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    Entrevista exclusiva

    Mandetta: "Cloroquina nunca teve viés de saúde"

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    Dagmara
    Por Dagmara Spautz
    23/07/2020 - 06h46 - Atualizada em: 23/07/2020 - 08h47
    Luiz Henrique Mandetta
    Luiz Henrique Mandetta (Foto: Wilson Dias, Agência Brasil)

    Pandemia, Santa Catarina e Bolsonaro estiveram na pauta da entrevista exclusiva que o ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, concedeu à coluna, em parceria com o repórter Guilherme Simon, do NSC Total. Na primeira publicação trouxemos os primeiros trechos, sobre a evolução do novo coronavírus no Estado. Agora, você acompanha a sequência. 

    Tem explicação sobre o equívoco na projeção do ex-ministro sobre a pandemia em SC, avaliação sobre o Ministério da Saúde, a posição do Mandetta médico sobre os protocolos com cloroquina e ivermectina e sobre o bolsonarismo, que ele compara a uma "seita". 

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    Luiz Henrique Mandetta
    Luiz Henrique Mandetta
    (Foto: )

     

    ENTREVISTA: Luiz Henrique Mandetta

    Dagmara - Tivemos em SC um isolamento social bastante antecipado, em março. Também fomos o primeiro estado a reabrir a economia. Estamos vivendo agora uma aceleração importante da pandemia. Na sua avaliação, a maneira como isso foi conduzido está correta? Era essa sua orientação enquanto ministro?

    Mandetta - Sim. Naquele momento, quando teve o primeiro chamamento para o isolamento, nós tínhamos praticamente um foco: organizar, expandir, fazer o plano para enfrentar o que vocês estão passando agora. Nós tínhamos a China fechada para importação de máscaras, para equipamentos de proteção individual, não tinha respiradores, ventiladores, não tinha como ampliar o sistema de saúde, e perigosamente, naquela época, os estoques de equipamentos de proteção individual no Brasil, até para as outras doenças, apendicites, partos prematuros que continuaram acontecendo, chegaram aos níveis mais baixos da história. Ameaçou faltar para a rotina. Então, aquele foi um momento de proteger o sistema de saúde para que ele pudesse expandir. Como Santa Catarina voltou às suas atividades, pressupõe-se que tenha feito um bom trabalho naquele momento para expandir o sistema, porque essa doença, quando acontece essa fase em que vocês estão, que é a fase de transmissão intensa, um número muito grande de pessoas se acorre do sistema de saúde e procura por suportes avançados e CTIs. Eu vi que algumas cidades aí tiveram ocupação de quase 100%, estão correndo atrás. Provavelmente, se tivessem feito o trabalho antes, entenderiam o porquê daquela preservação do sistema de saúde.

    Dagmara - Agora que estamos em plena aceleração, é momento de lockdown? Há muita pressão de todos os lados, qual a recomendação?

    Mandetta - Vocês têm duas informações que deverão ser tomadas todos os dias às 7h da manhã e às 11h da noite. Qual é a velocidade de transmissão, ou seja, o número de casos novos por dia, com que velocidade essa doença está acometendo as pessoas. Graças a Deus, quase 90% das pessoas evolui muito bem, seja com cloroquina, novalgina, fita do Senhor do Bonfim, benzedeira. 90% vai ficar muito bem. 10% vão precisar de hospitais para tomar oxigênio, seja por forma de máscara ou cateter, e um número vai precisar de leito de CTI. Viver, morrer, a doença, é parte dos desígnios de Deus. Agora, cabe às sociedades dar as chances para as pessoas lutarem pela vida. 

    Se vocês estiverem tendo casos numa velocidade tamanha, que não consigam garantir que as pessoas vão ter acesso a tratamento, e isso pode chegar a um ponto de não dar acesso para infarto, para acidentado, isso pode fazer um colapso total. Aí, não me parece que seria responsável falar em qualquer tipo de movimentação. Essas são as situações que te levam a propor redução. 

    E hoje em dia se tem as técnicas, vocês têm excelentes sanitaristas, epidemiologistas, SC tem universidades que podem auxiliar para fazer a recomendação. Dizer que as pessoas vão aceitar, e que as pessoas gostam, ninguém gosta e ninguém vai aceitar. Todo mundo acha que seu trabalho é individual, que é necessário, que é essencial. Mas, se não tiver uma noção de coletividade, se não preservar o sistema de saúde, vocês podem ter muitos problemas no dia a dia de todas as classes sociais, não só as menos favorecidas.

