(Foto: Felipe Carneiro, DC)
O presidente da terceira maior agroindústria de carnes do país, a Coopercentral Aurora Alimentos, Mário Lanznaster, é a primeira liderança cooperativista e do Oeste a ser reconhecido com o principal prêmio do setor empresarial catarinense, o Personalidade de Vendas ADVB-SC, resultado de uma ampla eleição. Engenheiro agrônomo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e também produtor rural, ele ficou feliz com o reconhecimento que receberá dia 12 de junho, em evento em Chapecó. Mas os negócios preocupam. Em entrevista exclusiva à coluna, falou sobre a difícil situação do setor de carnes. Disse que a Aurora definiu férias coletivas para duas unidades de aves e vai incluir mais uma devido ao embargo europeu. Para a carne suína, o mercado vai melhorar em breve, falou.
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Como o senhor recebe a homenagem da ADVB/SC?
Com muita gratidão. Fico feliz porque vejo Santa Catarina reconhecer o trabalho que se faz há mais de 50 anos. Vejo que o cooperativismo está se projetando bem, crescendo. É um reconhecimento também ao Oeste de Santa Catarina que precisa de mais atenção do governo do Estado, precisa de mais infraestrutura, principalmente de rodovias. Necessitamos de uma solução urgentíssima para a BR-282. Pode ser pedágio.
A Aurora é um dos grupos fortes do agronegócio brasileiro. Como ela começou e chegou ao momento atual?
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A Aurora começou pequenina em 1969. Abatia 200 suínos por dia. Não abatia frango, não operava com leite e não tinha peixe. Hoje é diferente. Há 30 anos atua com frangos e abate 1 milhão por dia. Tem leite há 12 anos, recebe e industrializa 1,5 milhão de litros por dia e no caso do peixe, estamos gostando do sabor na mesa. Estamos aprendendo a lidar com esse bixo. Quando é muito frio, é possível aquecer a água onde ele vive (a tilápia). São novas tecnologias. Depois que nós aprendermos, vamos recomendar aos agricultores. O peixe que a Aurora lançou no mercado vem do Paraná.
Como está a agropecuária de SC?
Quem produz grãos está ganhando dinheiro, quem produz carne não. O pessoal do grão deve continuar usando tecnologias. Quando eu trabalhava no município de Modelo, a produção de milho era de 60 sacas por hectare. Hoje chega até a 200 por hectare ou mais. A produtividade subiu muito em Santa Catarina. Isso deve ser aproveitado. Já os produtores de carne estão sofrendo. Os segmentos de suínos e aves enfrentam dificuldades, mas o leite está se recuperando. Também com dólar a R$ 3,60 vale a pena importar leite em pó? Não. Por isso o preço do leite subiu e vai subir ainda mais.
O setor de carnes enfrenta uma crise desde a Operação Carne Fraca. Quando isso vai passar?
Se um país já está anunciando que vai comprar carne suína de Santa Catarina (a Coreia do Sul anunciou a abertura do seu mercado), a Rússia voltará a comprar, eu acho que, no caso de carne suína as vendas vão começar a melhorar. A situação do frango vai demorar um pouco mais para reverter, mas acho que no ano que vem será melhor.
Quando a Europa voltará a comprar frango das unidades suspensas, na sua opinião?
Eu acho que este ano a Europa não voltará a comprar das unidades suspensas. Se você olhar, quantas pessoas estão entrando na Europa. Eles vêm da África, Síria. Você acha que vai ter emprego para todo mundo? Vão colocar eles no Leste Europeu para produzir frango e atender a Europa. Vão comprar milho e soja do Brasil. Vão ser competitivos com o nosso milho e a nossa soja. Assim como a Tailândia que está se recuperando bem na área de frango. Vamos ter dificuldades a mais. Alguns países precisam comprar mais. Precisamos fazer mais acordos comerciais para importar mais de alguns países e eles comprarem nossa carne. Temos um mercado muito fechado.
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As empresas BRF e JBS tiveram problemas com a Justiça e a Aurora não. Isso gerou mais negócios para vocês?
Não gerou mais negócios. Enfrentamos o mesmo problema na Operação Carne Fraca porque os laboratórios que certificavam as carnes para a BRF e JBS eram os mesmos que analisavam para nós. Também tivemos que deixar de vender para a Europa e estamos recebendo contêineres de frango de volta (49 já foram devolvidos e o total pode chegar a 60). Três unidades da Aurora foram descredenciadas para vendas à Europa, as de Maravilha, Quilombo e Xaxim (por isso a empresa definiu férias coletivas para as unidades de Abelardo Luz em junho, de Guatambu em julho e outra também deve ser incluída na medida).
Como a Aurora trata a questão ética, o cumprimento de normas de qualidade?
A direção da empresa sempre orienta o seguinte: se tem algum problema no produto, ele vai fora, é dado um destino correto. Todos os procedimentos devem ser corretos porque temos que respeitar muito o consumidor. Ninguém, na Aurora, jamais recebeu orientação para fazer alguma coisa errada. O diretor industrial sou eu. Jamais recomendei alguém fazer alguma coisa errada para ganhar dinheiro. Isso não existe. Temos uma marca a preservar. A cooperativa não é minha, é dos agricultores. A Aurora tem 70 mil associados. Desses, são 3,2 mil suinocultores, 3,5 mil avicultores e 6 mil produtores de leite.
A que o senhor atribui o êxito da Aurora no mercado?
A fidelidade que a Aurora tem com os seus clientes, o garoto-propaganda Guga, a Chapecoense. Existe futebol bom em Santa Catarina, mas o melhor está em Chapecó. O Avaí, o Figueira, o Joinville e o Criciúma que nos respeitem. O Guga é muito querido, muito bacana. Ele esteve conosco na Apas, a feira de supermercadistas de São Paulo. Quando eu via todo aquele povo parando na frente do estande da Aurora para ver o Guga eu pensava: e se aparece um político? Ele é muito querido, de uma família exemplar.
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Qual é o cenário futuro para as carnes brasileiras?
O potencial do Brasil é grande, tanto a produção quanto o consumo vão crescer. No caso de carne suína, na Alemanha o consumo per capita é superior a 40 quilos por ano. Nos Estados Unidos também. No Brasil são 15 quilos. Muita gente diz que não come carne suína, mas come presunto, que é feito de carne suína. O Brasil tem um potencial fantástico. Se o consumo de carne suína subisse para 20 quilos per capita, não teríamos produto suficiente. Aqui no Sul e em Minas Gerais, consomem bem, mas há regiões onde as pessoas acham que pode fazer mal à saúde. Se for carne inspecionada, não faz mal.
A sua trajetória não é muito comum. O senhor quase foi padre e lidera um grande grupo. Que lições aprendeu no seminário e adota na vida?
Eu tive vários mentores no seminário em Salete e Brusque. Nós tínhamos que trabalhar lá. Eu fui camareiro do bispo Dom Tito Buss, reitor do seminário. Eles viam na gente uma pessoa correta. Tinha colega que pedia para espiar provas que seriam aplicadas no final do ano. Eu nunca olhei, nunca tive nem tentação porque não é correto. Eu continuo assim até hoje. O que é meu é meu, o que é dos outros é dos outros.
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