As habilidades humanas, incluindo colaboração, trabalho em equipe e comunicação, serão cada vez mais importantes para os profissionais em função do avanço da inteligência artificial. Essa foi a mensagem principal do especialista espanhol Borja Castelar, palestrante internacional e autor do best seller Human Skills, que falou sobre o tema no 36º Congresso Catarinense sobre Gestão de Pessoas (Concarh), realizado quinta e sexta-feira (09 e 10), no Centrosul, em Florianópolis.
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Em entrevista exclusiva para o NSC Total, ele afirmou que a inteligência artificial vai assumir grande parte das atividades técnicas, enquanto a dimensão humana será cada vez mais importante. Sobre como os profissionais devem se preparar para essa fase de avanço acelerado da inteligência artificial, ele sugere justamente seguir a onda.
-Me perguntaram: ‘Como posso aprender inteligência artificial?’ Minha resposta foi simples: pergunte à própria inteligência artificial- afirmou o especialista.
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Nascido na Espanha, Borja Castelar é graduado em administração de empresas em Madri. Iniciou a carreira como consultor em recursos humanos e talentos. Depois, atuou no Linkedin por 10 anos, sendo diretor na Irlanda e para a América Latina. Atualmente, é palestrante internacional e reside no Brasil, em São Paulo. Se destaca, por não ver um cenário ruim no mercado de trabalho frente a inteligência artificial. Veja na entrevista a seguir:
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A sua palestra no Concarh foi sobre o futuro do trabalho e inteligência artificial. Qual foi a sua mensagem principal?
– Falei um pouco sobre o futuro das habilidades e o futuro do talento. Expliquei como precisamos focar, mais do que nunca, nas habilidades humanas, as chamadas Human Skills. Inclusive, meu último livro se chama Human Skills e trata justamente de inteligência artificial e de como ela está reduzindo a importância da parte técnica dos trabalhos.
A inteligência artificial vai assumir grande parte das atividades técnicas, enquanto a dimensão humana será cada vez mais importante. O futuro está centrado em habilidades como comunicação, pensamento crítico, inteligência emocional, adaptabilidade e criatividade.
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O problema é que nunca aprendemos essas habilidades humanas. Sempre estudamos competências técnicas: matemática, geografia, fazemos uma prova e pronto. Mas ninguém nos ensina a nos comunicar ou a desenvolver habilidades humanas. Esse é o grande problema.
Nessa nova realidade, nessa nova economia impulsionada pela inteligência artificial, o futuro está no aprendizado contínuo, em sermos eternos aprendizes e desenvolvermos habilidades humanas. Essa é a essência da palestra.
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– Quer dizer que comunicar será cada vez mais importante?
– Mostrei na palestra uma pesquisa da Universidade de Stanford, considerada uma das mais completas já feitas sobre habilidades profissionais. O resumo da pesquisa é muito claro: 85% do sucesso profissional depende das habilidades humanas, e não das habilidades técnicas. Comunicação é tudo. Quem tem sucesso não é quem sabe mais, mas quem comunica melhor. Isso precisa ficar muito claro.
– Muitos profissionais são excelentes na área técnica, mas têm dificuldades para trabalhar em equipe. Qual é o desafio que você vê nisso?
– Essas pessoas acabam não crescendo muito na carreira. Conheci profissionais brilhantes, tecnicamente incríveis, engenheiros espetaculares, mas que não evoluíam porque você é tão bom quanto consegue comunicar o seu valor. Você pode ser nota 9 tecnicamente, mas, se for nota 3 em comunicação, será percebido como um profissional nota 3. Seus relacionamentos serão de nível 3.
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Se você não consegue comunicar sua proposta de valor pessoal, terá empregos de nível 3 ou 4 e acabará levando uma vida profissional nesse mesmo nível. Trata-se de ser e de parecer. Por isso, habilidades humanas e comunicação são tão importantes.
