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    Por César Seabra
    25/01/2020 - 06h00
    velha da praça é nossa
    (Foto: )

    Praticamente nasci com um problema no ouvido direito. Vivi boa parte de minha infância em hospitais públicos (sim, eles eram ótimos), passei por três cirurgias em uma década, fiquei bom, mas com uma leve deficiência auditiva. Quase 50 anos depois a conta bate na porta. Agora tenho apenas o ouvido esquerdo em plena forma. Não é nada fácil estar perto de me tornar um sessentão.

    De acordo com estudo divulgado em novembro passado, temos quase 11 milhões de pessoas com deficiência auditiva no país. Com o envelhecimento da população este número vai aumentar. A pesquisa segue: 20% delas não saem sozinhas, apenas 37% estão no mercado de trabalho e 87% não usam aparelhos porque são caros. Os números da Organização Mundial da Saúde (OMS) são também assustadores: somos 500 milhões de surdos e, até 2050, chegaremos a um bilhão em todo o planeta.

    Não sou mais estéreo, como disse o médico. Funciono em mono. A audição periférica falha. Vivo a buscar alternativas. Presto mais atenção nos lábios das pessoas. Sento-me estrategicamente em reuniões, cinema, restaurantes, na areia da praia. Vou testar um caríssimo aparelho de design “ultramoderno-topzêra” da Escandinávia.

    A namorada perde a paciência algumas vezes. Totalmente compreensível. Ela precisa repetir coisas que não consigo captar. Um amigo já me deu um apelido: “Velha Surda”, referência ao divertido personagem do programa “A Praça É Nossa” (foto ao lado).  Não é nada tranquilo sofrer bullying perto dos 60 anos.

    Dizem que a ignorância às vezes é uma graça divina. Pois a surdez também pode ser. “As mulheres gostam de ser assediadas”. O que ele disse? “Esses livros têm um amontoado de muita coisa escrita”. O que ele falou? A surdez pode ser realmente uma bênção em tempos de profunda idiotia.

    A hora do sono é também abençoada. Com o tempo aprimorei uma técnica simples: dormir com o ouvido útil fechado, vedado por um travesseiro. Nada passa, barulho algum. Poder dormir o sono dos justos torna-se, então, uma dádiva, uma virtude num mundo de medos, preconceitos e sons que vão diminuindo, desaparecendo, se dissipando.

    Rotina macabra

    A cada fim de semana, mais vítimas. Esta tem sido a rotina nas estradas de Santa Catarina. Desrespeito às leis de trânsito, motoristas embriagados, vidas perdidas, famílias dizimadas. E assim o Estado vai acumulando mortes nessa macabra corrida assassina.

    Sinais, fortes sinais

    O ano mal começou, as maluquices seguem o curso natural. Até o nazismo foi reverenciado por um burocrata do governo federal. Sinais, fortes sinais de que 2020 será longo.

    Não é não

    Sinônimos de assédio: insistência, impertinência, perseguição, inconveniência, obsessão, fixação. Em sendo assim, nenhum tipo de assédio – sexual, moral, profissional, psicológico – pode ser considerado coisa boa. É possível entender ou é preciso desenhar?

    Pequenas tiradas

    Sono dos injustos

    Do escritor Émile Ajar (que também era Romain Gary): “São os injustos que dormem melhor, porque eles estão se lixando, ao passo que os justos não conseguem pregar o olho e esquentam a cabeça por qualquer coisinha. Do contrário, não seriam justos”.

    Nossa mitologia

    Do desenhista Saul Steinberg, no livro “Reflexos e Sombras”: “É melhor deixar certas coisas em paz, tal como estão na memória: com o passar do tempo tornam-se a mitologia da nossa vida”.

    Que país é esse?

    De Bernardo Mello Franco, colunista do jornal “O Globo”: “(O Brasil) É um país em que o ministro da Educação insulta os professores, o ministro do Meio Ambiente ataca ambientalistas e um assessor da Presidência repete gritos de guerra do fascismo espanhol”.

    A voz interior

    De Thomas Edison, um dos maiores inventores da humanidade: “A surdez poupou-me o trabalho de ficar ouvindo grande quantidade de conversas inúteis e me ensinou a ouvir a voz interior.”

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