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    Jair Bolsonaro não tem mais condições de liderar o país

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    Dagmara
    Por Dagmara Spautz
    25/03/2020 - 12h42 - Atualizada em: 25/03/2020 - 12h43
    Jair Bolsonaro (foto: Sergio Lima, AFP)
    Jair Bolsonaro (foto: Sergio Lima, AFP)

    Em meio à emergência mundial de saúde causada pela pandemia de coronavírus, o Brasil navega desgovernado. Ao radicalizar o discurso, até então oscilante entre o bom senso e a irresponsabilidade, Jair Bolsonaro abraçou de vez o delírio e colocou 200 milhões de brasileiros em risco. Não tem condições de liderar o país.

    O pronunciamento em rede nacional, na terça-feira (24) à noite, foi endereçado à base mais fiel do eleitorado bolsonarista. Aquela que não abandonaria o presidente, nem sob risco à própria vida. Reportagem de Gustavo Uribe e Talita Fernandes, na Folha de S. Paulo, conta os bastidores do discurso, alinhado às pressas junto ao “gabinete do ódio” – o núcleo ideológico do Palácio do Planalto – como resposta ao esfriamento da militância digital em meio à pandemia.

    Contam os repórteres que os militares tentaram dissuadir Bolsonaro do pronunciamento catastrófico. Não conseguiram. O que se viu foi uma sequência de “achismos” e atrocidades.

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    O capitão preferiu, mais uma vez, acusar a imprensa de provocar histeria e os governadores – para quem sobrou o papel de tomar as medidas mais drásticas neste momento de crise – de destruidores de empregos. Integrante do grupo de risco para complicações da covid-19, aos 65 anos, Bolsonaro zombou da gravidade do vírus ao dizer que teve passado atleta e por isso está imune à doença, que voltou a chamar de “gripezinha” e “resfriadinho”.

    O show de insanidade não acabou: nesta quarta-feira (25), em frente aos jornalistas que cobrem a rotina do Palácio do Planalto, disse que outros vírus “mataram mais que esse e não tiveram essa comoção toda”. Ameaçou os servidores com a crise econômica que se avizinha. E disse desconhecer a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que liberou prefeitos e governadores para tomarem medidas de restrição que protejam a população contra o coronavírus. Está alheio à gestão da crise.

    Bolsonaro faz pouco caso das mortes decorrentes do coronavírus. Questionado por um jornalista sobre a possibilidade de 200 mil mortos em território brasileiro, considerando a média histórica do vírus, o capitão desconversou. E voltou a contrariar as medidas recomendadas pelo próprio Ministério da Saúde.

    O coronavírus assusta não apenas pelo índice de letalidade. Mas pela velocidade com que derruba os pacientes mais frágeis, e com que colapsa os sistemas de saúde. Os relatos de médicos e enfermeiros italianos sobre o extremo de escolher quem vive e quem morre, porque não há recursos suficientes para todos, são aterradores. São cruéis. É isso o que se tenta evitar no Brasil, ao orientar a população a permanecer em casa.

    O coronavírus fez o mundo parar. Países que demoraram a tomar medidas de restrição, como o Reino Unido, enfim tiveram que se render à força devastadora da covid-19. Enquanto isso, o presidente do Brasil recomenda que as escolas voltem a funcionar. Que o comércio abra as portas. Diante de uma crise econômica que já assolava o país, e que será agravada, pensa ser conveniente descolar de si as responsabilidades e jogar sobre os governadores e a imprensa.

    Bolsonaro coloca a vida dos brasileiros na mesa de apostas, preocupado com o próprio futuro político. Enquanto o país demanda liderança e tranquilidade, o presidente cria uma nova crise institucional.

    Entre tantas falas surpreendentes, talvez a mais reveladora sobre o estilo de Bolsonaro, e a forma como ele enxerga seu papel, esteja na resposta que deu aos jornalistas quando questionado sobre o isolamento de idosos e população de risco.

    “O povo tem que deixar de deixar tudo nas costas do poder público. Aqui não é ditadura, é democracia”.

    Provou que não entende o que é ditadura, o que é democracia, e sequer compreende o papel do Estado, que foi eleito para chefiar. Não espere de Bolsonaro a atitude de um estadista.

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