-Muitas pessoas dizem: “Meu trabalho vai falar por mim”. Não vai. É preciso comunicar, estar presente e conectar-se com as pessoas. As habilidades humanas são mais importantes do que nunca, principalmente com a chegada da inteligência artificial. Ela está fazendo com que tudo o que é técnico se transforme em commodity.
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O que você quer dizer quando afirma que o conhecimento técnico está virando commodity?
– Sempre valorizamos muito o conhecimento técnico. É uma afirmação provocativa, mas praticamente todo conhecimento técnico ficará disponível. Você fará uma pergunta e receberá uma resposta. Então, para que depender exclusivamente do conhecimento técnico de uma pessoa? Tudo isso tende a se tornar commodity.
A parte técnica continuará sendo importante, mas terá menos peso. Se a pesquisa de Stanford já mostra que 85% do sucesso profissional depende das habilidades humanas, em um futuro dominado pela inteligência artificial esse percentual pode chegar a 99%, porque a importância da parte técnica diminuirá ainda mais. E aí está o nosso foco: desenvolver habilidades humanas. O problema é que nunca aprendemos isso; aprendemos apenas competências técnicas.
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O que precisamos ensinar em termos de habilidades humanas?
– Precisamos começar pelo sistema educacional. O sistema de ensino ainda é industrial e obsoleto. Continua ensinando praticamente as mesmas coisas há 50 anos. Foi criado para preparar pessoas para trabalhar em fábricas: obedientes e cumprindo horários. Estamos formando pessoas para um mundo que já não existe.
Saímos da era industrial e entramos na era pós-industrial, mas a educação continua presa ao modelo anterior. Aprendemos geografia, matemática, fazemos provas. Aprendemos como funciona a mitocôndria ou, no caso da Espanha, estudamos que em 1492 descobrimos um continente.
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Sabemos tudo isso, mas ninguém nos ensina a gerenciar emoções, desenvolver inteligência emocional ou aprender a nos comunicar. Também não aprendemos a ser criativos. Para mim, precisamos resgatar as artes e as humanidades: aulas de teatro para desenvolver comunicação, pintura e música para estimular a criatividade, além de incentivar muito mais a colaboração.
Precisamos olhar para o ser humano mais do que nunca. E há uma grande ironia nisso tudo. A inteligência artificial chegou justamente para nos lembrar de que o mais importante é o ser humano. Viemos com a mentalidade da Revolução Industrial, de sermos máquinas, cada vez mais produtivos e eficientes.
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Então surgiu uma máquina dizendo: “Eu faço isso melhor do que você”. Isso gera uma crise existencial. Precisamos voltar ao humano, voltar ao que éramos antes da Revolução Industrial.
Antes, não éramos máquinas executando tarefas. Éramos artesãos, conhecíamos nossos clientes, criávamos conexões. Acredito que viveremos uma verdadeira revolução humanística.
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Santa Catarina é um estado com indústria forte. A tecnologia é importante na maioria dos processos. Então, os profissionais precisam tanto de formação técnica quanto humana?
– Exatamente. Precisamos de um perfil híbrido. É necessário aprender a parte técnica, mas também focar muito nas habilidades humanas. O que realmente importa são os clientes, a estratégia, os relacionamentos e a dimensão social do trabalho. A inteligência artificial não veio para nos substituir. Ela veio para nos apoiar, potencializar nossas capacidades e retirar a parte mais repetitiva e menos interessante do trabalho.
As atividades repetitivas tendem a ser automatizadas, porque a inteligência artificial e a tecnologia vieram justamente para assumir a parte repetitiva dos trabalhos. De forma bem simplificada, elas retiram a parte menos humana das funções para que possamos dedicar mais tempo ao que realmente gera valor: estratégia, desenvolvimento de novos produtos, relacionamento com clientes e interação social. É justamente aí que está o futuro do trabalho.
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Uma preocupação muito grande é a quantidade de empregos que poderão desaparecer com esse avanço tecnológico. Como você vê essa questão? Na Europa já há muitas pessoas perdendo empregos por causa da inteligência artificial?