    Guilherme - Santa Catarina teve nos últimos sete dias a maior alta na média de mortes em todo o país, de 125%. Nosso sistema de saúde começa a chegar nos limites em muitos lugares, a gente vem numa crescente de casos e de óbitos, depois de um período de certa estabilidade. O senhor avalia que é possível dizer que estamos vivendo o pico da pandemia neste momento?

    Mandetta - A epidemia vai escrever a sua história depois que ela passar. Falar qual é o pico da epidemia brasileira é muito difícil. Assim como é difícil falar qual é o pico da epidemia de SC. Joinville está num momento que de repente outra cidade, Chapecó, não sei (porque) não estou acompanhando o dia a dia, pode estar em outro. É o somatório dos momentos das cidades que vai permitir que a gente fale do pico de SC. Já era esperado que vocês, nos meses de julho, junto com Rio Grande do Sul e Paraná, fosse o período que vocês iam começar a escalada de casos. Isso era dito, orientado, explicado para todos há um bom tempo. Teve uma certa feita que causou uma certa confusão, eu tinha saído do Ministério há uns 15, 20 dias, quando SC mudou uma metodologia e durante uma semana triplicou o número de casos. O que deu a falsa sensação para quem estava olhando os números de longe, inclusive eu, de que SC estaria entrando naquele momento de uma espiral de casos. Mas agora parece que não é mais uma questão de interpretação, vocês devem estar presenciando, as pessoas começam a conhecer pessoas que estão doentes, a ter casos na família, amigos que perderam pais ou mães ou avós ou tios, ou ainda pessoas jovens que evoluíram mal. Então, quando entra nessa fase de transmissão intensa, há que se tomar muito cuidado para proteger os profissionais de saúde, porque os médicos adoecem, os enfermeiros adoecem, os fisioterapeutas adoecem. 

    O Ministério da Saúde se confundiu, não conseguiu acompanhar, não garantiu sequer o medicamento para as pessoas que estão intubadas. 

    Isso está sendo um problema Brasil afora, é um elemento de muito estresse hoje para o pessoal que está cuidando das pessoas, e o dia a dia é uma loteria. Cada pessoa que sai sem máscara, que não obedece, que aglomera, ela contamina seis pessoas, oito pessoas. Aqueles que fazem as coisas direito, que ficam (doentes), contaminam um. 

    A discussão é qual a velocidade que vocês estão dispostos, enquanto sociedade, a deixar que o vírus leve as pessoas para o sistema de saúde, e estão dispostos a correr o risco de fazê-lo entrar em colapso. 

    É isso que baliza qual será a reação e qual será o momento em que vocês terão que tomar as decisões mais duras.

    Guilherme - São comuns os flagrantes de desrespeito às regras. Por que as pessoas têm essa dificuldade de entender e respeitar as regras de isolamento?

    Mandetta - Eu acho que elas se inspiram no presidente da República. Ele sai, vai para a aglomeração, abraça pessoas, não usa máscara, diz que é uma gripezinha, que as pessoas não devem parar, e isso serve de desculpa, ou de álibi para as pessoas. E dizem – isso não é nada, o presidente já falou, é só tomar um remédio, a cloroquina, que vai ficar tudo bem. E isso fez ele não só diminuir o empoderamento técnico dos governadores, dos prefeitos, dos secretários, como os afrontou. 

    Hoje nós somos rebocados pelo vírus. 

    Uma sociedade que tem dificuldade de entender o tempo da ciência, que tem dificuldade de compreender a consequência dos seus atos, e parte para a impessoalidade. A coisa só não está numa situação mais grave graças às mulheres, às mães, ao matriarcado brasileiro, que se apropriou dessa informações. São elas que estão organizando, dentro dos núcleos familiares. Estão segurando filho, segurando marido, segurando o ímpeto da juventude e a inconsequência de alguns. A preservação do status de família, a preservação da vida, a gente deve muito às mulheres. Tanto que, se você pegar a mortalidade, os homens falecem muito mais do que as mulheres. Principalmente os da periferia, os que não podem ficar em casa, que se submetem mais, são os mais acometidos e os que mais, infelizmente, têm sido vítimas do coronavírus.

    Guilherme Simon e Dagmara Spautz entrevistam Luiz Henrique Mandetta
    Guilherme Simon e Dagmara Spautz entrevistam Luiz Henrique Mandetta
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    Dagmara - O senhor falou em estarmos sendo rebocados pelo vírus. Que consequências isso vai trazer ao Brasil no cenário internacional?

