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"A pandemia mostrou que o uso de tecnologia faz parte das soluções que as empresas precisam”, diz presidente da associação da indústria 4.0 

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Por Estela Benetti
08/06/2020 - 14h58 - Atualizada em: 08/06/2020 - 15h28
O presidente reeleito da ABII, José Rizzo Foto:Divulgação
O presidente reeleito da ABII, José Rizzo Foto:Divulgação

Apesar das experiências diferentes que as pessoas estão vivenciando nesta pandemia, o empresário José Rizzo, de Joinville, presidente da Associação Brasileira de Internet Industrial (ABII), setor mais conhecido como indústria 4.0, acredita que a maioria das coisas voltarão a ser como eram antes dessa crise. Ele acaba de assumir mais um mandato à frente da entidade que tem como prioridade ajudar as empresas a implantar projetos de tecnologia, especialmente de digitalização.

Segundo Rizzo, maioria das empresas do exterior não suspendeu investimentos em tecnologia durante essa fase de isolamento, a retomada econômica está acontecendo na Europa e nos EUA e dentro de um ou dois meses acontecerá também no Brasil.

Nesta quarta-feira, às 10h, a entidade realiza o primeiro painel ABII Live Talks, evento virtual gratuito sobre tendências da internet industrial com abordagem da Accenture e três grandes empresas que falarão sobre seus segmentos: GM, BRF e Hospital Albert Einstein. Nas próximas quartas-feiras serão realizados mais três.

Este é o segundo mandato de Rizzo à frente da ABII. Engenheiro graduado pela Universidade Estadual de Iowa, Estados Unidos, ele é empreendedor Endeavor desde 2001. Em 1996 fundou em Joinville a Pollux, empresa que desenvolve robôs, softwares e linhas de montagem automatizadas. Confira a entrevista a seguir:

Quais são os impactos da pandemia na área da indústria 4.0, onde atua a ABI?

Na área que a gente atua, estamos enxergando três momentos. O primeiro é como as coisas estavam antes da pandemia no que diz respeito a questão da transformação digital, a indústria 4.0. O segundo foi a chegada da pandemia ao país com um efeito grande. Todo mundo teve que dar uma parada para proteger as pessoas.

Ela (a pandemia) atingiu setores de forma muito diferente. Temos indústrias que seguiram fortes, como as de alimentos e farmacêuticas, e outras que foram a zero. Agora, estamos olhando o pós-pandemia, apostando num cenário de que a crise vai passar, como a gente vê acontecendo na Europa, esperando que aqui no Brasil a gente acabe seguindo o mesmo caminho, em que algum momento a gente veja o problema do vírus decrescendo e as coisas seguindo uma normalidade.

E aí a grande discussão que temos hoje é o que efetivamente vai mudar e o que vai voltar como era antes. Muito do que a gente está discutindo agora, envolve ainda os cuidados com a pandemia, mas de olho com o que vem na sequência.

As empresas do setor estão conseguindo ser proativas junto aos mercados?

Na ABII a gente tinha uma missão muito clara, considerando os três ramos da associação, que era sensibilizar os industriais para os negócios em geral de que a transformação digital, a indústria 4.0, é um tema relevante, capaz de mudar modelos de negócios. Por isso, toda empresa deveria colocar isso na sua pauta estratégica, ver o quanto o seu negócio era afetado por isso e embarcar nessa jornada.

Ao final do ano passado, a gente entendeu que esse era um tema bastante debatido no Brasil e no mundo, que a maioria dos líderes já tinha percebido que o mundo estava se transformando com a digitalização e o crescimento das novas tecnologias da área, incluindo a robótica. E aí, neste ano, a gente se deu como missão trabalhar com empresas que já tomaram essa decisão, sentiram que é importante ter a empresa voltada para essa transformação.

Tanto que o nosso primeiro encontro que estava programado para abril em Curitiba e que não aconteceu em função da pandemia era totalmente voltado para isso. Iria debater com empresas dos mais diferentes segmentos, manufatura, agronegócio e setor de saúde quais obstáculos estão encontrando para fazer a transformação digital acontecer. Obstáculos do ponto de vista financeiro, ligado a pessoas, cultura e obstáculos tecnológicos. E aí a pandemia chegou.

O que mudou com a chegada da pandemia?

Em relação ao que é digital, a gente viu que as empresas que estavam um pouco à frente em tecnologia, que tinham equipes mais qualificadas, tiveram muito menos problemas para se readaptarem à mudança, colocando pessoas em home office, fazendo uso de plataformas tecnológicas, do que aquelas que não tinham.

Então eu acho que a pandemia mostrou que sim, essas ferramentas digitais funcionam, o uso de tecnologia faz parte das soluções que as empresas precisam ter e, a hora que esse momento ficar para traz, mais forte do que nunca vai ficar essa visão de que há um trabalho a ser feito em cada setor.

