No mesmo fim de semana em que a vereadora Maria Tereza Capra (PT) foi cassada por denunciar suposto gesto nazista em São Miguel do Oeste, a prefeitura escalou um degrau no absurdo e emitiu uma nota em que relativiza a gravidade dos fatos. No comunicado diz que “não somos e jamais seremos nazistas” e pede rigor da Justiça para “aqueles que insistem em uma mentira para ofender nossas famílias”.

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Não provocou repúdio da prefeitura o município ter sido um dos epicentros das manifestações golpistas de novembro, com bloqueios ilegais de rodovias e manifestantes pedindo intervenção militar – o que é crime segundo a legislação brasileira, que pune quem incita a animosidade das Forças Armadas contra as instituições. Nem o fato de que dois vereadores da cidade foram listados pela Polícia Civil entre os “cabeças” de atos extremistas e golpistas. Ou mesmo o absurdo de Maria Tereza Capra ter sido obrigada a se licenciar e se ausentar da cidade porque estava recebendo ameaças de morte.

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O que provocou a nota do Executivo foi o fato de uma vereadora ter cobrado investigação sobre um gesto que, registrado em fotos e vídeos, chamou atenção do Brasil e do mundo. O Museu do Holocausto repudiou a imagem dos manifestantes de São Miguel do Oeste com a mão direita estendida. A Confederação Israelita Brasileira fez o mesmo. O próprio Ministério Público de Santa Catarina iniciou a apuração considerando que se tratava de possível apologia ao nazismo – depois arquivou a investigação, avaliando que a semelhança com a saudação nazista não foi intencional.

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A prefeitura de São Miguel do Oeste poderia ter usado o episódio de forma pedagógica. Poderia, por exemplo, ter reforçado nas escolas municipais lições sobre o que foi o nazismo e por que certos símbolos e gestos não devem ser repetidos, independentemente do contexto. Especialmente porque, em outubro, um jovem foi preso na cidade sob a acusação de participar de uma célula neonazista. Em vez disso, emitiu uma nota recheada de demagogia barata.

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O fato ganha ainda mais gravidade diante das ameaças sofridas, por e-mail, pelas vereadoras Ana Lúcia Martins (PT), de Joinville, Giovana Mondardo (PCdoB), de Criciúma, e a própria Maria Tereza Capra ao longo do fim de semana. São ameaças de violência e de morte. No caso de Ana Lúcia, primeira vereadora negra na maior cidade de Santa Catarina, também são frases racistas.

É urgente que o Estado preste atenção na onda crescente de violência política, sob o risco de que ela atinja a própria democracia. Referência ao nazismo, ainda que não seja intencional, se repudia, jamais se minimiza.

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