando hábitos, transformando-se a cidade caótica numa metrópole organizada e respeitosa com os direitos de moradores e turistas.

    Para dar certo, foi necessário investir pesadamente numa fiscalização séria, numa polícia inteligente e anticorrupção. Hoje Nova York vive seu momento mais seguro em décadas. Podemos andar por suas ruas sem medo - e sem pisar em cocô nas calçadas.

    Voltemos ao Brasil. Aqui reclama-se muito de tudo, da polícia, dos políticos, dos governantes, dos empresários, dos padeiros, dos carteiros, dos parentes, dos vizinhos de porta. No fundo, ninguém está preocupado com o outro - aquele senso de comunidade com esforços comuns para o bem comum. Nada. Não temos fiscalização, ignoramos o coletivo, somos uma sociedade cada vez mais esquizofrênica e individualista.

    Na manhã de segunda-feira, em seu último programa de rádio, Ricardo Boechat disse: “O que a gente tem que colocar em cima da mesa, como sociedade, é se queremos continuar lidando com essas tragédias, pranteando-as de início, esquecendo-as depois”.

    Logo depois o brilhante jornalista nos deixaria. Indignado e bem humorado, Boechat partiu sem ver o Brasil vencer a negligência, a impunidade e a falta de fiscalização que ele tanto condenava.

    Em 2013, após o incêndio na Kiss, fiscais se apressaram a mostrar serviço e fechar boates por todo o país. Agora, com o incêndio do Flamengo, correm para interditar centros de treinamentos. É sempre assim, o show de pirotecnia depois dos desastres, das tragédias, das demonstrações de desprezo pela vida.

    ***

    Uma família com nove pessoas veio passar férias em Florianópolis. Eles ficaram na Praia dos Ingleses. Sete deles caíram doentes. De acordo com os médicos, por conta da água poluída do mar. Que coisa triste.

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    Dica de cinema: "No portal da eternidade", de Julian Schnabel, conta a história do gênio Vincent Van Gogh. Difícil controlar as lágrimas com a atuação sublime de Willem Dafoe no papel do pintor holandês. Imperdível.

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    Semana passada estreamos o novo projeto de nossos jornais. Todo pensado e realizado por nossa equipe gráfica, o projeto valoriza as grandes reportagens, os colunistas e suas informações exclusivas, os contraditórios das opiniões dos articulistas. Isso é bom jornalismo. O resto é o resto.

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