A Marisol, empresa de Jaraguá do Sul com 61 anos de trajetória, informa nesta segunda-feira (19) que acabou de concluir a negociação para liquidação integral de dívida com valor de face de R$ 254,2 milhões. Esse débito era relativo debêntures para compra de 60% das ações da empresa, uma operação de 2012. A série de turbulências em mais de uma década dificultou esse pagamento, que agora foi superado e dá lugar para novo ciclo de expansão considerando negócios atuais e futuros, com mais inovação, informa o CEO da Marisol, Giuliano Donini.

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Forte no mundo da moda infantil, a Marisol é dona de marcas icônicas como Lilica Ripilica, Tigor T. Tigre, Marisol, Mundo Ripilica, Lov’it, Hapier e Pakalolo. Mas a empresa não é restrita ao mundo têxtil. Com as marcas Lilica e Tigor ampliou a oferta incluindo acessórios e foi até para o cinema. A série Mundo Ripilica, com a coala Lilica e a amiga Donna explorando a amizade junto à natureza, foi sucesso na televisão no Brasil e exterior.

Veja foto do CEO Giuliano Donini e mais imagens sobre a Marisol:

Em entrevista exclusiva para o portal NSC Total, Giuliano Donini conta as dificuldades nessa fase de reestruturação quando o Brasil enfrentou dois anos de recessão e a pandemia. E fala do futuro, que tem como destaque plano de crescimento com a expansão das redes de franquias, dos demais negócios, além de diversificação e inovação, como o futuro lançamento de alimentos infantis saudáveis. Confira a entrevista:

Como foi a operação de compra de ações da Marisol em 2012 e por que resultou nesse longo endividamento?

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– Fizemos a compra de ações lá atrás, em 2012, porque nós tínhamos 40% do capital da empresa e 60% estava na bolsa de valores, com investidores. Então, concluímos que sob a lógica da dinâmica empresarial local, no fundo, 60% dos tomadores de decisão da empresa não estavam em Jaraguá do Sul. Estavam no Sudeste do Brasil e isso tornava as decisões da empresa um pouco lentas. Então buscamos uma autonomia plena nas decisões. Só que para fazer a aquisição, tivemos que buscar dinheiro via debêntures no mercado porque não tínhamos capital suficiente.

Mas vieram novos desafios na economia brasileira e aí tivemos que administrar a empresa durante muito tempo com essas questões. Teve a mudança de consumo em 2014 (queda de consumo devido à crise econômica). E depois, em 2020, veio a pandemia, que foi muito dolorido.

Agora, conseguimos liquidar essa dívida que nos pressionou muito porque a conta não era pequena. Quando a gente assumiu essa conta lá atrás, a Selic era completamente diferente do que virou depois. No fundo, virou uma conta financeira bem pesada. Eu gosto de fazer aquela brincadeira de quem tem memória visual. Em 2014 foi quando a revista Time já pôs na capa o Cristo Redentor entrando em parafuso e bicando para baixo no Brasil, fazendo contraponto àquela vez que tinham colocado na capa o Cristo Redentor como um foguete voando, quando teve o subprime americano, o Brasil chamou aquilo de marolinha e passou batido. Mas em 2014, o mercado de consumo no Brasil começou a sentir a crise.

Mas nós não enfrentamos isso em igualdade de condições porque nem todas as empresas estavam com dívida financeira elevada. Isso faz parte da vida empresarial. Só que daí, para nós, veio a pandemia, que consumiu muito caixa das empresas. Mas a Marisol entrou na pandemia sem caixa. Usava o caixa para pagar a dívida que assumiu lá atrás.

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Além disso, tínhamos concentrado toda a produção nossa no estado do Ceará. Com a pandemia, a indústria de Santa Catarina parou 15 dias, definiu protocolos e retornou. A indústria do Ceará parou 73 dias. Nossa operação lá não era paralela, era nossa produção em linha.  Então, não tínhamos onde produzir. Tínhamos pandemia, mercado com restrições, demanda de caixa e, no fundo, estávamos sem fábrica. Depois disso, gradualmente, mudamos o modelo produtivo e transferimos tudo para Santa Catarina.

Na pandemia, vocês tiveram também dificuldades com vendas com as franquias?

– Demasiadamente. Foi muito doído também. Nossas lojas sempre foram satelitais (não âncoras) nos shoppings. Além disso, não estavam preparadas para vendas totalmente on-line. Depois, tivemos a alta de juros, que continua até agora.

Mas com a dívida superada agora, quais serão as atenções da Marisol?

–  Agora que tiramos a pressão da dívida sobre nossa diretoria, esperamos poder nos concentrar absolutamente naquilo que é o clássico do negócio que são os nossos canais de distribuição as nossas marcas, a nossa competitividade. A gente volta a se concentrar nisso e pode voltar a almejar crescimentos mais consistentes e voltar a fazer um ciclo que sempre marcou a história da Marisol, que é de muita inovação. É uma empresa que sempre faz coisas que trazem um certo pioneirismo, um certo ineditismo no setor que a gente atua.

