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    Futuro pós-pandemia

    "Empresas que têm um propósito forte vão sobreviver", afirma o presidente da Acate 

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    Por Estela Benetti
    03/05/2020 - 11h09 - Atualizada em: 13/05/2020 - 14h56
    Daniel Leipnitz, presidente da Acate, fala sobre os diversos aspectos da tecnologia na pandemia Foto:Cristiano Estrela, Divulgação
    Daniel Leipnitz, presidente da Acate, fala dos diversos aspectos da tecnologia na pandemia Foto:Cristiano Estrela, Divulgação

    O setor de tecnologia, apesar de ser um dos protagonistas de soluções nessa crise gerada pela pandemia do novo coronavírus, enfrenta uma série de desafios, a exemplo dos demais. A crise vai ser longa até a humanidade encontrar uma vacina e vão sobreviver empresas que oferecerem soluções que fazem a diferença para a vida das pessoas.

    Esses alertas foram feitos pelo presidente da Associação Catarinense de Tecnologia (Acate), Daniel Leipnitz, ao falar sobre "O papel da tecnologia na pandemia" em entrevista que me concedeu por live terça-feira (28/04). Ele falou também do importante papel da tecnologia para as pessoas trabalharem em casa, negócios digitais que vieram para ficar e outros temas.

    Confira a seguir:

    O senhor imaginava que um dia teríamos uma pandemia que causaria isolamento assim?

    Como um cidadão, como um ser humano qualquer, a gente acaba nunca esperando que isso aconteça, uma pandemia nessa magnitude. Porém, se nós formos observar, haviam vários indícios. Pessoas muito conhecidas na ciência e nos negócios estavam nos alertando sobre uma possível pandemia com vírus.

    Nos últimos anos, a gente tem, por exemplo, um Ted Talk muito conhecido do Bill Gates, da Microsoft, falando da probabilidade, tem alertas da Organização Mundial da Saúde e de universidades de que havia uma probabilidade grande de termos isso. Como pessoa, eu não esperava, mas se formos ver os estudos, as notícias, as pessoas que estavam dedicadas a isso, a gente vai ver que tinha uma probabilidade e essa probabilidade aconteceu.

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    Como o senhor analisa a crise que ela gerou?

    O que podemos falar é que esta pandemia está gerando uma crise sem precedentes no mundo. Não é uma crise econômica. É uma crise na saúde que a partir daí foi afetando outras áreas. Ela, até aqui, já causou estragos imensos e hoje seria difícil avaliarmos o quanto mais ela vai trazer de questões que vão ser bastante desafiadoras para frente.

    Na minha leitura, não estamos nem próximos da metade dessa crise. É muito difícil fazermos uma avaliação total da gravidade, do que virá ainda pela frente.

    De que forma a crise está impactando o setor de tecnologia?

    O setor de tecnologia é bastante fracionado. Temos empresas que trabalham diretamente nos setores que estão super impactados, que estão em lockdown, como o setor de turismo, o varejo. Porém, temos outras empresas que atendem a cadeia de serviços essenciais. Temos hoje diversas empresas que trabalham com soluções de nuvem, de infraestrutura, com soluções diversas para que a gente consiga viver forçadamente essa transformação digital que está acontecendo.

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    Que setores poderiam estar mais avançados nessa transformação digital, não estão e enfrentam dificuldades agora, tendo que correr atrás de soluções?

    Eu creio que, de uma forma ou de outra, todos os setores da nossa economia estavam caminhando numa velocidade muito menor na sua digitalização de atividades, do que efetivamente poderiam. Com a pandemia, a economia foi obrigada a se transformar no digital. Eu creio que a pergunta seria diferente. Quais se adaptaram e quais, ainda, infelizmente, não estão acompanhando, não se adaptaram para trabalhar digitalmente.

    Por exemplo, sexta-feira passada eu estava conversando com alunos da Universidade Federal (UFSC). São alunos que já estão quase se formando, numa fase de começar a trabalhar e acabam fazendo reunião com profissionais de mercado. Se não me engano, a universidade não está tendo aulas remotas. Não sei se isso é verdade. Mas eu creio que é um absurdo, num lugar em que temos doutores, cientistas, tecnologia, não utilizar a ferramenta publica, gratuita, para fazer a comunicação com os seus alunos. É só para citar um exemplo.

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    Logo que a crise surgiu a Acate lançou um plano estratégico com uma série de eixos para auxiliar empresas que ficaram com dificuldades e promover outras ações. Pode falar sobre esse trabalho?

    - Eu estava na delegação do presidente Bolsonaro que foi aos Estados Unidos (de 7 a 10 de março) apresentar o que estamos trabalhando de inovação em Santa Catarina e no Brasil. Da delegação, mais de 25 pessoas foram infectadas. Eu, graças a Deus, não.

    Eu peguei tudo isso muito no início porque logo que cheguei eu entrei em quarentena. A gente já começou a ligar os alertas desde o início.

