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Médicos deixam comitê de enfrentamento à Covid após Balneário Camboriú adotar ivermectina

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Por Dagmara Spautz
05/07/2020 - 12h05 - Atualizada em: 08/07/2020 - 11h34
Balneário Camboriú (foto: Lucas Correia, Arquivo NSC)
Balneário Camboriú (foto: Lucas Correia, Arquivo NSC) (Foto: Lucas Correia, Arquivo NSC)

Uma mudança no protocolo de atendimento a pessoas contaminadas pelo novo coronavírus levou pelo menos três médicos a se retirarem do Comitê de Enfrentamento à Covid-19 em Balneário Camboriú. Os profissionais se recusaram a adotar a prescrição de medicamentos para tratar os sintomas iniciais da doença que ainda não têm eficácia comprovada.

> MP questiona “influência religiosa e política” no tratamento de Covid em Balneário Camboriú

Entre os médicos que deixaram o grupo está Rosalie Knoll, que presidiu o Comitê. Ela informou a saída nas redes sociais, sem detalhar publicamente a motivação. A médica participou da elaboração do primeiro protocolo de tratamento estabelecido, que foi implantado no dia 8 de junho – e cancelado pelas novas medidas.

O novo protocolo foi inserido na semana passada, e teria sido organizado sob orientação do médico infectologista Martoni Moura e Silva, que atuava no Acre e chegou a SC no ano passado, a convite do prefeito Fabrício Oliveira. Ele passou a presidir o comitê. 

> Nenhum estudo comprova ivermectina eficaz contra coronavírus, alerta infectologista

Entre as medidas adotadas em Balneário Camboriú está a prescrição da ivermectina, um antiparasitário que foi testado em laboratório na Austrália, mas ainda não tem eficácia comprovada para tratar o coronavírus.

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Nos últimos dias, duas entidades médicas se posicionaram contra o uso desse e outros medicamentos que não têm comprovação de eficácia. No dia 30 de julho, a Sociedade Brasileira de Infectologia publicou uma nota pública em que alerta sobre a prescrição de substâncias que ainda não foram suficientemente testadas. “Muitos dos medicamentos que demonstraram ação antiviral in vitro (laboratório) não tiveram o mesmo benefício in vivo (seres humanos). Só estudos clínicos permitirão definir seu benefício e segurança na covid-19".

Um dia antes, a Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia publicou que "não existem evidências científicas de que quaisquer das medicações disponíveis no Brasil, tais como ivermectina, cloroquina ou hidroxicloroquina, isoladas ou associadamente, colaborem para melhor evolução clínica dos casos”. Afirmou, ainda, que “redes sociais não são textos médicos e, com frequência, transmitem informações infundadas, impulsionadas por interesses obscuros”.

Prefeito curado

As mudanças de protocolo em Balneário Camboriú parecem estar embasadas na crença do prefeito de que um coquetel de medicamentos o tenha “curado” da Covid-19. Fabrício testou positivo para o novo coronavírus em maio, mas não teve sintomas graves da doença. Mesmo assim, sua foto aparecia como um dos “curados” pelo protocolo proposto por um site que tem, entre os mentores, a médica oncologista Nise Yamaguchi, que já foi cotada para assumir o Ministério da Saúde.

A assessoria de comunicação da prefeitura de Balneário Camboriú informou que o prefeito usou “ivermectina, azitromicina e paracetamol” quando testou positivo para coronavírus.

O site que prega a cura está fora do ar neste domingo (5). Uma mensagem afirma que está em “atualização de orientações médicas”.

No sábado, o prefeito chegou a fazer uma “live” nas redes sociais em que conversou com Nise Yamaguchi e o médico Paulo Olzon sobre Covid-19. 

Em Balneário Camboriú, um dos propagadores do tratamento proposto pelo site, que inclui o uso de ivermectina, azitromicina e cloroquina, é o pastor Michael Aboud, da igreja Embaixada do Reino de Deus, que é frequentada por Fabrício. O pastor publicou nas redes sociais que a Covid-19 “tem cura” e incentivou o compartilhamento do site de Nise Yamagushi dizendo que, desta maneira, as pessoas poderiam “salvar vidas”.