O consumidor voltou ao que era antes, de buscar produtos de maior qualidade, diferenciados?

– Sim! Nos últimos dois anos eles voltaram a procurar mais produtos diferenciados. O mundo das crianças é muito lúdico. Elas têm muitos eventos sociais, que fazem com que as mães arrumem as crianças especialmente. O Natal é uma festa muito lúdica, por exemplo.

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O que vem aí nessa retomada da Marisol?
– Tudo está acontecendo de forma muito intensa. Nós fechamos o acordo para o encerramento das debêntures no dia 19 de dezembro. Então, estamos, inclusive, divulgando essa informação porque ela, agora, precisa começar a circular. A partir do que foi assinado, começam a surgir os próprios desdobramentos, e isso passa a ganhar visibilidade. Essa divulgação também é uma forma de garantirmos que haja pleno entendimento desse movimento que fizemos. Agora, estamos voltando, inclusive, para o próprio planejamento da companhia.

O planejamento era afetado de que forma?
– Nós já tínhamos feito um orçamento antes de tudo isso. O orçamento começou a ser construído lá em outubro do ano passado, e agora estamos, no fundo, reabrindo tudo, porque precisamos voltar à prancheta e projetar tudo de novo. O cenário mudou para melhor, para bem melhor, mas mudou de forma sensível em relação ao que vínhamos fazendo.

Isso porque o fato de existirem debêntures, além do compromisso financeiro, traz junto uma série de regras:  não pode isso, não pode aquilo, só pode fazer determinadas coisas se conversar com o debenturista. Existe, portanto, uma série de travas quando você tem debêntures no mercado.

O que acontece agora, além dessa resolução financeira, é que nos destravamos dessas policies, que acabavam tirando velocidade. Não tiravam autonomia, mas tiravam velocidade, porque havia uma burocracia envolvida. No passado, quando tínhamos acionistas externos, isso tirava, inclusive, autonomia. Nesse caso mais recente, não tirava autonomia, mas tirava velocidade. Então, nós voltamos à condição normal de autonomia e de velocidade. Por isso, precisamos realmente voltar para a prancheta agora e reprojetar o próprio ano a partir desse novo cenário.

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Como a empresa está olhando para o mercado, para aquela mãe que é a consumidora das marcas da Marisol? Como estão as lojas Lilica e Tigor?

A rede de franquias Lilica e Tigor continua firme. Inclusive, está acontecendo agora uma agenda paralela, online, com os franqueados. Isso porque estamos lançando hoje mais uma coleção. No total, são quatro coleções por ano, e hoje estamos lançando mais uma, dando visibilidade para eles justamente neste momento.

Nós fechamos o ano passado com crescimento de vendas nas franquias. Não crescemos muito, foi um crescimento de um dígito na rede, mas, considerando os dados do varejo que estão sendo publicados e que mostram queda, nós crescemos um pouco. Ou seja, fomos contra a curva do varejo.

Esse modelo de franquias será mantido?
– Existe um desafio que é a expansão da rede: voltar a expandir de forma mais acelerada. Hoje são 27 lojas da Lilica e da Tigor e 132 licenciadas da One Store Marisol. Vamos crescer. Esse é um desafio porque estamos estudando, e esse é um dos pontos em que esperamos trazer novidades neste ano, desdobramentos do modelo de franquia que temos hoje.

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Estamos pensando em alguns spin-offs desse modelo, para criar alternativas mais baratas. Uma franquia não é barata. Em números gerais, você precisa de cerca de meio milhão de reais (R$ 500 mil), considerando investimento, capital de giro, estoque, entre outros fatores. Para as condições atuais do mercado, esse é um valor bastante relevante.

Eu fiquei, inclusive, assustado ao ler uma matéria ontem, não sei nem o quanto ela é consistente, que citava uma pesquisa segundo a qual 47% dos brasileiros não sabem exatamente como vão conseguir dinheiro para pagar o IPVA do carro. Não está fácil. Então, obviamente, precisamos nos adaptar a esse cenário mais difícil. Não dá para achar que vamos encontrar um monte de gente por aí com meio milhão de reais no bolso para expandir. Precisamos encontrar outros caminhos para isso. Na rede de franquias, vamos trabalhar mais nessa direção.

Vocês vão oferecer essa franquia de valor maior e uma mais enxuta também? E nessa mais enxuta, seriam Lilica e Tigor, ou você vai oferecer outras marcas?
– O foco é Lilica e Tigor. Estamos olhando para uma versão mais enxuta de Lilica e Tigor e, provavelmente, para uma terceira alternativa, para termos três variantes no mercado, sendo essa última ainda mais econômica, porém com limitação de oferta de produtos. No caso de Lilica Ripilica e Tigor T. Tigre, temos um portfólio cada vez mais amplo. Temos roupas, calçados, linha escolar, roupas de dança, roupas para piscina, decoração, óculos, enfim. Temos um portfólio que não é muito comum para marcas de moda infantil. Isso nos gera desafios, de criar modelos em que o consumidor consiga enxergar tudo isso. Não adianta lançar se o consumidor não percebe isso na ponta.