    Mandetta - A imagem do Brasil na comunidade internacional é muito ruim, não sei se é pior na saúde ou no meio ambiente. É visto como um país cujo presidente fala em sair da Organização Mundial da Saúde, ofende todas as pessoas que trabalham com ciência, e coloca o Brasil cada vez mais longe das grandes mesas de decisões. O mundo está falando em vacina, estamos participando dos testes, mas a gente tinha que estar discutindo qual vai ser a capacidade de produzir essas vacinas. Será que o Brasil vai ter insumos certos, as máquinas corretas, o complexo industrial brasileiro dá conta? Será que a gente vai estar num esforço mundial, a gente não tinha que estar sentando para saber sobre a questão de patente? 

    O Brasil hoje é visto internacionalmente como um país de terceira linha no quesito cuidado à saúde. 

    A gente se aproximou muito da maneira como o presidente dos Estados Unidos administrou a doença. Como lá o resultado é muito ruim, e aqui o resultado é muito ruim, fomos colocados na mesma vala. Se bem que aqui temos inúmeras situações de cuidado, estamos lutando para não termos mortes por desassistência, a morte que a pessoa quer ir para o hospital, tem o cartãozinho do plano de saúde, tem ordem judicial, ou tem o direito mesmo, constitucional, e não consegue entrar. A gente vem lutando para que não ocorra no Brasil como ocorreu nos Estados Unidos, mas o Brasil está muito aquém do que já foi, do que poderia estar fazendo, de liderar a América do Sul, de liderar os países de língua portuguesa, de ter protagonismo e garantir o que a ciência tem na bancada.

    Dagmara - O senhor citou a cloroquina. Na sua opinião o presidente Jair Bolsonaro estimula o uso porque ele acredita na cloroquina, ou é para justificar o gasto público?

    Acho que nunca teve nenhum viés de saúde. O viés é muito mais para as pessoas acreditarem no remédio, para ver se elas voltam a trabalhar, acreditando que o remédio possa operar um milagre. Como a doença evolui bem em 90% dos casos, vai ser comum isso. A gente já esperava. Uma hora é a cloroquina, no último mês agora foi a ivermectina, tem os que falam do corticoide, do Anita, da Eparina. 

    Quanto mais as pessoas discutirem esse assunto cloroquina, menos a sociedade vai discutir a condução equivocada que o Brasil está fazendo disso, o número de mortos que se acumula. 

    Tem mais de 60 dias que mais de mil pessoas morrem todos os dias, na média, no Brasil, por essa doença. Como se estivessem caindo quatro ou cinco Boeings todos os dias, nas nossas cabeças, e a gente tivesse achando normal. E estivéssemos querendo discutir se deveria servir água mineral dentro do avião ou não. O fato é que existe algo muito equivocado nessa posição do presidente, passa uma desinformação para a população, causa realmente um desequilíbrio, porque esse medicamento é usado para malária, para formas reumáticas, e essas pessoas perderam acesso a esses medicamentos por conta da procura. O Ministério da Saúde foi tão inconsequente que liberou para uso em grávidas. A última vez que o Brasil fez liberação de drogas para gestantes sem testes foi quando nós usamos a Talidomida, nos anos 60, e geramos uma geração de pessoas com malformação. Não existe ordenamento dentro do país. Pega-se uma caixa, vários médicos falam – na minha experiência é bom. Não se baseiam em nada técnico, científico, e vai causando esse caldo de discussão sobre um assunto, um tema menor, quando o vírus é um fato. Ele não negociou com ninguém, com presidentes da República, com chefes de Estado, ele atacou todas as classes sociais, mas pegou principalmente os menos favorecidos, a classe média, os lares menores, que têm que acomodar avós, avôs dentro do lar. Espero que em SC vocês reúnam tudo o que vocês têm de informação, e tomem (decisões) junto com os governantes locais. Porque os prefeitos estão espremidos por uma eleição que se avizinha. Então, sofrem pressões de toda ordem, de comércio, de igrejas, ambulantes, de vereadores, e estão com uma agenda política muito difícil. E os governadores, a uma meia distância, não querendo se envolver muito diretamente. Precisa a sociedade civil organizada se aproximar, ajudar, dialogar, e o grande papel da imprensa que é divulgar os números. Num tempo atrás o Ministério da Saúde chegou a quase querer escondê-los da sociedade brasileira, mas foi resgatado por ordem do Supremo. Estamos todos no mesmo barco, ninguém gosta disso. Isso causa uma crise na saúde, da educação, na cultura, no esporte, nas empresas, todos os setores são de alguma maneira afetados. A humanidade, o planeta Terra está passando por isso. Está todo mundo procurando um remédio, uma solução, na Itália, nos EUA, na Austrália, na Rússia, na China. Está difícil para todo mundo.

