O criador da sigla ESG na Organização das Nações Unidas (ONU) e financista internacional voltado a negócios sustentáveis, Paul Clements-Hunt, afirmou durante o 6º Summit Cidades, em Florianópolis, dia 24 de junho, que fundos de pensão e outras instituições internacionais têm US$ 130 trilhões (o equivalente a R$ 677 trilhões) para investir em projetos sustentáveis no mundo. Em entrevista exclusiva para o portal NSC Total, ele afirmou que Santa Catarina e o Brasil podem atrair parte desses recursos, inclusive para obras de infraestrutura, desde que sejam projetos voltados à preservação ambiental.
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De acordo com Hunt, a Via Mar, nova rodovia lançada pelo governo estadual, pode atrair esse tipo de capital se usar no seu processo construtivo matérias-primas e serviços que, comprovadamente, reduzem impactos ambientais.

O empresário e palestrante, que nasceu em Liverpool, no Norte da Inglaterra e iniciou a carreira como jornalista, disse que veio ao Brasil mais de uma dezena de vezes nos últimos 26 anos porque vê no país um grande potencial para economia sustentável.
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Na opinião dele, Santa Catarina pode ser referência em sustentabilidade e ampliar a atração de investimentos com esse foco por ter indústrias e agronegócio que são referências nessa área. O setor público local também pode avançar em projetos sustentáveis. Saiba mais sobre o pensamento de Hunt na entrevista a seguir:
O senhor é o criador da sigla ESG. Como surgiu esse conceito? E, passados quase 20 anos, como o senhor avalia a adesão das empresas ao ESG?
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– Vou dar três respostas para essa grande pergunta, mas tentarei ser relativamente breve. A origem do ESG remonta aos anos 1990. Naquela época, investimentos em meio ambiente, biodiversidade e questões sociais ainda eram vistos como algo periférico. O que fizemos com o ESG foi pegar esse conceito e torná-lo aceitável para os maiores investidores do mundo: fundos de pensão, fundos soberanos e grandes gestores de ativos.
Nosso objetivo era garantir que os maiores volumes de capital começassem a fluir para questões ambientais e sociais. Mas esses investidores fariam isso por razões de negócios: para obter lucro e administrar riscos, e não por motivações éticas. Esse é o primeiro ponto.
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O segundo ponto é que fui jornalista nos anos 1980, profissão da qual gostei muito. Mas concentrei meu trabalho em questões de desenvolvimento sustentável e meio ambiente. Depois deixei o jornalismo e fundei uma empresa em Bangkok, na Tailândia, chamada The Environmental Business Group. A razão para isso era simples: a Tailândia enfrentava graves problemas de poluição, forte desigualdade social e havia perdido grande parte de suas florestas.
Nossa empresa trabalhava com organizações para ajudá-las a compreender não apenas os riscos da poluição e das mudanças climáticas, mas também onde poderiam gerar lucro a partir dessas transformações. Esse foi o segundo passo, e foi essa jornada que acabou levando à ideia do ESG.
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Depois de dez anos no setor privado, ingressei nas Nações Unidas, onde construímos uma parceria entre a ONU, bancos, financiadores e gestores de investimentos. Muitos bancos brasileiros aderiram fortemente a essa iniciativa, muito em função da Cúpula da Terra, realizada no Rio de Janeiro em 1992. Entre eles estavam o Banco Itaú, o ABN Amro, o Banco Real, fundos de pensão como a Previ e o BNDES. Todos apoiaram essa parceria com as Nações Unidas.
Foi nesse momento que decidimos desenvolver o conceito de ESG e levá-lo ao mercado financeiro. Na época, o secretário-geral da ONU era Kofi Annan, que apoiou fortemente a iniciativa. Foi assim que lançamos um framework chamado Princípios para o Investimento Responsável.
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No dia do lançamento, em 2006, e a Previ foi uma das instituições fundadoras, já contávamos com US$ 4 trilhões em ativos comprometidos com esse framework e com essas ideias. Hoje, 20 anos depois, existem cerca de 5.500 fundos de investimento participantes e US$ 130 trilhões, não bilhões, mas trilhões, comprometidos com os princípios do ESG.