A ivermectina não tem protocolo estabelecido pelo Ministério da Saúde para uso em pacientes com Covid-19. A Gaúcha ZH publicou na última sexta-feira (3) uma reportagem em que explica que, para a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a ivermectina é indicada para tratamento de males causados por vermes ou parasitas, como sarna, lombriga e piolho.

Já o uso da cloroquina foi regulamentado pelo Ministério da Saúde, mas hospitais como o Albert Einstein, em São Paulo, recomendam que médicos não receitem a medicação. Segundo o jornal O Globo, a recomendação veio após a FDA, agência norte-americana que regula medicações, ter revogado o uso da cloroquina para tratamento de pacientes com o novo coronavírus.

A Secretaria de Estado da Saúde foi questionada pela coluna na sexta-feira sobre o protocolo recomendado pelo Governo de Santa Catarina, mas ainda não informou o que é estabelecido – apenas que segue orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS).

De acordo com um médico ouvido pela coluna, em condição de anonimato, o protocolo anteriormente usado pelo Hospital Ruth Cardoso, em Balneário Camboriú, para pacientes com Covid-19, era embasado em evidências cientificas disponíveis até agora. Para pacientes leves, recomendava-se repouso e hidratação. Em casos em que há doenças associadas, era indicado antibiótico e, em alguns casos, Tamiflu, que é a medicação padrão para a gripe A.

Em nota, a prefeitura de Balneário Camboriú informou que a mudança de protocolo servirá para evitar internações, que poderiam colapsar a rede de atendimento. Afirmou que o protocolo incluirá "invermectina, azitromicina, paracetamol e outros medicamentos", que serão usados conforme avaliação médica. Por fim, diz que "a politização de temas como esse, dando contornos religiosos neste momento do debate é uma afronta à inteligência e reforçam valores minúsculos, medíocres e que sequer merecem".

Veja a nota na íntegra:

"Com o aumento do número de casos em toda região e em Balneário Camboriú, estamos estudando o aperfeiçoamento do protocolo para enfrentamento da doença. Ampliando a testagem e acompanhamento médico e medicamentoso já nos primeiros sintomas da doença.

Isso será feito para evitar que o paciente chegue no sistema de saúde já com o quadro agravado e necessitando internação, o que, rapidamente, pode colapsar a rede de atendimento.

Dentre as mudanças é a coleta de exames de idosos em suas próprias residências mediante prévio contato sobre possíveis sintomas por telefone. Em regiões da cidade com maior número de contaminados, equipes da Saude e da Inclusão Social iniciam esta semana o trabalho de casa em casa, de verificação de sintomas e testagem com exame PCR (que é bem mais preciso no início da doença e dá o resultado mais rápido, graças ao nosso laboratório de testagem), trabalhadores estão sendo acompanhados pelo CoronaDados uma plataforma já adotada por várias empresas e que está sendo ampliada e que vai ajudar também na testagem mais precisa e no afastamento e tratamento do trabalhador logo aos primeiros sintomas.

O tratamento precoce utilizará medicamentos que já são administrados no Centro Municipal de enfrentamento do Coronavírus, como invermectina, azitromicina, paracetamol e outros medicamentos, que podem ser alterados segundo a avaliação médica , que é a maior autoridade na escolha do que o paciente pode ou não usar.

A administração municipal foi comunicada por ofício somente do desligamento da dr Rosalie Knoll. O doutor Martoni foi indicado para assumir a coordenação pela secretária de Saúde, Andressa Hadad, na última quinta-feira.

E por fim, a politização de temas como esse, dando contornos religiosos neste momento do debate é uma afronta à inteligência e reforçam valores minúsculos, medíocres e que sequer merecem".

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O que acontece de mais relevante em boa parte do litoral catarinense, especialmente Itajaí e Balneário Camboriú. Fontes exclusivas e informações de credibilidade nas áreas de política, economia, cotidiano e segurança.

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