    Guilherme – Desde o início da pandemia, durante a sua passagem pelo Ministério da Saúde, a relação do senhor e do presidente Bolsonaro foi marcada por diversos atritos. Além disso, mesmo após a sua saída, a condução da crise pelo presidente seguiu sendo marcada por embates, com outros poderes, com opositores. O senhor esperava uma atitude diferente do presidente Bolsonaro diante de um momento como esse, com uma crise de saúde tão intensa?

    Mandetta – A gente sempre espera, mesmo porque eu mostrei para ele todas as consequências. 

    Nada do que está acontecendo ele (Bolsonaro) pode alegar que não sabia que seria assim. 

    É uma doença que já tinha mostrado a sua face no mundo ocidental, e que o Brasil tinha que de preparar muito, porque o maior patrimônio de uma nação deveria ser, e em tese é, a vida dos seus habitantes. Não tem nenhuma vida que seja desnecessária dentro do Brasil ou que a gente pode simplesmente falar ‘deixa isso aí pra lá e vamos tocar outros assuntos’. É um falso dilema você colocar, ‘será que vai a saúde ou a economia?’. Nenhuma sociedade consegue superar os seus problemas econômicos de epidemia se ela não se junta, se ela não se protege. 

    O Brasil pode ter tomado um caminho que vai atrasar ainda mais a retomada da economia. 

    Então, tudo estava sobre a mesa, tudo estava às claras. Tudo o que eu coloquei para a população é o que eu acreditava, os valores em que eu fui criado, os valores de Ciência que eu aprendi com os meus mestres, com as sociedades brasileiras de todas as especialidades, as latino americanas, a europeia, norte-americana. O Brasil estava ligado na tomada de decisão com a Inglaterra, com os maiores sistemas de saúde do mundo. Nós falávamos, trocávamos informação sobre a gravidade da doença. Então, ele (Bolsonaro) teve todas as chances de tomar a decisões. Ele optou por esse caminho, que precipitou essa dinâmica social. Nessa doença está provado que tempo é mercadoria. Você (precisa) ganhar tempo. A pessoa mais esperta, a pessoa que melhor vai sair dessa, é quem conseguir se prevenir, não pegar essa doença, e pegar o tempo da Ciência, tomar vacina e ficar livre dela, e poder viver bem, com a sua família, com seus netos, bisnetos. Esse tempo das coisas é que ficou muito confuso, e realmente a minha presença ali no ministério não poderia mais ser possível, porque eu falava ‘vamos por esse caminho’, ele falava ‘vamos por outro’. 

    É impossível um ministro permanecer ali dentro. 

    O presidente não teve outra alternativa. Eu não iria mudar a orientação que eu tinha da Ciência, que era aquela. Ele decidiu desde o começo ficar com a negação dessa doença, de que era uma gripe menor, um resfriado, e de que as pessoas deveriam sair (de casa). Na época havia uma discussão sobre quarentena vertical, ‘vamos soltar todos os jovens, todo mundo abaixo de 55 anos, vai trabalhar, todo mundo se contamina, que vai proteger’. Teria sido uma tragédia de altas proporções. Então, eu fiz que eu achei que era o bom senso, que era o correto. Espero que ele tenha condições de fazer a sua releitura. O Brasil é maior, a gente vai sair dessa crise. Poderíamos sair com menos perdas. Mas vamos sair com as perdas que é o que a sociedade brasileira, num regime democrático, escolheu. E vamos ver se a gente consegue ganhar aprendizado desse momento, para melhorar o sistema de saúde, entender que saúde não se faz da noite para o dia, que você não cria especialistas de uma hora para outra, que precisa ser sério, que precisa planejar, que precisa ter compromisso com metas, que a radicalização, a polarização, querer fazer com que o vírus torne-se uma coisa política, o remédio torne-se uma coisa política, que a vida das pessoas (tem que ser) o nosso primeiro compromisso. Que isso sirva de aprendizado para a sociedade brasileira como um todo.

    Guilherme –O presidente fez várias críticas públicas ao senhor naquelas semanas que antecederam a sua saída do cargo. O senhor supõe o que pode ter levado a passar a atacá-lo publicamente? Acredita que isso tinha relação apenas com o fato de o senhor defender medidas com as quais ele não concordava ou também com a sua popularidade naquele momento?