Esses investidores compreenderam que é preciso administrar riscos e entender as novas oportunidades que surgem no futuro: energia limpa, infraestrutura sustentável, soluções baseadas na natureza e economia azul, ligada ao uso sustentável dos oceanos. Então, existe hoje um enorme volume de capital, US$ 130 trilhões, procurando oportunidades de investimento nessa direção. Esse é o terceiro ponto.
Como uma empresa adota o ESG e qual é o impacto nos resultados?
– Em termos empresariais, o ESG é, na verdade, algo muito simples. O ESG é uma lente pela qual se observa o mundo. Ao adotá-la, uma empresa passa a compreender melhor seus riscos em um cenário de transformação. Ela entende as mudanças climáticas, os impactos da destruição da natureza e, a partir daí, identifica novas oportunidades de negócios, novas tecnologias e novos mercados capazes de enfrentar esses desafios.
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Vinte anos após sua criação, o ESG está no centro daquilo que será um novo mercado global. Esse movimento está chegando rapidamente. Portanto, qualquer empresa que queira fazer parte do futuro, e não do passado, deve utilizar o ESG como uma ferramenta estratégica. É preciso que a liderança tenha uma visão clara e leve essa visão para toda a organização.
O ESG continua sendo uma ferramenta extremamente poderosa. E, principalmente, ajuda a atrair investidores. E há um exemplo interessante no Brasil.
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Dom Pedro II promoveu o reflorestamento da região do Rio de Janeiro para recuperar o abastecimento de água da cidade. A Floresta da Tijuca, no centro do Rio de Janeiro, foi replantada pelo governo imperial justamente porque era necessário garantir água para a população. Isso é um exemplo histórico de sustentabilidade. Aconteceu há cerca de 150 anos, e há muitos outros casos semelhantes ao redor do mundo.
Muitas pessoas criticam o ESG, dizendo que empresas que adotam esses princípios obtêm menos lucro ou menor retorno financeiro. Isso está errado. Hoje, globalmente, existem US$ 33,9 trilhões investidos em ativos ligados ao ESG. Os retornos financeiros demonstram claramente que investir em ESG gera desempenho superior. Estamos falando de US$ 33 trilhões investidos globalmente. Isso envia um sinal muito forte ao mercado.
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Então, para atrair esse dinheiro, é preciso desenvolver projetos alinhados com ESG?
– É uma combinação de fatores. Precisamos de empresas inovadoras desenvolvendo novas tecnologias para enfrentar as mudanças climáticas, ampliar a energia limpa, proteger as florestas, conservar a natureza e melhorar o uso sustentável dos oceanos. Esse é o primeiro nível: o empresarial.
Depois, precisamos de fundos capazes de receber investimentos dos grandes investidores institucionais (fundos de pensão, fundos familiares e outros). Esse novo ecossistema está sendo construído e levou cerca de vinte anos para amadurecer.
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Uma das principais mudanças é que, hoje, todos falam sobre mudanças climáticas e mercado de carbono, especialmente sobre créditos e compensações de carbono. Esse ainda é o mercado atual, mas, nos próximos cinco a dez anos, veremos um mercado de carbono completamente diferente.
Ele será baseado em ativos financeiros, em novas famílias de produtos, e deixará de depender exclusivamente de créditos e compensações de carbono. A razão para isso é que o mercado financeiro tradicional está começando a compreender que é possível ganhar mais dinheiro protegendo o planeta do que simplesmente extraindo seus recursos. Essa transformação já está acontecendo nos mercados de capitais.
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Explique um pouco o conceito da The Blended Capital Group, sua empresa atual. Qual é o modelo de atuação dela?
– Fundei a Blended Capital em 2012. Portanto, a empresa existe há cerca de 14 anos. Somos uma empresa pequena, formada por seis sócios, mas atuamos globalmente. Trabalhamos com governos, empresas e mercados de capitais.