    Na primeira semana, ficamos naquela questão de como iríamos fazer para colocar o nosso time trabalhar de forma remota. Começamos a trabalhar isso e lançamos dia 23 de março um plano focado no empreendedor, nas empresas. É o nosso propósito como entidade ajudar os empreendedores de tecnologia, as empresas, o setor. Então, com base nisso, procuramos subdividir o nosso time em sete principais eixos que nós acreditávamos que seria o mais importante para os empreendedores.

    Trabalhamos o eixo financeiro. O que nossas empresas tinham disponíveis no mercado em termos de fundo perdido, financiamento, em bancos de fomento públicos e privados. O que estava à disposição e nós auxiliarmos os associados em como chegar a esse dinheiro.

    O segundo ponto foi o tributário. O que teria que pagar, o que poderia deixar para depois. O terceiro ponto foi a questão trabalhista. Como pode suspender um contrato, demissões. Que tipo de imposto tem que pagar agora ou depois. Como pode antecipar férias ou não.

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    O quarto ponto: nós estávamos muito preocupados com a saúde mental dos empreendedores e colaboradores. Então lançamos uma série de webinars e apresentamos mentores para ajudar esses empreendedores. Através de mentorias de outas áreas estamos vendo o que é possível partilhar com os demais colegas.

    Outro ponto: nosso setor é de inovação, é de tecnologia. Então procuramos agrupar empresas nossas que tenham capacidade de solução e possam ajudar no combate do Covid-19 ou prevenção do mesmo. Conseguimos juntar 58 soluções e estamos ajudando a intermediar as mesmas com diversas instituições mundo afora que estão querendo buscar soluções e estão ajudando a financiá-las.

    Também procuramos ajudar nossas empresas a se reinventar, ir ao mercado nesse momento através das verticais e também renegociar com os grandes fornecedores do setor, que são os que fornecem a infraestrutura de nuvem e ferramentas que ajudam amenizar esses impactos financeiros nos próximos tempos.

    Vocês já iniciaram uma segunda etapa desse projeto. Como está evoluindo isso?

    Nós lançamos agora uma segunda etapa desse plano com quatro eixos complementares. O primeiro deles está relacionado a gente trabalhar e ajudar alguns colaboradores que foram dispensados de algumas empresas a se recolocarem em outras. Também estamos ajudando cada uma das empresas do setor que tiveram um impacto severo com essa crise.

    Estamos trabalhando a partir do Link Lab, no Link Lab Reinvente, para ajudar as nossas corporates a fim de que elas possam se reinventar a partir dessa crise. E, por último, estamos ajudando numa campanha do Vai para o digital, onde diversas empresas da área estão procurando oferecer soluções de forma gratuita ou por baixo custo para que ajude setores da economia a ir para o digital. É uma iniciativa do nosso polo de Blumenau que estamos procurando estender para todo o Estado. Nos concentramos nesses quatro eixos para essa nova fase do plano.

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    Como o coronavírus está impactando as receitas do setor?

    Como qualquer setor industrial, qualquer segmento da economia temos uma parcela das empresas que está sendo afetada, sim. É tudo uma cadeia. O teu cliente acaba não recebendo, vai pedir postergação de pagamento e assim por diante. Então, temos uma série de empresas que estão sofrendo, pedindo postergação de pagamentos, suspensão.

    É obvio que temos empresas que estão sendo beneficiadas, mas isso é algo que, no meu ponto de vista, não tange somente a tecnologia. Assim como uma empresa de delivery de vinhos está sendo beneficiada, um restaurante não está. Na tecnologia, temos empresas que trabalham com setores que estão em lockdown, fechados, e outras que atuam na área de conectividade, obviamente essas empresas estão em alta hoje.

    Quanto às medidas de ajuda do governo, especificamente as lançadas para salvar empregos, o senhor achou que chegaram na hora, o setor está conseguindo utilizar?

    Eu não quero levar para o lado negativo, penso que foi tomada uma série de medidas pelo governo. Alguns pontos, talvez, agente devesse melhorar. A questão da insegurança jurídica.

    Infelizmente, quando veio aquela decisão em que poderia colocar em suspensão, conceder férias, logo veio a decisão do STF de que isso teria que passar por sindicatos. Aquilo foi um retrocesso, gerou uma insegurança jurídica e, no nosso setor pelo menos, muita gente, infelizmente, perdeu o emprego porque na dúvida, na insegurança jurídica, as pessoas optaram por demitir.

    Na área financeira, nossa crítica vai no sentido de que apesar de termos uma série de programas para quem está buscando dinheiro, infelizmente algumas instituições ainda estão sendo muito burocráticas, estão trazendo metodologias que não se aplicam ao nosso segmento, tornando a obtenção desse dinheiro muito difícil ou até impossível pela burocracia e quantidade de garantia que pedem. Temos excelentes exemplos positivos, porém alguns precisam ser ajustados, necessitam diminuir a burocracia.