    Mandetta – Isso é uma pergunta que você deveria fazer diretamente a ele. Eu acho que deve ter sido um ‘mix’, uma somatória de fatores. Ele entendeu que deveria agir daquela maneira, tomou a decisão dele, colocou no meu lugar o Nelson Teich, que é médico, durou 26 dias. Eu já tinha dito muito claro, ‘eu não peço para sair’. Quando eu tenho um compromisso médico, um compromisso profissional, eu não saio de perto do meu doente, eu fico até a hora que alguém me pedir para deixar o caso. Ele é que fala pela família brasileira, ele é que fala pelo conjunto da sociedade. Ele entendeu que tinha que trocar de médico naquele momento, trocou. O médico não permaneceu, ele colocou um general. Infelizmente o pessoal que trabalha no Ministério da Saúde, o pessoal do segundo escalão, do terceiro escalão, o pessoal que realmente vive saúde pública, gente maravilhosa, técnicos maravilhosos como o Wando [Wanderson Oliveira, ex-secretário de Vigilância em Saúde] como o Gabardo [João Gabbardo dos Reis, ex-secretário-executivo do Ministério da Saúde] também foram substituídos. Quer dizer, trocou a equipe inteira. As pessoas que entraram não têm conhecimento do histórico. 

    No meio de uma pandemia você trocar todo mundo (no Ministério da Saúde), uma equipe inteira, é no mínimo irresponsável e inconsequente. 

    Nessa somatória de decisões equivocadas, a gente está colhendo o que estamos presenciando aí. É um Ministério da Saúde ausente. Esta semana me colocaram que os medicamentos que se usa para manter o paciente intubado deixaram faltar, acabou no Brasil. Quer dizer, se fosse pra cuidar de logística (a nomeação do general), você perder o medicamento que você mais usa para o combate a uma doença é a falência da logística, é a falta de gestão, é a falta de gente técnica embaixo alertando o próprio ministro, que é ele quem fica nessa posição desconfortável de olhar para a sociedade e não ter nada a dizer. Eu espero que a gente saia melhor disso daí, que volte ter gente técnica em saúde. O SUS é muito importante, se não fosse o SUS nós teríamos tido um problema de proporções inimagináveis o Brasil. Tem que reforçar esse sistema, tem que reforçar o pessoal que o busca o conhecimento, não aqueles que falam o que a pessoa quer ouvir, não aqueles que fazem coro com a ignorância para ver se colhem algum tipo de facilidade. O que eu acho mais grave nessa história foi a banalização, a falta de cuidado com o perfil de orientação que você dá para a população.

    Mandetta no Ministério da Saúde
    Mandetta no Ministério da Saúde
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    Dagmara –Quando o senhor era ministro, a orientação do Ministério da Saúde era para que as pessoas evitassem buscar os postos de saúde. E a gente teve agora no mês de julho essa mudança de orientação, estimulando as pessoas a procurar os postos de saúde, os hospitais, nos primeiros sintomas de Covid-19. Que avaliação o senhor faz dessa mudança de orientação?

    Mandetta –Naquele momento a gente tinha pouquíssimos casos, as pessoas procuravam (o posto de saúde) exatamente para tirar a dúvida, se elas tinham ou não tinham (covid-19). Nós tínhamos a ideia de que a porta de entrada no sistema fosse pela atenção primária, pela unidade básica de saúde, para que eles procurassem os sistemas de saúde da família, para que dali a gente fosse fazendo a coleta e a triagem. Lembrando que essa é uma doença em que 90% evolui muito bom, só com os cuidados paliativos de sintoma. Agora, eu vejo o Ministério da Saúde tentando fazer uma justificativa para uma coisa muito complicada, que é a sua ausência. A responsabilidade deles é dar conta do que está acontecendo hoje aí em Santa Catarina. Por que está faltando medicamento hoje em Santa Catarina? Por que os leitos de Joinville ficaram tão acanhados? Cadê a assessoria técnica do Ministério da Saúde? Onde estão os equipamentos para que se possa chegar a tempo? É isso que a gente sente falta, das pessoas virem a público, assumirem a responsabilidade, falar ‘existe ministro da Saúde, eu estou aqui, estou do lado de vocês’. Eu não vi nenhum lamento para os milhares de médicos que morreram com essa doença, enfermeiros que morreram, fisioterapeutas que morreram atendendo, e aqui vai os meus cumprimentos a toda a equipe da Saúde. Hoje o que eu vejo é um governo jogando um contra o outro, politizando, desqualificando o conhecimento. A História é sempre muito boa, porque vai distanciando, e as pessoas vão podendo ler com distância, vão podendo ver os números e fazer as perguntas. 