– Não, realmente não. Pelo menos por enquanto, as taxas de desemprego estão excelentes. Curiosamente, quanto mais avançado tecnologicamente é um país e quanto mais inteligência artificial ele utiliza, menor costuma ser o desemprego. Isso acontece porque surgem novas profissões que hoje sequer conseguimos imaginar.
A inteligência artificial aumenta a produtividade e, quando a produtividade cresce, novos trabalhos também aparecem. É verdade que alguns empregos deixarão de existir. Isso sempre aconteceu. Quando surgiu a Revolução Industrial, muitos artesãos perderam seus trabalhos, mas diversas novas profissões nasceram. Como toda grande revolução, haverá um período de adaptação, em que alguns empregos desaparecerão e outros serão criados. Ninguém sabe exatamente quantos serão perdidos ou quantos surgirão. Existe uma coisa da qual tenho certeza: nós, seres humanos, somos muito ruins em prever o futuro.
Como assim, sobre previsão de futuro?
– Ninguém sabe exatamente o que vai acontecer. Outro dia eu conversava com uma community manager e usei esse exemplo em uma palestra: imagine voltar 30 anos no tempo e tentar explicar essa profissão para alguém. A pessoa não entenderia nada. Nem internet existia. Depois tente explicar o que é uma rede social. Daqui a 30 anos acontecerá exatamente a mesma coisa.
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Surgirão profissões e tecnologias que hoje sequer conseguimos imaginar. Sou otimista. Acredito que surgirão muitos novos tipos de trabalho, completamente diferentes dos atuais. Não acredito que perderemos tantos empregos quanto muitas pessoas imaginam.
Há quem teme que muitas vagas de médicos e advogados vão desaparecer. Como vê esse cenário?
– Isso não deverá acontecer na minha opinião. No caso dos advogados, por exemplo, existe uma transferência de responsabilidade. Quando você contrata um advogado, ele assume uma responsabilidade legal que nenhuma máquina pode assumir. Por isso, acredito que os advogados continuarão existindo. Serão mais produtivos e dedicarão mais tempo à parte estratégica e ao relacionamento com as pessoas. Na minha visão, a inteligência artificial criará mais empregos, e empregos cada vez mais humanos.
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E como será o impacto na medicina?
– Também acredito que não haverá muita perda de vagas. O que acredito é que vão desaparecer os médicos arrogantes. Esses, sim, terão dificuldades. Os médicos empáticos, que sabem ouvir, comunicar e criar conexão com os pacientes, terão um futuro extraordinário.
Os que realmente cuidam das pessoas terão mais trabalho do que nunca. Já aqueles que não desenvolveram inteligência emocional, empatia e capacidade de comunicação terão dificuldades. Não acredito que desaparecerão profissões, mas sim determinados perfis profissionais dentro delas. Os médicos sem habilidades humanas têm os dias contados.
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O que você recomenda para os profissionais frente a inteligência artificial?
– Nesta nova realidade, precisamos estar sempre aprendendo. O primeiro ponto é sermos eternos aprendizes. As mudanças agora acontecem de forma exponencial. Um único ano hoje equivale, em termos de transformação, ao que antes levava uma década. Por isso, as pessoas que terão mais sucesso serão as curiosas e autodidatas.
Nunca foi tão fácil aprender. Em poucos cliques é possível estudar praticamente qualquer assunto. Outro dia me perguntaram: “Como posso aprender inteligência artificial?” Minha resposta foi simples: pergunte à própria inteligência artificial. Peça que ela monte um plano personalizado de estudos para os próximos três meses.
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Nunca foi tão fácil aprender, mas é preciso ter curiosidade. Se desenvolvermos essa mentalidade de eterno aprendiz, investirmos em habilidades humanas, autoconhecimento e aprendermos a dominar a inteligência artificial, o futuro será extraordinário.