Mas, ao mesmo tempo, existe uma oportunidade de fatiar alguns desses segmentos, para dar mais capilaridade e chegar mais forte. Recentemente, no final do ano passado, firmamos uma nova parceria com a Panvel. Saímos com a linha de higiene pessoal da Lilica Ripilica. Estamos falando de uma rede muito concentrada no Sudeste e, principalmente, no Sul do país, com mais de 650 lojas trabalhando com a higiene pessoal da Lilica Ripilica.

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E agora, neste ano, deve entrar também a marca Tigor. Então, uma das coisas que seguramente veremos com mais frequência neste ano, coisas que já vinham sendo engatilhadas, é uma presença maior da Lilica Ripilica e, principalmente, da Lilica, sendo a precursora em mais segmentos.

Em negócios diferentes, que não são as lojas específicas da Lilica e Tigor?
– Isso mesmo. Em negócios diferentes. Uma novidade que deve chegar até o final do primeiro semestre, e na qual já estamos trabalhando há dois anos e meio, é a de alimentos saudáveis. Será uma inovação. O projeto está perto de completar três anos. Começou com a DR Aromas & Ingredientes (nova marca da Duas Rodas), desenvolvendo laboratório, com todos os produtos criados internamente. Não é licenciamento. Não é pegar um produto pronto de mercado e licenciar.

É o desenvolvimento de um novo produto, uma nova formulação. São produtos engenheirados, saudáveis. Então, também vamos entrar forte nesse tipo de iniciativa.

Então, vocês vão estrear no setor de alimentos saudáveis?
– Sim! Estamos pesquisando isso há bastante tempo. Começou com a Duas Rodas (a DR) lá atrás, agora já estamos com o pessoal de produção e de distribuição. Estamos bem perto de chegar ao mercado com alimentos saudáveis. É um projeto grande, de visão de longo prazo. A questão alimentar é crucial na infância, está na agenda das pessoas.

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A Marisol, desde o momento em que olhou para frente, para um horizonte de 50 anos, escolheu ser relevante no mercado infantil. Não escolheu limitar sua relevância apenas ao mundo têxtil. A empresa fez a opção de ser relevante no universo infantil. É isso que está perseguindo.

E como está sendo a preparação para o lançamento deste produto?
– À medida que vamos abrindo o leque, aumentamos a capacidade, chamamos a atenção de mais gente, e a introdução em novos mercados começa a ficar menos trabalhosa. Ainda estamos entrando em categorias que dão muito trabalho, porque não há parâmetro. O produto que vamos lançar não tem referência no mercado. Estávamos apresentando esse produto a um distribuidor na segunda semana de dezembro do ano passado.

Mostramos um produto com determinada característica e ouvimos que isso era impossível, que não existia no mercado. Nós levamos a prova. O produto estava ali, inclusive para degustação. É inimaginável sentir o sabor e entender que ele tem esse nível de saudabilidade técnica. Mas, por trás disso, há dois anos de laboratório de uma empresa altamente competente como a Duas Rodas, colocando toda a sua capacidade técnica no desenvolvimento.

Será uma grande inovação para a empresa?
– Exatamente. Isso quando falamos muito de Lilica e Tigor. Depois, avançamos. Agora isso também vai dar uma oxigenada. Faz parte do nosso direcionamento estratégico. Acreditamos que esse será um dos principais pontos da revisão estratégica.

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E qual será outro ponto de mudança importante nessa fase?

Outro ponto é a nossa rede One Store Marisol. É uma rede em que não temos exclusividade de fornecimento, mas nos aproximamos muito do varejo multimarca independente, com prestação de serviço, bandeiramento de comunicação, identidade visual e apoio ao desenvolvimento do varejo de forma geral.

Cmo está a situação do varejo frente à concorrência internacional, na sua avaliação?
– O varejo sofre. Tudo está mudando muito. Vemos a chegada de varejistas de fora. Antigamente, a discussão era só sobre produção externa; o varejo ficava meio alheio à entrada de produtos asiáticos. Agora estamos numa era em que os asiáticos não só produzem para cá, mas vendem diretamente aqui. Isso trouxe mais gente para a discussão. Antes, eram apenas os fabricantes debatendo o tema. Muitos varejistas diziam que conseguiam comprar mais barato na China, mas o Brasil respondia que era preciso resolver, porque o consumidor quer produto melhor e mais barato.

Quando o chinês começou a vender direto aqui, a discussão mudou completamente. Falei: tá bom, não tem problema nenhum, vamos nos unir, porque é necessário a gente se unir nessa história toda. Mas antes era uma briga sozinha, os fabricantes tinham que dar um jeito sozinhos de vencer a desigualdade de condições que nós temos de produzir no Brasil versus o que alguns países produtores têm, porque agora essa desigualdade também chegou direto na ponta.