Segunda maior economia da América Latina, só atrás da do Brasil, o México está sofrendo menos com o tarifaço dos EUA, suas empresas estão investindo mais no Brasil e acaba autorizar visto eletrônico a turistas brasileiros o que fez saltar os pedidos em 460% nos últimos dois meses. O embaixador do México no Brasil, Carlos García de Alba, em visita oficial a Santa Catarina na última semana, afirmou ver potencial de muito mais intercâmbio econômico.
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O embaixador foi recebido com honras pelo governador de SC, Jorginho Mello e secretários, se reuniu com o prefeito de Florianópolis Topazio Neto e fez visita à Tupy, de Joinville, uma das indústrias icônicas de SC que têm fábrica no México.
Jorginho Mello falou do interesse de SC e ampliar relações econômicas, culturais e científicas com o México, o que o embaixador afirmou ser de interesse também do seu país. Com o prefeito Topazio, foi iniciada conversa para estabelecer parceria de cidade irmã com uma cidade mexicana.
Carlos García de Alba observou que o melhor resultado de negócios bilaterais entre Brasil e México foi em 2024, de US$ 15 bilhões. Para ele, pelo potencial dos dois países, teria que ser pelo menos o dobro disso.
Ele destacou que o México está investindo mais no Brasil e incluindo Santa Catarina. As concessões dos aeroportos de Navegantes e Joinville foram adquiridas por grupo mexicano.
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– Estou descobrindo agora que este é um ecossistema maravilhoso para investimentos estrangeiros. O México deve investir mais em Santa Catarina – disse o diplomata.
O embaixador Carlos García de Alba fez visita oficial acompanhado do cônsul do México para Santa Catarina e Paraná, Valter Ross. Leia a entrevista exclusiva do embaixador para o portal NSC Total:
Santa Catarina tem muitos negócios com o México. Houve uma onda de investimentos de indústrias do estado no país para aproveitar acordos comerciais. Empresas como Tupy, WEG e Whirlpool instalaram fábricas no México. Como estão os investimentos entre SC e o seu país hoje?
– O comércio entre Brasil e México ainda é baixo. Em 2024, estabelecemos um recorde histórico: uma fonte aponta US$ 14 bilhões e outra US$ 15 bilhões. Vamos ficar com a mais otimista. Ainda assim, para o tamanho das duas economias, é uma cifra baixa. Deveríamos ter pelo menos o dobro do intercâmbio comercial. Precisamos revisar o que não temos feito bem, tanto nos governos quanto nos sistemas empresariais, para elevar esse comércio. No entanto, algo de que pouco se fala, e você é a primeira jornalista que inicia a conversa por esse tema, são os investimentos, que são mais fortes do que o comércio entre México e Brasil.
Santa Catarina tem, por exemplo, investimentos como o da Tupy. Amanhã estarei visitando as instalações da empresa em Joinville. Temos também investimentos da WEG e outras empresas.
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Por outro lado, o México também possui investimentos em Santa Catarina. Carlos Slim, por exemplo (dono da Claro no Brasil) tem uma presença muito forte no estado. Costumo dizer que cinco dos seis satélites que o Brasil possui são mexicanos.
Além disso, foi anunciada recentemente o investimento do Grupo Asur (Grupo Aeroportuario del Sureste). Este grupo aeroportuário mexicano adquiriu 17 aeroportos, dos quais dois estão em Santa Catarina. Foi um investimento importante. Portanto, precisamos falar mais e promover investimentos brasileiros no México, para o México e a partir do México, entendendo o país como uma plataforma para empresas brasileiras.
Da mesma forma, deve haver mais investimentos mexicanos em Santa Catarina. Estou descobrindo agora que este é um ecossistema maravilhoso para investimentos estrangeiros. O México deve investir mais em Santa Catarina. Vamos continuar falando de comércio, mas também devemos começar a falar mais de investimentos.
Os aeroportos adquiridos pelo Grupo Asur são Navegantes e Joinville. Como avalia esse mercado?
– O Brasil é o país com maior tráfego de passageiros na América Latina. Essa compra feita pelo Grupo Asur, liderado por Fernando Chico Pardo, significa que um grupo mexicano passará a operar 38% do tráfego de passageiros do Brasil. Não é algo menor. Trata-se de um investimento estratégico.
