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    “Em proteína animal, o Brasil é o país do futuro”, diz Francisco Turra, da ABPA

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    Por Estela Benetti
    19/08/2020 - 15h21
    Francisco Turra, da ABPA, vê cenário sólido para carnes
    Francisco Turra, da ABPA, vê cenário sólido para carnes (Foto: Édi Pereira, ABPA, Divulgação)

    Em meio a polêmicas causada pelo desafio de seguir produzindo durante a pandemia do novo coronavírus, a poderosa Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) troca de comando. Após 12 anos à frente da entidade que ajudou a fortalecer no Brasil e exterior, o ex-ministro e advogado Francisco Turra passa o cargo hoje para o executivo e advogado Ricardo Santin, que atuava como diretor da entidade. 

    Turra, que segue como conselheiro da entidade, falou com a coluna segunda-feira sobre cenários ao setor e os principais avanços da gestão que desenvolveu. Segundo ele, apesar de problemas factuais aqui e ali, o Brasil segue firme como um dos líderes em proteína animal e deverá responder pelo maior aumento da produção mundial necessária no futuro.

    O senhor está encerrando gestão de 12 anos à frente da ABPA. Que avanços destaca desse período para o setor?

    O primeiro avanço, naturalmente, foi o aumento de habilitações de frigoríficos para exportar para países importantes como China, Índia, Paquistão e muitos outros da Ásia. Conquistamos também outros mercados para carnes de aves e suínos, entre os quais o do México. Outro ponto importante foi o nosso crescimento como entidade. Começamos com a Associaçao Brasileira de Exportores e Frango (Abef). Depois, nos juntamos com a União Brasileira de Avicultura (Uba), que representava os produtores e, mais tarde, nos unimos com a Asssociação Brasileria da Indústria Produtora e Exportadora de Carne Suína (Abipecs). Aí criamos a Associação Brasileria de Proteína Animal (ABPA) que envolve aves, suínos e ovos. Passamos de 23 empresas associadas para 143. Entre as sócias, temos as maiores empresas do mundo. A JBS é a maior produtora e transformadora de proteína animal do Planeta e a BRF também é um gigante. E temos empresas associadas pequenas, que convivem absolutamente bem com as grandes.

    O que a ABPA tem feito para a projeção do setor?

    Criamos o Siavs, Salão Inernacioel de Suinocultura e Avicultura, que modelou a imagem da proteína animal no Brasil e lá fora. Trazíamos jornalistas do mundo todo para conhecer o setor e escrever sobre o mesmo. Mostramos um Brasil avançado, com muita sustentabilidade e sanidade. Isso sempre foi muito importante para o nosso setor. Não temos peste suína africana, peste suína clássica, gripe aviária e Newcastle. Isso para o mercado internacional tem um valor incalculável. Isso criou uma imagem muito grande lá fora. E no Brasil também conseguimos derrubar vários mitos, como de que há hormônio no frango e colesterol no ovo. A carne suína tinha imagem de que trazia muitas doenças. E a gente, através de um trabalho intenso, com nutrólogos, nutricionistas, mudamos isso. Além disso, modernizamos muito a associação. Recentemente, criamos o programa ABPA Data, que permite 2 bilhões de informações para o nosso associado. Tem tudo sobre o mercado mundial. Além disso, superamos também crises como Operação Carne Fraca, Operação Trapaça e, agora, estamos produzindo ao mesmo tempo em que nos protegemos da Covid-19.

    Desde que avançou no Brasil, a Civid-19 trouxe obstáculos à agroindústria de carnes. Como foram as exportações do setor no primeiro semestre?

    Em alguns países, como nos Estados Unidos, maior produtor do mundo, muitas empresas tiveram dificuldades para enfrentar surtos da pandemia e, quando puderam reabrir, não tinham oferta suficiente de produto. Nem a União Europeia, que também é uma grande produtora, conseguiu aumentar a sua produção durante a pandemia. Então restou ao Brasil um espaço muito maior no mercado. Nosso setor produtivo se manteve firme. Aumentamos 2% as exportações de carne de ave e 37% de carne suína no semestre.

    Quais são as expectativas para o futuro?

    Nós temos conquistado novos mercados e ampliado presença onde já atuamos. A gente vê um caminho especial para o Brasil no futuro para aves e suínos. Para bovinos idem. Em proteína animal, o Brasil é o país do futuro. Segundo a FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura), de todo o aumento de produção de proteína necessário no mundo no futuro, 40% terá que ser suprido pelo mercado brasileiro.

    Casos de Covid-19 em trabalhadores de frigoríficos são fonte de preocupação no mundo todo. A Administração-Geral de Alfandegas da China (GACC) chegou a propor ao Brasil que adotasse interrupção voluntária de exportação em caso de ocorrência da doença em trabalhadores em frigoríficos a exemplo do que sugeriu e foi aceito em outros países. Por que o setor não adotou isso ainda?

    As empresas brasileiras não aceitaram essa sugestão da GACC porque estão bastante seguras dos cuidados que vêm tomando para evitar que trabalhadores com Covid-19 entrem nas unidades. Essa segurança vem da adoção de protocolos mais rígidos de controle, como uso de equipamentos de proteção e adoção de uma série de medidas como testagem de temperatura e afastamento de pessoas com sintomas ou doentes ou também que tenham familiares que apresentem sintomas ou estejam doentes. Mas o setor está avaliando em adotar essa sugestão da China porque o país está aceitando mais rápido a retomada das vendas de unidades que procedem assim do que quando ele próprio toma iniciativa de suspender, como foi o caso de quatro frigoríficos do Rio Grande do Sul, da JBS e BRF.

    A informação divulgada pela China sobre a existência de traços de coronavírus em embalagem de frango de SC gerou muita polêmica. Como o senhor analisa?

    A polemcia foi mais porque não foi uma autoridade chinesa a divulgar. Foi uma informação dada à imprensa na privíncia de Shenzhen. Não houve explicação se os traços do vírus estavam sobre o produto (da Aurora Alimentos, de Xaxim) ou sobre a embalagem. Foi um vírus inativo que os chineses chamaram até de ácido nucleico. A ministra da Agricultura, Teresa Cristina, se dirigiu à autoridade chinesa e a resposta foi de que estava apenas observando. Quem veio em defesa do Brasil foi a Organização Munidal da Saúde (OMS). Falou que não há possibilidade de contabiminação de pessoas.Outra coisa. A carga demora de 40 dias a 70 dias para chegar na China. Quem carregou? Quem descarregou? Um cientista da Embrapa de Santa Catarina disse que, pela ciência, é impossível o vírus inativo, numa superfície congelada, contaminar pessoas. As carnes de suíno, bovino e peixe não são portadores desse vírus. Quem tem possibilidade de serem portadores são os morcegos e furões.

    E sobre a decisão das Filipinas de cancelar compras de carne de aves do Brasil?

    As Felipinas compram pouco do Brasil. O país viu a noticia e, sem comunicado oficial ao governo brasileiro, informou que estaria suspendendo importações de carne de aves.O Ministério da Agricultura cobrou explicações e ameaçou entrar na Organização Munidal do Comércio (OMC) se o país não der uma explicação.

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