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    Como as empresas devem se aperfeiçoar em tecnologia para garantir eficiência no home office? (Pergunta da telespectadora Tamires Guerreiro)

    Eu confesso, Tamires, que eu, Daniel, era preconceituoso um pouco com trabalho remoto, apesar de ser da área de tecnologia. Pela necessidade, agora, acho que todos tiveram que se reinventar. A reinvenção não é simplesmente no que tange às ferramentas tecnológicas que você está utilizando. Hoje, existe uma série de ferramentas que podem ser utilizadas. E você vai ter que se adaptar os seus controles, a sua gestão como empresa. Como você vai cobrar as pessoas, gerir as pessoas. A ferramenta é uma parte só da questão. Há toda uma educação sobre como ser produtivo em casa, como controlar as pessoas. Muitos têm o sonho de trabalhar em casa, mas eu tenho visto também muita gente louca para voltar a trabalhar na empresa, de dar uma saída, de conversar de forma não virtual com os amigos. Eu creio que as ferramentas são só uma parte e a gente precisa trocar a forma como a gente pensa, como a gente gera os negócios para poder se adaptar a esse tempo e ser produtivo.

    Como utilizar a tecnologia para ampliar as possibilidades de trabalho na quarentena? (Pergunta da telespectadora Isabel Muniz Lima)

    Eu posso citar algo que a partir da pandemia veio para ficar e amplia o leque de trabalho de profissionais da saúde, de médicos, por exemplo. A tecnologia acelerou o processo da telemedicina. Isso dá uma amplitude maior sobre como as pessoas podem ser atendidas, como chegar a rincões do nosso país, do nosso Estado. Vai democratizar o conhecimento e o atendimento. A telemedicina é um exemplo de forma de ampliar as possibilidades econômicas a partir de uma tecnologia.

    Que outras tecnologias vieram para ficar depois que essa pandemia passar, na sua opinião?

    Hoje, nós como cidadãos estamos buscando muitos serviços de delivery. Desde contatar o açougue, entrega de peixes e outros. Eu acredito que essas empresas que estão prestando esses serviços que chamamos de digital, que são bons serviços, vão permanecer no mercado. As pessoas que hoje se utilizam desses serviços vão continuar comprando pelo digital, por isso vieram para ficar.

    Eu creio também que haverá um repensar muito grande nos espaços de trabalho. As pessoas não vão ficar mais 100% nos escritórios. Isso vai ser mais híbrido, vai afetar de uma forma brutal o setor imobiliário. Os escritórios terão espaço arquitetônico diferente. Não será necessário um espaço para todos os colaboradores. O comércio também vai ser muito impactado. Eu penso que os espaços das lojas de onde as pessoas vão comprar, vão mudar também a configuração. As pessoas vão comprar mais online. A compra vai ser mais híbrida e mais online no meu ponto de vista.

    Como as startups estão sentindo a crise e que conselhos o senhor dá para essas empresas?

    As startups tiveram um grande boom nos últimos anos, houve uma grande vontade das pessoas de criar empresas. Eu penso que, com a crise, com essa pandemia, vai ter um grande filtro. Eu penso que o ser humano está mudando um pouco agora, deixando de lado as coisas mais superficiais, os mimimis, reclamações de coisas não tão relevantes e isso também impacta diretamente as empresas.

    Por isso as empresas que têm um propósito forte, para resolver problemas efetivos da sociedade, vão sobreviver e vão prosperar. Agora, empresas que de uma forma ou de outra tinham soluções complementares ou secundárias vão ter mais dificuldades. As startups que têm propósitos fortes vão sobreviver. Agora, aquelas secundárias terão mais dificuldades.

    Isso porque estamos numa onda de simplicidade, de voltar para o básico, de consumir aquilo que realmente é importante, aquilo que realmente faz diferença na nossa vida, aquilo que a gente precisa. O amanhã está muito incerto.

    Então, o recado que eu deixaria para as startups, para as empresas, é que elas revisitem o seu propósito, o motivo da sua existência, verifiquem, com muita força, em que vocês estão ajudando o mundo, a sociedade, em que estão fazendo a diferença. Se vocês tiverem isso de uma forma muito clara, muito forte, vocês vão sobreviver. Mas as que tiverem dúvida sobre isso, a situação vai ficar mais difícil.

    Como o senhor vê o setor de tecnologia pós-pandemia?

    Eu tenho conversado com cientistas, com empreendedores do mundo inteiro. A gente tem que se preparar para um longo período de recuperação. Não adianta passar uma mensagem irreal, de que as coisas serão resolvidas em junho. Temos que nos preparar para um período muito maior do que o nosso inverno. No mundo, podemos ter uma instabilidade muito grande, de retornos da economia, novos lockdowns, por um período de pelo menos um ano e meio a dois anos, até que o Brasil e o mundo tenham acesso a uma vacina.

    Eu penso que a gente precisa se preparar para isso. O setor de tecnologia precisa se adaptar. Alguns setores vão demorar anos para se recuperar, como os de aviação e turismo. Eu deixo a mensagem para que as pessoas se preparem de forma otimista, mas se prepararem para um ‘inverno’ longo. Teremos que continuar com novas formas de nos relacionar porque não há uma forma de retomar o antigo normal tão breve.

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