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Em termos de atividades, prestamos consultoria, principalmente em temas relacionados à complexidade do ESG. Além da consultoria, os sócios também fazem investimentos. Não somos um fundo de investimentos, mas investimos diretamente em empresas.
Por exemplo, investimos em um projeto de energia limpa na África que passou de zero atendimento para fornecer eletricidade a 60 mil famílias no leste do Quênia. Buscamos negócios em que haja convergência entre tecnologia, soluções digitais, pagamentos móveis e impacto social, gerando benefícios concretos para as comunidades.
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Também desenvolvemos muitos projetos em comunidades rurais, agrícolas e pesqueiras, levando saneamento, energia limpa e melhores condições de saúde. São iniciativas que geram impacto social, mas também são negócios lucrativos.
Portanto, a Blended Capital presta consultoria estratégica para governos e formulação de políticas públicas, mas também busca investir em empresas inovadoras, capazes de crescer e gerar impacto global. Como exemplo, posso citar o projeto desenvolvido na África, chamado Nuru, palavra que significa “luz” em suaíli.
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Recentemente trouxemos esse mesmo modelo de negócios para o Brasil. Estamos trabalhando no desenvolvimento de soluções de energia solar associadas a sistemas de saneamento para comunidades que ainda não possuem acesso adequado à infraestrutura.
Essas comunidades precisam tanto de saneamento quanto de energia limpa e, muitas vezes, estão fora das redes convencionais de atendimento. São modelos capazes de melhorar significativamente a qualidade de vida das pessoas e, ao mesmo tempo, gerar retorno financeiro.
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O senhor destacou a existência de US$ 130 trilhões disponíveis para investimentos sustentáveis. Que tipo de projetos o Brasil poderia desenvolver para atrair um pouco desse capital?
– Para os grandes fundos de investimento, existem duas áreas principais. A primeira é infraestrutura: portos, ferrovias, rodovias e grandes obras, onde existe escala suficiente para atrair grandes investidores. O diferencial é incorporar a descarbonização desde a fase de planejamento da infraestrutura. Antes mesmo da construção, é possível reduzir a pegada de carbono do projeto.
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Existe muito trabalho sendo desenvolvido, por exemplo, em portos. Não basta construir instalações mais eficientes e que consumam menos energia. Também é importante considerar os materiais utilizados, como concreto e aço. Se esses materiais forem produzidos com baixa emissão de carbono, toda a infraestrutura se torna mais sustentável.
Além disso, essa redução de emissões poderá gerar receitas futuras dentro dos mercados de carbono.Entrando em um aspecto um pouco mais técnico, nos últimos dez anos os governos do mundo desenvolveram mecanismos internacionais para estruturar esse mercado.
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Estou falando dos ITMOs (Internationally Transferred Mitigation Outcomes), previstos no Artigo 6.2 do Acordo de Paris. Esse é o mecanismo que permitirá que investidores privados e empresas comercializem grandes volumes de reduções de carbono dentro de um sistema coordenado pelos governos. É isso que permitirá que o fluxo financeiro para os mercados de carbono passe de bilhões para trilhões de dólares.
Esse mecanismo dos ITMOs já está em funcionamento?
– Essa transformação deverá ocorrer ao longo da próxima década. Muitas pessoas desconhecem esse processo, mas ele se aplica tanto à infraestrutura quanto à agricultura e às florestas. Estamos assistindo ao nascimento de um mercado de carbono completamente novo, no qual investidores tradicionais poderão obter retornos financeiros relevantes, enquanto as empresas também aumentarão sua lucratividade.
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Em outras palavras, planejar a descarbonização de uma obra de infraestrutura ou de um projeto agrícola deixará de ser apenas uma questão ambiental. Também será uma forma de gerar receita. Esse processo já começou. Ainda é pouco conhecido e depende bastante da atuação dos governos, mas é exatamente esse tipo de iniciativa que queremos desenvolver no Brasil.