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Trata-se de um investimento muito relevante, de cerca de US$ 2,4 bilhões. O Grupo Asur adquiriu 17 aeroportos: 15 no Brasil, um em Curaçao e outro na Costa Rica. No momento, o foco está apenas em aeroportos, não em portos. Além disso, há outros exemplos importantes de investimentos mexicanos no Brasil. Cerca de 48% da Coca-Cola consumida no Brasil está sob controle de um grupo mexicano. Aproximadamente 75% da produção de laranja no Brasil utiliza tecnologia de irrigação mexicana. O maior produtor de pão do país também é uma empresa mexicana, assim como parte significativa da irrigação da produção de café.
Visita ao governador Jorginho Mello
Como foi a sua reunião com o governo de Santa Catarina e secretários de estado nessa visita?
– Esta é minha primeira visita ao estado. Foi uma agenda de aproximação e exploração de oportunidades. Percebi grande interesse em diferentes áreas. Com o apoio do consulado, tivemos uma agenda intensa e produtiva. Ainda não firmamos acordos, pois isso exige tempo.
No entanto, discutimos possibilidades como o irmanamento de Florianópolis com uma cidade mexicana, além de cooperação em ciência, tecnologia e infraestrutura. Estamos abrindo um amplo campo de colaboração com Santa Catarina.
Quais setores mexicanos poderiam investir mais no Brasil, ou em Santa Catarina, na sua opinião?
– Vejo, inicialmente, a expansão dos investimentos aeroportuários. O grupo mexicano deseja ampliar sua presença. Também vejo potencial em portos, não apenas aeroportos. Há interesse de grupos mexicanos em operar portos, assim como já ocorre com aeroportos.
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Outro setor é o turismo. O México é uma potência turística em termos de infraestrutura, serviços hoteleiros, restaurantes e cadeias internacionais. Esse pode ser mais um campo de investimento. Sim, é possível investir aqui.
E, no México, observo que Santa Catarina exporta muito frango e carne suína. Por que não investir diretamente no México? Produzir lá, em vez de apenas exportar? Criar suínos e desenvolver produção local no México, por exemplo. Precisamos começar a mudar a visão de negócios entre os empresários de ambas as partes.
Como está o comércio bilateral entre Brasil e México?
– O volume de comércio diminuiu. Em 2025, fechamos em cerca de US$ 13 bilhões de dólares, o que representa uma queda. Para cada 2,3 dólares que o Brasil exporta para o México, o México exporta 1 dólar para o Brasil. Ou seja, há um déficit para o México e um superávit importante para o Brasil.
Isso não me preocupa. O que me importa é aumentar o volume do intercâmbio. Depois podemos discutir como equilibrar a balança, mas o principal desafio é elevar o comércio.
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E como o senhor avalia o intercâmbio comercial entre Santa Catarina e México?
– Foram cerca de US$ 780 milhões de dólares no ano passado. O México é o quarto destino das exportações de Santa Catarina. Isso não é amplamente conhecido. Muitas pessoas acreditam que o México ocupa posições mais baixas, como 15º ou 20º lugar. No entanto, é o quarto maior comprador do estado. Portanto, trata-se de um parceiro comercial importante para Santa Catarina, e há espaço para ampliar ainda mais essas exportações.
O México exporta menos para Santa Catarina, o que também gera um déficit. Ainda assim, como já mencionei, o saldo não é minha principal preocupação; o fundamental é aumentar o volume do intercâmbio comercial.
Visto eletrônico a brasileiros surpreende
Gostaria de perguntar também sobre turismo. Existe um grande intercâmbio entre o turismo brasileiro e o do México, e vice-versa. O senhor vê potencial de crescimento?
– Muito. No ano passado, registramos aproximadamente 170 mil turistas brasileiros que visitaram o México. O Brasil foi o 11º maior emissor de turistas estrangeiros para o México. O México é o sexto país no mundo em número de turistas estrangeiros, com cerca de 49 milhões de visitantes.