    O que eu vejo é muito descaso com essa doença.

    Guilherme –É possível ter uma avaliação sobre em que ponto estamos em termos de país nesse momento? É possível esperar que as coisas comecem a melhorar?

    Mandetta –Alguns mitos caíram. Eu lembro que na época em que a gente estava começando, muitos estados do Norte do Brasil falavam ‘aqui é tão calor, aqui não vai ter vírus’. Manaus foi a primeira cidade nossa que teve um colapso monumental do sistema de saúde. Teve um número enorme de casos, um platô, e já tem queda sustentada. Isso tem acontecido no Nordeste também. A gente percebe que sociedades, quando chegam em torno de 20%, algumas 18%, 17%, 22%, 25%, que há um efeito de diminuição da capacidade do vírus de passar de um para o outro, e aí os números de casos caem de uma maneira mais sustentada. Esse momento acontece na região Norte, Nordeste. No Sudeste, São Paulo está praticamente mostrando a sua queda na capital, mas no interior ainda está na fase de muita atividade, e a região Sul subindo o número de casos. O Sul e o Centro-Oeste subindo. Lá em março, quando eu disse ‘serão 20 semanas muito duras’, a gente já tinha sinalizado que em torno de cinco meses seria o tempo do Brasil, e suas diferentes regiões, entrar em contato, achar um ponto de equilíbrio e poder passar esse primeiro ciclo da doença. Então eu acho que aí na região Sul a gente atravessa julho, entra em agosto. Centro-Oeste deve ser a última das regiões a diminuir o seu número de casos. E depois disso a gente vai ficar presenciando pequenos surtos locais, até que tenha uma solução, como uma vacina ou um medicamento mais eficaz, para virar a página dessa doença. Eu acredito que vocês [em Santa Catarina] passam julho e passam um bom período de agosto até virem para uma situação de chegar próximo ao nível em que esse vírus consegue ter um pouco mais de equilíbrio com o sistema imunológico das pessoas. Quando terminarmos isso, lá por setembro, numa fase em que todos os nossos aglomerados urbanos passaram por uma epidemia, aí a gente vai poder olhar para trás e ver onde começou, onde foi o pico. Aí a gente vai ter a imagem da epidemia brasileira. Mas nada muito longe daquilo que a gente previa.

    Dagmara –Como ex-ministro e como médico, qual sua avaliação sobre os grupos de médicos que têm defendido o tratamento precoce para a Covid-19?

    Mandetta –O grande ausente é exatamente as autarquias federais, o Conselho Federal de Medicina, que deveriam estar orientando os médicos sobre como agir eticamente. Eu aprendi Medicina de uma maneira muito clássica, com os princípios hipocráticos. Você tem que demonstrar qualquer coisa que você vai dar para uma pessoa, não pode ser mais agressivo que a condição que trouxe a pessoa até você, sem diagnóstico não há tratamento. Enfim, são princípios. E a gente procura seguir uma máxima, que é (a que) por mais bem-intencionado que eu esteja, como médico, se eu tiver uma teoria, se eu tiver que um medicamento qualquer funciona para um determinada solução, eu tenho por obrigação registrar no Conselho de Ética que vou fazer uma pesquisa sobre um determinado medicamento, e eu tenho que submeter a minha pesquisa à discussão, à fiscalização dos pares. É assim que a gente constrói saber. Agora, eu tenho visto médicos irem para internet, falando ‘o meu protocolo’, o ‘protocolo de fulano’, ‘eu faço assim’, ‘eu dou dois comprimidos’. Não tem ninguém que consiga me dar (afirmar), ‘olha, isso daqui é um caminho, e é um caminho seguro, baseado nessa posição literária aqui’. E, depois, quando eu olho os outros países do mundo, eu fico vendo que esse debate não existe. 

    Se um medicamento desse fosse eficaz, a pessoa que estivesse por trás disso deveria ganhar o prêmio Nobel de Medicina e o de Economia, no mesmo dia. 

    O planeta Terra está todinho procurando (medicação), o mundo está gastando trilhões e trilhões de dólares, está perdendo, a economia, bolsa de valores caindo. Todo mundo no mundo está procurando uma solução. 

