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Entrevista

Brasil precisa de lockdown nacional e "extremamente restrito", diz Miguel Nicolelis

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Dagmara
Por Dagmara Spautz
04/03/2021 - 05h00 - Atualizada em: 04/03/2021 - 08h04
MIguel Nicolelis afirma que lockdown nacional é a única saída para o Brasil
Miguel Nicolelis afirma que lockdown nacional é a única saída para o Brasil (Foto: Divulgação)

Um dos mais influentes pesquisadores brasileiros no mundo, o neurocientista Miguel Nicolelis observa como poucos a evolução da pandemia no Brasil. Ex-coordenador do Comitê Nordeste de enfrentamento à Covid-19, ele tem acompanhado com atenção a situação de Santa Catarina, que sofre com o colapso no sistema de saúde.

Em entrevista exclusiva à coluna, Nicolelis fala sobre as características desta nova onda de Covid-19, o "terreno fértil" para novas variantes no Brasil, e faz um alerta: "Sem lockdown, não salvaremos nem a saúde, nem a economia."

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Entrevista: Miguel Nicolelis *

Por que a nova onda é tão diferente do que víamos no ano passado?

Basicamente, o país todo sincronizou depois das campanhas eleitorais e das aberturas que foram feitas em setembro. No começo de novembro, começamos a detectar um aumento muito grande de casos principalmente na região Sul e Centro-Oeste, que tinham demorado mais tempo, na primeira onda, para ter um efeito.

As eleições foram um fenômeno nacional e todas as regiões do país entram em sincronia, com casos aumentando simultaneamente Miguel Nicolelis, neurocientista

Aí, nós tivemos festas de fim de ano e, mais recentemente, o Carnaval. Uma sequência de eventos que sincronizaram o país como um todo. O espalhamento do vírus foi extremamente disseminado, tanto no interior, quanto nas capitais do Brasil. Diferentemente da primeira onda, que começou no litoral, nas capitais, e migrou para o interior ao longo de três meses, nessa segunda onda tudo explodiu ao mesmo tempo. E é por isso que vemos a sequência de colapsos de sistema de saúde que estão ocorrendo por todo o país.

Temos neste momento um perfil de pessoas mais jovens sendo intubadas, em UTIs, inclusive óbitos. Essa é uma característica dessa segunda onda?

São várias explicações. As pessoas mais jovens se expuseram mais. Como o grau de infecção aumentou e a transmissão aumentou muito, e elas fazem parte da força ativa, que está trabalhando desde meados de setembro, outubro, em grande número, essas pessoas mais jovens foram expostas ao vírus e infectadas. Esta é a primeira explicação. 

A segunda, que está começando a surgir, é a possibilidade de que as novas variantes, vindas do Reino Unido, da África do Sul e da Amazônia, possam ter um grau de infectabilidade de pessoas mais jovens maior, pela carga viral que elas produzem. Elas transmitem mais, e isso pode ter atingido mais as pessoas mais jovens. Esse fato é uma realidade em todo o Brasil, e também o fato de que UTIs pediátricas estão mostrando taxas de ocupação crescentes, de uma maneira muito mais rápida do que jamais vimos na pandemia.

Estamos correndo o risco, também, de ter um colapso de UTIs pediátricas

Isso porque crianças estão começando a ter casos graves, pelo volume de pessoas infectadas no país.

É por isso que o senhor é contrário à manutenção das aulas presenciais neste momento no Brasil?

Sim, não podemos abrir as escolas neste momento e, se elas estão abertas, temos que fechá-las. Porque estamos vendo casos graves em crianças, também. E as crianças podem transmitir assintomaticamente para professores, funcionários, e o entorno da escola.

Então, na realidade, estamos com um problema muito grave neste momento, e qualquer atividade que produza qualquer tipo de aglomeração é uma atividade de risco

Como o senhor viu a proposta de uma Comissão Nacional, feita por secretários de saúde de todo o país? É o que o senhor havia proposto em janeiro, correto?

Recebi com grande otimismo. É algo que eu vinha falando desde o dia 4 de janeiro. 

No dia 18 de dezembro o nosso Comitê do Nordeste, que eu coordenei até fevereiro deste ano, também já tinha emitido um alerta de que a situação era gravíssima, e agora todos os secretários de Estado do Brasil soltaram esse documento mostrando exatamente a gravidade da situação, e que é preciso fazer um lockdown extremamente restrito no país todo. Isso é muito óbvio para qualquer pessoa que tenha o mínimo de discernimento, e entenda a gravidade da situação. É a única saída que o país tem neste momento.

Como o senhor vê a estratégia de SC, que apostou em uma restrição intermitente, nos finais de semana?

No grau de transmissão e infecção, não só em SC, mas em qualquer lugar do mundo, quando se atinge esses patamares de taxas de ocupação (de leitos) e de transmissão do vírus, essas medidas intermitentes não têm efeito algum. Comparado com a taxa de explosão de casos durante o dia, e a taxa de ocupação de leitos, você vê que o efeito é mínimo, não faz diferença alguma. Toque de recolher das oito da noite às cinco da manhã, ou das dez da noite às cinco da manhã, (também) não funciona. Principalmente porque o grau de gravidade que temos, neste momento, supera em muito. Estamos num grau de casos por dia, mortes por dia e taxas de ocupação de leitos por dia que não tem mais como combater com medidas paliativas como o toque de recolher noturno.