Estamos analisando alguns grandes projetos de infraestrutura e propondo que o conceito dos ITMOs seja incorporado desde a modelagem financeira. Isso permitirá reduzir o custo do capital e aumentar os retornos financeiros à medida que os novos mercados de carbono se consolidarem. Trata-se de um desenvolvimento completamente novo.
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Hoje, em Santa Catarina, existe uma rodovia entre Florianópolis e Curitiba bastante congestionada, a BR-101. O governo estadual lançou o projeto para uma rodovia paralela. Para atrair recursos desses fundos, talvez fosse melhor investir em uma ferrovia do que em uma nova rodovia?
– Essa é uma possibilidade: substituir parte do investimento rodoviário por infraestrutura ferroviária. Mas existe outra alternativa. Também é possível construir uma rodovia de forma muito mais eficiente e inteligente. Os materiais utilizados podem ter menor pegada de carbono. E digo isso porque conheço razoavelmente bem o Brasil. Nos últimos três anos fiz 16 viagens ao país justamente para tratar dessas questões.
O Brasil precisa tanto de ferrovias quanto de rodovias. É uma economia extraordinariamente dinâmica, com uma agricultura forte, enorme riqueza mineral e praticamente tudo aquilo de que o mundo precisa.
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Por isso, ao investir em infraestrutura, seja em rodovias, ferrovias ou outros sistemas de mobilidade, é possível incorporar soluções mais inteligentes: utilizar materiais de menor emissão, descarbonizar a construção, planejar melhor os projetos e aumentar a eficiência no uso dos recursos.
Quando isso é feito, esses benefícios podem ser incorporados ao modelo financeiro do empreendimento. Assim, o projeto começa a gerar retorno econômico também pelos benefícios climáticos. É dessa forma que o novo mercado climático deverá evoluir.
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Uma infraestrutura mais limpa será mais barata ao longo do tempo e poderá gerar ganhos financeiros em cinco ou dez anos, praticamente dois ciclos de investimentos. Tudo isso é resultado de cerca de 30 anos de trabalho dos governos para construir um mercado internacional de carbono.
Então esse projeto da Via Mar em Santa Catarina poderia receber esses investimentos?
– Sim, acredito que seja um excelente exemplo. Se eu tivesse que resumir, diria o seguinte: qualquer projeto de infraestrutura ou de engenharia pode utilizar metodologias já existentes para reduzir emissões e, ao mesmo tempo, gerar receitas por meio dos mercados de carbono.
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Se perguntarmos a qualquer governo se ele gostaria de reduzir seu custo de capital, a resposta será sempre “sim”. Se esse resultado puder ser obtido apenas planejando de maneira um pouco diferente, utilizando materiais mais eficientes e, ainda, gerando benefícios fiscais e financeiros, por que não o fazer? Esse ainda é um processo de aprendizagem para políticos e gestores públicos. Mas toda essa infraestrutura inteligente já existe. E os grandes investidores estão procurando exatamente esse tipo de projeto.
Os fundos soberanos são um excelente exemplo. Existem cerca de 100 fundos soberanos no mundo. Eles administram aproximadamente US$ 14 trilhões. Alguns fundos do Oriente Médio sequer analisam projetos inferiores a US$ 500 milhões.
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Todos eles procuram investimentos em infraestrutura de baixo carbono. Esses fundos querem investir em iniciativas que funcionem para o planeta. No Oriente Médio, por exemplo, há a Abu Dhabi Investment Authority. Existe também a Kuwait Investment Authority. Em Singapura, há a Temasek e a GIC. Na Nova Zelândia existe o New Zealand Super Fund.
Essas instituições administram enormes volumes de recursos e procuram ativamente projetos climáticos capazes de receber investimentos. Ou seja, já temos o conhecimento técnico, temos o dinheiro disponível e temos políticos brasileiros que conhecem o tema da sustentabilidade desde a Rio-92.
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Uma das discussões que estamos tendo é justamente como Santa Catarina pode se tornar um porto seguro para capital internacional. Na sua opinião, pode ser?