    Eu olho com muita reticência o médico que faz esse tipo de orientação sem nenhum tipo de embasamento, porque eu fico imaginando que ele é capaz de fazer isso em outras situações, com outras doenças. 

    Ele é capaz até de fazer experimentos nas pessoas porque ele acredita, ou porque um grupo de internet acredita. Tenho muita preocupação, muita preocupação mesmo. Lamento muito que as coisas tenham sido dessa maneira, acho que esse assunto foi politizado de uma maneira que, se surgir um artigo mostrando (que cloroquina é eficaz), que bom, eu não tenho nenhum problema com remédio nenhum. A Medicina manipula drogas dificílimas. Morfina, fetanil, a gente tem drogas que têm efeitos colaterais enormes, mas calcula o risco e o benefício, e as usa. E ainda assim comete, às vezes, erros de interpretação. Cada organismo é um. Não existe uma receita de bolo. A dose para mim, que tenho 95 quilos, é uma. A dose para um filho meu, que tem 70 quilos, em tese deveria ser outra. E eles fazem tudo igual. Como se fosse gado. Tome dois disso, dois daquilo. Existe gente indo para o hospital com excesso de medicação, com overdose. Isso também aumenta a automedicação, aumenta a banalização do uso do medicamento. Eu vejo (esses médicos) como pessoas que têm que refletir, reler os princípios éticos que regem a profissão para poderem tomar as suas decisões. E, quando as tomarem, tomarem embasados. Outro dia vi lá o presidente, ele faz, (ou) fazia, eletrocardiograma três vezes por dia, tinha uma ambulância na porta, tinha leito de CTI reservado para ele porque estava tomando remédio. Não é a realidade das pessoas, as pessoas têm muita dificuldade, principalmente aqueles que têm uma comorbidade. Então, devem todos ter muita atenção, muito cuidado, porque a vida é um bem muito precioso. E Medicina não é feita por atacado. Tem que sentar, tem que examinar o doente, tem que ver qual é o perfil daquela pessoa. Só que tratar, dar um remédio para uma situação em que 90% das pessoas fica bem, mesmo sem remédio nenhum, é muito tentador. Então eles ficam buscando pacientes, buscando protagonismo, explorando a boa-fé das pessoas. Os médicos gozam de uma credibilidade como profissionais muito alta. Então quando ele, com o título de médico, vai a público e fala ‘meu remédio é esse’, ‘eu vou liberar isso’, ‘vem aqui que aqui tem’, tem que ter muito cuidado com a parte ética da profissão.

    Dagmara – E a ivermectina? Com essa distribuição pelas prefeituras, o que o senhor acha disso?

    Mandetta – A mesma coisa da outra. É mais uma que criaram, elas vão surgindo... Porque há uma diferença entre medicamentos que funcionam na bancada de laboratório. Você pega um tubo de ensaio, bota o vírus dentro. Joga um remédio ali dentro, para ver se o vírus morre ou se o vírus fica vivo. Em alguns casos ele fica vivo, e em outros, morre. Se você jogar lá uma pastilha de hipoclorito, jogar água sanitária dentro de um frasco com vírus, provavelmente ele vai morrer. Não é por isso que você vai tomar água sanitária. Então, algumas drogas mostraram eficácia in vitro, quer dizer, ali na bancada do laboratório. Depois disso você deveria passar por estudo em animais, depois disso você deveria fazer um grupo pequeno de pacientes, depois um grupo médio de pacientes, depois um grupo maior de pacientes. Eles pegaram algumas drogas que no laboratório mostram eficácia e pensaram, ‘bom, se ela mostrou eficácia aqui eu estou autorizado a fazer para qualquer um’. Infelizmente, as coisas não são assim. As coisas não são matemáticas assim. E, com base nisso, a gente viu surgir aqueles que são os protagonistas desse tipo de medicação, ganham todos eles muita fama instantânea, a internet curte, as pessoas compartilham, as pessoas que torcem pelo político A versus o político B. A população que está na sua casa, quando se depara com um doente, fica numa situação de muita insegurança. Ela fala ‘bom, se eu não der esse remédio, e o meu paciente complicar, será que eu não vou ficar tachado como quem não cuidou do meu pai ou da minha mãe?’. Aí procura um médico desse, ou um outro médico qualquer. Tem muito médico que não faz nem ele a apologia, mas ele chega para o doente e fala assim ‘olha, eu tenho esse remédio aqui, se você quiser, eu te prescrevo. E joga a responsabilidade para o paciente. ‘Olha, não tem muita eficiência, mas se você quiser experimentar, eu te dou a receita’. Aí o paciente fala ‘eu quero’. E aí assina um termo de responsabilidade. E tem aqueles que chegam e falam assim ‘olha, eu não acredito porque não tem nada formado’. Muitas vezes a pessoa quer acreditar em alguma coisa, quer tomar alguma coisa. Esse vermífugo, ele é uma droga, a ivermectina, muito laureada. Ela surgiu para uso veterinário, uso no gado, deixa o pelo do gado liso, mata carrapato, sarna, piolho. É um medicamento que foi colocado para o ser humano, e vai matar parasita, verme, a pessoa vai se sentir melhor porque está tomando um vermífugo. Parece que, na dose para a qual ela é pensada, praticamente não tem efeitos colaterais. O que me preocupa quando eu vejo ivermectina é gente que fala assim: ‘tome um comprimido por dia durante 20 dias’. É uma dosagem absurdamente elevada, que ninguém sabe o por quê. Ou ‘tome dois comprimidos num dia, no terceiro dia mais dois, no décimo...’ 