Já o número de mexicanos que vieram ao Brasil foi de aproximadamente 125 mil. Ou seja, há mais brasileiros indo ao México do que mexicanos vindo ao Brasil. Considerando o tamanho da população, esses números são relativamente semelhantes em termos per capita.
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A boa notícia é que, desde 5 de fevereiro, o México introduziu o visto eletrônico para turistas brasileiros. Antes disso, era necessário ir a São Paulo, Rio de Janeiro ou Brasília para solicitar o visto presencialmente. Agora, o processo é eletrônico. Desde o dia 6 de fevereiro, há cerca de dois meses e meio, o turismo brasileiro para o México aumentou 460%.
Isso superou a expectativa, não?
– Foi uma expansão que eu esperava, pois defendemos fortemente essa medida, mas não imaginávamos que seria tão rápida e intensa. Em cerca de 10 semanas, o crescimento foi de 460%. Esse aumento representa cerca de 14 mil turistas a mais em comparação com o mesmo período do ano anterior, o equivalente a aproximadamente 30 aviões adicionais, que não estavam previstos.
Isso cria um desafio positivo: ampliar a conectividade aérea, aumentar frequências e diversificar destinos, já que a conectividade entre México e Brasil ainda é limitada. Gostaria muito de poder decidir sobre rotas aéreas, mas, por exemplo, não se explica a ausência de um voo direto entre São Paulo e Cancún. São Paulo é o principal emissor de turistas do Brasil, e Cancún é um dos principais destinos no México, ainda assim, não há voo direto entre os dois.
Com esse crescimento inesperado, as companhias aéreas precisarão se adaptar rapidamente, ampliando rotas e frequências. Não cabe a mim tomar essa decisão, mas considero fundamental melhorar a conectividade aérea para aproveitar esse momento.
Esse crescimento está concentrado principalmente no Sudeste do Brasil?
– Sim, essa avaliação está correta. Pelo tamanho populacional, São Paulo é o principal polo emissor de turistas no Brasil, além de contar com um Consulado-Geral, o que facilitava o processo de visto.
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Agora, com o visto eletrônico, é possível solicitá-lo de qualquer lugar: Belém, Manaus, Campo Grande, Florianópolis, Porto Alegre. Isso tem gerado um efeito duplo positivo: aumento no volume de turistas e maior diversificação das origens.
Existe também visto eletrônico para mexicanos viajarem ao Brasil?
– Não. Isso ocorre porque a exigência de visto parte do México, não do Brasil. Vale destacar que essa é a primeira vez na história que o México implementa um visto eletrônico para qualquer país.
Trata-se de uma inovação, e decidimos implementá-la com o Brasil. Está funcionando bem e pode ser aperfeiçoada. Isso também abre caminho para que o México adote esse modelo com outros países no futuro.
Gostaria de perguntar sobre um episódio recente envolvendo segurança em uma pirâmide, em Teotihuacán. Esse tipo de situação preocupa?
– Sim, trata-se de uma preocupação real, assim como em muitos países da América Latina. Infelizmente, não há um país na região completamente livre do problema do crime organizado. Sobre o caso de Teotihuacán, foi um episódio trágico que envolveu duas famílias brasileiras. Lamento profundamente o ocorrido e envio minha solidariedade. Felizmente, elas já retornaram ao Brasil em segurança.
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No entanto, foi um caso isolado, envolvendo uma pessoa com problemas de saúde mental. Não é uma situação generalizada. Inclusive, Teotihuacán já voltou aos níveis normais de visitação. De forma mais ampla, o México enfrenta desafios de segurança, como outros países, e está trabalhando para enfrentá-los.
Ao mesmo tempo, é importante dizer que, em algumas situações, a percepção do problema pode ser ampliada pela cobertura midiática. Um indicativo importante é que a maioria dos turistas que visitam o México retorna mais de uma vez. Isso demonstra confiança no destino.
Além disso, os investimentos estrangeiros continuam chegando, o que também sinaliza estabilidade. Portanto, trata-se de um problema real, que está sendo enfrentado, mas que não define a totalidade do país nem impede o fluxo turístico ou de investimentos.
Quais são, atualmente, os principais destinos turísticos do México?