Alguns setores vão retomar e vão ficar muito semelhantes ao que eram antes e outros vão estar diante de uma nova realidade.

O senhor pode citar exemplo?

Vou citar o exemplo da nossa empresa, a Pollux. Nossa segunda maior despesa, após a folha de pagamento, era com viagens porque a gente tinha que estar onde os clientes estavam, pelo mundo afora. O custo disso era muito alto. E com o impedimento das viagens, a gente viu que era possível fazer boa parte do trabalho remotamente e os clientes também entenderam isso.

Acredito que no final da pandemia as viagens de negócios serão bastante reduzidas porque as pessoas viram que essas plataformas funcionam. Algumas adaptações vão acontecer, mas na minha opinião pessoal, a pandemia vai passar e as coisas vão voltar a ser muito semelhantes ao que eram antes. Acredito que não teremos uma vida muito diferente no meio do ano que vem, do que era no ano passado. O ser humano é muito gregário, gosta de estar junto. Então, uma vez que a ameaça do vírus ficar para trás, nossa realidade será mais semelhante ao que era antes do que diferente.

Então acredita que as empresas podem se programar para atender um consumidor muito semelhante ao de antes da pandemia?

Eu acredito que sim. Vai levar algum tempo, mas a vida vai voltar muito semelhante ao que era antes. Agora, esse período da pandemia gerou uma série de experimentações para as pessoas. Tem muita gente que está cozinhando pela primeira vez, se exercitando em casa, sendo muito mais produtivo no trabalho com home office. Algumas dessas experiências que se mostraram produtivas serão incorporadas às vidas das pessoas.

Mas eu diria que a tendência, aos poucos, é volta a ser o que era antes. Digo isso baseado ao fato de a gente ter tido pandemias terríveis ao longo dos séculos e, uma vez passado isso, a vida voltou ao normal. Por isso não acredito que daqui a um ano estaremos com afastamento em restaurantes e trabalhando na indústria com 50% da capacidade. Logicamente, cuidados sanitários vão seguir. As novas gerações estarão mais atentas aos cuidados sanitários porque isso não vale somente para o coronavírus, mas para tudo. No caso do uso de máscara, seria bom que as pessoas gripadas tornassem isso um hábito, como fazem os asiáticos.

Quais são as prioridades da nova gestão da ABII?

A nossa grande prioridade é retomar a missão que a gente se deu no início deste ano que é cooperar e ajudar as empresas de todos os setores que tenham decidido seguir adiante com o conceito da indústria 4.0, da internet industrial, a encontrar o caminho.

Em contato com as indústrias a gente nota obstáculos. Por exemplo, como justifico o investimento para esse tipo de tecnologia, como eu preparo o meu time para mudança e quais são as competências de hard skills e soft skills que eu preciso, como eu embarco tecnologia na fábrica e a preocupação com cyber security.

Então, qual é o papel da ABII? Nós temos três grupos de trabalho. Como a associação trabalha? Temos cerca de 50 empresas associadas, desde startps até empresas muito grandes como a Embraer, Microsoft, Senior e Totvs. Pessoas que trabalham nas empresas atuam nos grupos de trabalho da ABII de forma voluntária. Temos os grupos de trabalho de negócios, tecnologia e de pessoas.

Como trabalham esses três grupos?

Nós criamos o grupo de trabalho de negócios porque, afinal das contas, nosso setor precisa de trabalho fluindo, financiamentos, tem que ter dinheiro envolvido. O grupo de tecnologia é voltado a essas tecnologias ambientadoras, está muito voltado a saber como vai ficar o 5G, como será a robótica e inteligência artificial. E temos o grupo de trabalho de pessoas porque, afinal de contas, todo esse processo exige disposição para mudar, experimentar e adquirir novos conhecimentos.

Quando uma nova empresa nos procura e informa que está disposta a iniciar essa jornada, o nosso papel é mostrar caminhos, apontar dificuldades e estar aí como um suporte, uma consultoria, para tirar dúvidas, indicar boas práticas, conectar a empresa com provedores de tecnologia. O nosso papel é muito de facilitar para que os setores de manufatura, agrobusiness e o próprio setor de saúde encontrem o sucesso. Nossa missão é ajudar aqueles que decidiram seguir a jornada da transformação digital a terem sucesso.

Vocês estão fazendo um grande evento digital a partir desta quarta-feira. Quais serão os destaques?

Todos os anos fazíamos quatro encontros regionais, em cidades diferentes como, Joinville, São Paulo, Curitiba e Brasília. E neste ano tínhamos agendado para abril. Como não há perspectiva de reunir pessoas fisicamente, decidimos fazer por meio de lives. Serão quatro lives, a primeira será dia 10, próxima quarta-feira.