    (Ivermectina) É aquela coisa assim: ‘meia-noite você vira, vai atrás do cemitério e toma esse comprimido, dá três pulinhos e volte para casa’. 

    Porque não tem nada, infelizmente, não tem nada que dê sustentação técnica para isso. Os prefeitos, eles estão todos com uma eleição pela frente. Eles têm eleições nos próximos 90 dias, e eles estão olhando as pesquisas. Então se você falar, como prefeito, ‘olha, eu mandei comprar Ivomec, eu mandei comprar cloroquina, e vou distribuir dentro de um saquinho com o nome da prefeitura’, quando se faz a pesquisa política, a população gosta. Porque ela fala ‘bom, está cuidando de mim’. Infelizmente, a decisão política, ela atropela qualquer decisão técnica. Se você for numa universidade, vocês têm tantas universidades aí em SC, e elas servem para isso, são casas de Ciência, casas de pesquisa, casas de saber, e perguntar para as cátedras, acadêmicos, enfim, para as pessoas, ‘vem cá, qual é o melhor caminho?’, se tiver qualquer linha de pesquisa séria ali dentro sendo feita, eles vão dizer que isso não funciona. 

    Como é que os Tribunais de Conta vão interpretar isso lá na frente, se isso foi gasto de dinheiro público porque alguém mandou comprar? 

    Me parece que isso tem implicações também na hora de você ver a eficácia do gasto público. Então isso tudo a História e o tempo vão dizer, se esse gasto do dinheiro público se justifica de alguma maneira.

    Guilherme – O senhor usou a palavra ‘apologia’ ao falar sobre médicos que defendem determinados medicamentos... Impossível não lembrar novamente do presidente Jair Bolsonaro de uma cena recente em que ele ergue uma embalagem de um medicamento, que seria a cloroquina, em frente a apoiadores em Brasília. O que o senhor achou dessa cena?

    Mandetta – Eu acho que eles falam entre eles, aquilo ali virou quase uma seita, uma espécie de religião, e as pessoas têm que elogiar tudo, e criticar tudo que não venha dali. Eu sinto muita... uma sensação assim de que não é uma coisa série, sabe? A impressão que eu tenho é que estão levando isso assim mais num ‘ah, que legal, mito, vamos lá’, bate palma, é uma coisa que não tem muita substância. Eles me atacam muito, xingam na rede social, porque existe hoje uma polarização burra. ‘Olha, vote nele senão o PT volta’. Aí o PT fala ‘vote em mim senão ele fica’. E eles vivem dessa polarização. 

    Ficam criando uma animosidade um contra o outro, pra que a pessoa tenha que ter um lado, para ver se ela, tendo um lado, não desgarra, não pensa, não raciocina sobre os fatos.

     Eu olho a média distância, analiso, e espero que as pessoas façam o mesmo. Que com o tempo, de uma maneira calma, e uma maneira inteligente, civilizada, dando voz àqueles que têm mais, que estão do lado do iluminismo, que estão do lado da razão, que gradativamente as coisas possam ir entrando nos trilhos, e entrando nos eixos, e o Brasil siga o seu destino, que é o destino de ser um país sério no mundo.

    Acompanhe na edição impressa do Diário Catarinense, Jornal de Santa Catarina e A Notícia, neste sábado, trechos inéditos da entrevista sobre política e 2022.

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