Essas restrições intermitentes não funcionam mais

As pessoas, de forma geral, não se comovem com os mais de 250 mil mortos. O que faltou no Brasil para sensibilizar sobre a pandemia?

Faltou um comando central, uma mensagem clara, transparente, objetiva, direta, real, que contasse a história como ela é, baseada nos fatos e nos levantamentos dos dados reais, e numa visão de mundo que privilegia a vida humana. A lição das pandemias anteriores no mundo, e a maior delas é a de influenza, de 1918, é que as cidades e estados que se trancaram, que priorizaram a vida, que pararam sua atividade econômica para conter o espalhamento, numa época em que ninguém sabia o que era um vírus, foram as que melhor desempenharam economicamente depois. 

Agora, em 2020, o que estamos vendo é que os países que se trancaram mais cedo, que fizeram tudo o que tem que fazer, são os que estão tendo a melhor recuperação econômica, e mais rápida. Vide Nova Zelândia, Austrália e China. São os únicos países do mundo que estão tendo um crescimento do PIB de 2020. 

A primeira ministra da Nova Zelândia, sábado passado, quando descobriram um, só novo caso na capital do país, Oackland, fechou a capital por uma semana. E sabe o que é mais surpreendente? Com apoio maciço da população, porque a Nova Zelândia fez tudo direitinho, e está tendo um crescimento do PIB de 2,5% no ano de 2020, enquanto nós vamos perder quase 10%.

Priorizar a vida é a melhor estratégia para recuperação econômica de um país. Até neurocientista sabe disso

Hoje temos uma autorização para estados e municípios comprarem vacinas. Isso funciona, na medida em que o governo federal não está dando conta?

A única solução, neste momento, seria a criação, literalmente, de uma Comissão de Salvação Nacional liderada pelos governadores dos 26 estados e do Distrito Federal, Congresso, Supremo Tribunal Federal, sociedade civil e membros da comunidade científica, para criar um Estado Maior de manejo da pandemia. É como se você estivesse na guerra, o comando do país desaparecesse e, para salvar o país, você tivesse que criar uma Comissão de Salvação Nacional. A metáfora que estou usando, porque gosto muito de história, é como se o Brasil fosse Stalingrado neste momento, na segunda guerra mundial.

Nós estamos cercados, o inimigo é mais poderoso do que nós, não temos para onde sair

Ou nos unimos, defendemos nossa posição, avançamos e atacamos o inimigo de frente, ou seremos derrotados. É uma batalha existencial, de vida ou morte, como o Brasil jamais enfrentou. 

Os países europeus têm experiências milenares de guerras, seculares. O Brasil, não. Não tem essa consciência do que é estar numa guerra de um ano, neste momento, que custou 255 mil vidas. 

Isso não existe na história do Brasil. Não temos no DNA da sociedade brasileira esse espírito de combater um inimigo de maneira unida. 

É isso o que falta no Brasil, união da sociedade com os governantes, esquecer as diferenças que possam existir, ideológicas e políticas, e tentar sobreviver a uma guerra de extermínio, que é isso aqui.

Diante do cenário, qual o risco de desenvolvermos novas variantes mais resistentes, que escapem de vacinas?

O risco é completo e já está acontecendo. Nós já somos o maior celeiro, junto com os EUA, de surgimento de variantes no mundo. 

Quanto mais gente infectada, mais o vírus se multiplica. Quanto mais o vírus se multiplica, mais mutações aleatórias ocorrem e mais variantes podem surgir que são mais infecciosas e invariavelmente mais letais. 

Então, se você não controla, e isso os empresários da área do agronegócio, e de todas as atividades econômicas, não entendem.

Se o Brasil não controlar a pandemia, nenhum produto fabricado no Brasil vai ser aceito no exterior

Vamos ser um país pária. Santa Catarina, que tem uma indústria enorme, pujante, pioneira, do agronegócio brasileiro, os frigoríficos não vão conseguir vender na China, nem em lugar nenhum do mundo, porque o mundo vai se trancar e vai isolar o Brasil. Vai ser como na Idade Média, quando as cidades eram tomadas pela peste, e eram cercadas e isoladas. 

Vamos ser uma gigantesca colônia de infectados, e o mundo não permitirá que as pessoas daqui saiam, nem os produtos daqui saiam

Controlar a pandemia, além de uma questão humanitária, de salvar vidas, é uma questão de sobrevivência da economia brasileira.

* Leia mais desta entrevista na edição de fim de semana do Diário Catarinense, Jornal de Santa Catarina e A Notícia.

Dagmara Spautz

Colunista

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O que acontece de mais relevante em boa parte do litoral catarinense, especialmente Itajaí e Balneário Camboriú. Fontes exclusivas e informações de credibilidade nas áreas de política, economia, cotidiano e segurança.

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