– Acredito que o estado reúne todas as condições para isso. Possui uma economia dinâmica, indústria forte, florestas, agricultura, empresas como a WEG, grandes indústrias e uma excelente reputação. Além disso, está entre os estados com maior Índice de Desenvolvimento Humano do Brasil.
Quanto mais Santa Catarina incorporar o ESG em nível sistêmico, com boa governança, preocupação social e responsabilidade ambiental, mais forte será sua posição. O ESG passa a ser uma espécie de bandeira do Estado.
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A mensagem torna-se clara: “Santa Catarina é um excelente lugar para fazer negócios, atrair investimentos e, ao mesmo tempo, considera o clima e o meio ambiente em tudo o que faz.” Cada rodovia, cada ferrovia e toda a infraestrutura logística, inclusive a integração com os demais estados e com o Mercosul, podem transmitir essa mensagem. É isso que atrai investidores internacionais.
Em Florianópolis, sua agenda inclui reunião com o prefeito Topázio Neto. O que o senhor dirá a ele sobre investimentos?
– Os líderes públicos precisam construir uma narrativa baseada na realidade. Se acreditam que o ESG ajuda a atrair investimentos, então cada projeto de infraestrutura deve começar perguntando: “Como aplicaremos os princípios do ESG desde o planejamento?” Depois disso, basta incorporar essas práticas ao funcionamento normal da administração.
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É preciso construir uma narrativa consistente, criar um histórico de resultados e dialogar diretamente com os grandes investidores. Santa Catarina pode se posicionar como uma referência para a América Latina, assim como Singapura se tornou uma referência para a Ásia.
Singapura soube vender muito bem essa imagem?
– Exatamente. Os fundos sofrem pressão crescente para reduzir seus riscos climáticos e a intensidade de carbono de seus investimentos. Se um estado consegue contar uma história consistente, mostrando que acredita no desenvolvimento sustentável, que incorpora esses princípios ao planejamento estratégico, para infraestrutura e para políticas públicas, essa narrativa se torna extremamente poderosa.
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Isso não significa simplesmente dizer que todos são “verdes”. Significa demonstrar inteligência estratégica, visão de futuro e preocupação com resiliência. O Sul do Brasil sofreu grandes desastres climáticos recentemente. Portanto, faz sentido construir uma infraestrutura preparada para enfrentar esses eventos e proteger a população. Esse é um argumento muito forte para investidores de grande porte.
Talvez seja também uma questão de comunicar melhor aquilo que Santa Catarina já faz. Tem legislação ambiental, exige licenciamento e diversas práticas sustentáveis, mas talvez não saiba, ainda, vender isso adequadamente.
– Concordo. É uma combinação entre comunicação e resultados concretos. A narrativa deve refletir aquilo que realmente está sendo feito. A pior coisa que um governo pode fazer é praticar o chamado greenwashing: contar uma história verde sem entregar resultados. Os investidores simplesmente irão embora. Mas quando existe uma liderança com visão empresarial, surge uma oportunidade interessante.
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O governo municipal e o governo estadual podem construir juntos essa narrativa.A mensagem pode ser clara: “Santa Catarina quer ser uma referência em ESG para a América Latina.” Mas isso precisa aparecer também no planejamento da infraestrutura, na agricultura regenerativa e em todas as políticas públicas. É preciso transformar essa narrativa em realidade.
O que mais o senhor poderia falar sobre esse tema?
– Gostaria apenas de acrescentar um ponto. Assim como disse anteriormente sobre créditos e compensações de carbono, acredito que, nos próximos dez anos, surgirá uma nova família de produtos financeiros. Serão investimentos voltados à regeneração ambiental.
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Esses novos produtos gerarão retorno financeiro por meio da captura de carbono, da conservação da biodiversidade e da regeneração dos ecossistemas. Esse movimento já começou. Ainda é necessário estudar bastante para compreender sua dimensão, mas ele já está acontecendo nos mercados financeiros.
Santa Catarina poderia se tornar uma espécie de capital do ESG na América Latina? Ser uma referência para cidades, estados e países?