A Cidade do México continua sendo o principal destino turístico do país. Em seguida, destacam-se Cancún, a Riviera Maya e toda a costa caribenha. Também há forte crescimento em Los Cabos, na Baixa Califórnia. A costa do Pacífico mexicano, de Mazatlán até Oaxaca e Huatulco, também é muito procurada, assim como o próprio estado de Oaxaca e o centro do país, com cidades coloniais como San Miguel de Allende, Guanajuato e Zacatecas.
O México possui uma grande diversidade de destinos turísticos, assim como o Brasil vai muito além do Rio de Janeiro. Em termos estatísticos, esses são os principais polos. Além disso, há o turismo fronteiriço, bastante característico, com visitantes que cruzam a fronteira por períodos curtos. Outro segmento em crescimento é o turismo médico: o México é hoje o segundo maior destino mundial nessa área, atrás apenas da Tailândia.
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Quais são os serviços médicos que mais se destacam nesse chamado ‘turismo médico’?
– Praticamente todos. Desde cirurgias plásticas e tratamentos odontológicos até cirurgias gerais. Em média, uma cirurgia no México custa cerca de 85% menos do que nos Estados Unidos. Em grande parte, os turistas dessa área de saúde são dos Estados Unidos.
O modelo é estruturado de forma inteligente, pois combina turismo médico com turismo cultural. A pessoa que vai realizar um procedimento também tem acesso a um pacote cultural. Ela pode visitar museus, conhecer cidades e aproveitar a gastronomia mexicana. É uma experiência completa, o que explica o sucesso desse modelo. Normalmente, o paciente viaja acompanhado, com a família.
Gostaria de saber como está a relação cambial entre Brasil e México. Está equilibrada?
– Em termos cambiais, a relação atual é de aproximadamente 1 real para 3 pesos mexicanos. De modo geral, isso torna o México um destino relativamente acessível para brasileiros, mais barato do que viajar para os Estados Unidos ou para a Europa. Além disso, ambas as moedas vêm se valorizando.
Ainda é atrativo instalar indústrias no México
Como as políticas tarifárias do governo Trump impactaram o México? Houve efeitos relevantes na economia?
– As políticas tarifárias dos Estados Unidos afetaram o mundo inteiro, inclusive os próprios Estados Unidos. Ainda que não haja números totalmente claros, observa-se aumento da inflação e do custo de vida nos Estados Unidos, em parte devido a essas políticas, além de outros fatores, como tensões internacionais.
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O México também foi impactado, especialmente em setores como aço e alumínio. No entanto, há uma diferença importante: o México possui um acordo de livre comércio com os Estados Unidos. Assim, grande parte das tarifas vinculadas a esse acordo não foi afetada. A maioria do comércio entre México e Estados Unidos continua livre de tarifas. Isso faz com que México e Canadá, os outros membros do acordo, tenham sido menos impactados pelas políticas tarifárias.
Portanto, ainda é atrativo instalar indústrias no México para exportar aos Estados Unidos. No entanto, considero que o empresariado brasileiro ainda não percebeu plenamente o México como uma plataforma de exportação global. Em geral, enxerga o país apenas como um mercado consumidor.
Mas há exemplos claros de empresas que compreenderam esse potencial. A BMW, por exemplo, utiliza sua fábrica no México para exportar a cerca de 80 países. O México é o país com o maior número de acordos de livre comércio no mundo, com 53 países. Trata-se da rede mais ampla existente.
Quando se fala em União Europeia, esses acordos consideram o bloco como um todo?
Sim. A União Europeia reúne 27 países. Em breve, será firmado um novo acordo modernizado com o bloco, mais amplo e profundo que o anterior. Além disso, o México possui acordos com outros países, distribuídos pelos cinco continentes.
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Como é a parceria comercial entre o México e Mercosul?
– Temos um acordo de complementação econômica, no âmbito da Aladi (Associação Latino-Americana de Integração), e não de um acordo pleno de livre comércio. Esse acordo abrange alguns setores, especialmente o automotivo e de autopeças, mas não cobre toda a economia. Há também investimentos mexicanos relevantes nesse setor. Por exemplo, cerca de 75% das estruturas de veículos pesados no Brasil são produzidas por uma empresa mexicana.