A ideia do evento é apresentar um contexto de tudo. A gente está trazendo a Accenture, que dará uma visão sobre tendências que estão acontecendo, que mudanças virão. E estamos trazendo uma abordagem de três segmentos. Teremos uma pessoa da indústria automotiva, da GM, para informar de que forma o setor foi afetado; uma da BRF para falar da área de consumo de alimentos; e uma pessoa do Hospital Albert Einstein, para dizer como o setor de saúde foi impactado.

A partir daí, teremos mais três encontros virtuais, todos nas quartas-feiras, às 10h, de forma consecutiva, cada um com um tema. O primeiro será sobre negócios, o segundo sobre tecnologia e o terceiro, sobre pessoas. O evento será num formato de debate, de questionamento e de obtenção das perspectivas com os painelistas que falarão.

A internet industrial é transversal, abrange diversos setores, não só a indústria. Pode-se concluir isso?

A internet industrial ou indústria 4.0, que são os termos mais conhecidos, quando se fala no Brasil tem uma conotação mais de manufatura, mas o escopo é mais abrangente. Falamos da indústria do agronegócio, da indústria de energia, dos transportes e de qualquer outro setor que possa ser beneficiado com o uso dessas tecnologias.

O setor está sentindo uma retomada de investimentos em tecnologia para o período pós-pandemia?

Para essa resposta eu vou dar uma perspectiva mais da Pollux, porque aqui a gente tem o pulso. É uma empresa que fornece tecnologia na forma de linhas de montagem e robótica para diversos setores. Cada setor está reagindo de uma forma diferente. Todos os nossos projetos ligados à indústria alimentícia e farmacêutica não tiveram qualquer impacto. O que estava acontecendo no início do ano, segue acontecendo da mesma forma. Setores seguem adotando tecnologias para se tornarem mais competitivos.

No setor automotivo notamos que, num primeiro momento, quando a crise se estabeleceu, eles deram uma parada para ver como ficaria o mercado e agora estão retomando. Vínhamos com diversos projetos para esse setor nos dois primeiros meses do ano, em março e abril tiveram uma parada e em maio boa parte dos clientes retomou. Além disso, boa parte também sinalizou com novos projetos ainda para este ano. Isso mostra que estão retornando à normalidade.

O senhor tem informação se isso está acontecendo também em outras regiões do mundo como Europa e Américas?

Hoje, a maior parte dos negócios da nossa empresa está fora do Brasil, por isso eu vou me basear nela, de novo, para responder. Temos clientes desde a Argentina até o Canadá, incluindo Estados Unidos e México.

No exterior, não tivemos nenhum projeto, principalmente na América do Norte – Canadá, EUA e México – que tivesse qualquer parada. Na verdade, o pessoal se adaptou rapidamente à nova situação.

Por exemplo: no caso das máquinas que a gente faz para exportar ao Canadá, as equipes do cliente vinham de lá para fazer a aprovação. Como isso ficou inviável, a gente seguiu fabricando as máquinas e essa aprovação hoje é feita de forma remota. Então, lá fora, dentro da indústria que a gente atua, a retomada já está acontecendo e imagino que o Brasil está um a dois meses atrás disso. Quando estivermos no último trimestre do ano, vamos estar muito mais perto de uma normalidade no fornecimento de equipamentos.

O segmento de internet industrial também enfrenta falta de trabalhadores qualificados?

Essa é uma grande preocupação. A gente nota que uma parte importante da economia dos países vai acabar vindo do setor de tecnologia, que demanda uma quantidade grande de profissionais mais voltados à sigla em inglês que está sendo muito usada hoje, que é STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática). A gente vê que ainda uma parte importante dos jovens, na hora que decidem a carreira, acabam não ingressando nessa área de exatas, eu acho de uma forma desproporcional.

Eu penso que todos devem seguir suas vocações, todas as profissões são admiráveis, é muito bom que cada um faça o que gosta, mas eu acho que, por alguma razão, não há um estímulo ou há até um estímulo contrário à área de exatas.

Parece que o jovem tem receio da área de exatas. Então, o que a gente nota, é um volume pequeno de pessoas se formando nessas áreas enquanto há uma demanda muito grande no mercado. A gente enfrenta, por exemplo, falta de programadores em Santa Catarina enquanto em outras áreas há excesso de profissionais para poucas vagas. Então, tem muita gente se formando em áreas com poucas oportunidades e pouca gente se formando em áreas com muitas oportunidades.

Temos, em Joinville, o Programa Think Tank Criando o Futuro, que procura mudar isso junto às escolas, para que professores e estudantes olhem com mais carinho a área de matemática e tecnologia. Um dos problemas pode ser porque temos poucos professores apaixonados por matemática.

Estela Benetti

Colunista

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Especialista na economia de Santa Catarina, traduz as decisões mais relevantes do mercado, faz análises e antecipa tendências que afetam a vida de empresários, governos e consumidores.

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