– Sim. O estado tem um extenso litoral, possui um patrimônio ambiental extraordinário e pode se tornar uma referência para receber investimentos ligados ao ESG. Poderia servir de exemplo para outras regiões do Brasil e da América Latina. Isso representa uma oportunidade econômica extremamente interessante.
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Há outro tema importante para Florianópolis. A cidade deseja atrair mais investimentos para o setor de tecnologia da informação. Esse capital disponível no mundo também pode financiar tecnologia de forma mais ampla? Como conectar esse ecossistema tecnológico aos investimentos ESG?
– A tecnologia, incluindo inteligência artificial e soluções digitais, é absolutamente fundamental para tornar a sustentabilidade uma realidade. Posso citar o exemplo de um empreendedor de São Paulo que desenvolveu uma plataforma de abastecimento com padrão mundial em sustentabilidade. É um negócio extraordinário. Esse é um exemplo claro da combinação entre tecnologia e conhecimento digital.
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Ao mesmo tempo, estamos trabalhando com uma empresa neozelandesa de bioflorestas cuja tecnologia está sendo trazida ao Brasil por investidores do Espírito Santo para implantação de diferentes unidades no país. Vivemos uma verdadeira explosão de tecnologias voltadas ao clima e à natureza. Ao mesmo tempo, a revolução digital tornou muito mais fácil monitorar, medir e comprovar resultados ambientais.
De que forma? O senhor pode dar um exemplo?
– Vou contar uma história curiosa. Há cerca de três anos, fui procurado pela Polícia Federal brasileira. Um agente me abordou dizendo: “O senhor é quem criou o ESG. Gostaríamos que viesse ao Brasil para conversar conosco.” Fiquei bastante surpreso. Eles estavam utilizando sistemas avançados de monitoramento por satélite da Amazônia.
As imagens já possuem resolução próxima de 30 centímetros. Inicialmente, esses sistemas eram usados para monitorar o desmatamento, mas hoje também identificam mineração ilegal, tráfico de pessoas e situações de trabalho escravo, todos temas relacionados ao componente social do ESG.
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Quando uma instituição policial desenvolve sistemas de monitoramento baseados em conceitos de ESG, isso demonstra como tecnologia, sustentabilidade e governança estão convergindo. Essa experiência aconteceu há cerca de três anos, quando fui convidado por integrantes da Polícia Federal.
É um excelente exemplo de como satélites, tecnologia e ESG podem trabalhar juntos para resolver problemas concretos. Mas essa mesma criatividade também está presente no empreendedor brasileiro. E isso não é coincidência. O conceito moderno de desenvolvimento sustentável surgiu em 1987, com o relatório liderado pela então primeira-ministra da Noruega, Gro Harlem Brundtland.
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Depois veio a Conferência do Rio, em 1992. Desde então, sempre tive a impressão de que algo muito especial foi plantado no Brasil. Os empresários brasileiros sempre demonstraram grande abertura ao desenvolvimento sustentável. Hoje vemos uma nova geração de empreendedores desenvolvendo soluções inovadoras. O Brasil já desenvolvia tecnologias como o etanol e programas de energia limpa décadas antes de esses temas ganharem destaque mundial.
Então o Brasil já pode ser considerado um país campeão em ESG?
– Exatamente. Vejamos os fatos. O Brasil possui mais de 213 milhões de habitantes, dimensão continental, segurança alimentar, energia limpa, minerais estratégicos, população jovem e uma das maiores reservas florestais do planeta. Naturalmente enfrenta desafios, como qualquer país, mas possui ativos extraordinários.
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Além disso, mantém saldo positivo de carbono, o que poderá representar uma enorme vantagem quando os mercados internacionais ligados aos ITMOs estiverem plenamente consolidados. O Brasil ocupa uma posição extremamente favorável em comparação com muitos outros países.
Visitei o Brasil pela primeira vez há cerca de 26 anos. E por que decidi voltar a investir no país há três ou quatro anos? Porque procurava um país dinâmico, jovem, que compreendesse sustentabilidade, possuísse abundantes recursos naturais e minerais estratégicos. O Brasil reúne todas essas características.
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