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    Arroz caro

    No jogo da alta do arroz, o dono da lavoura liderou; virá mais aumento até estabilizar

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    Por Estela Benetti
    12/09/2020 - 18h00 - Atualizada em: 12/09/2020 - 20h33
    Colheita de arroz em Joinville
    Colheita de arroz em Joinville (Foto: Salmo Duarte, NSC, BD)

    Básico no prato da maioria dos brasileiros e quase sempre baratinho, o arroz é o alimento mais comentado do momento porque seu preço ao consumidor teve alta superior a 50% em Santa Catarina, subiu mais em outras partes do Brasil e ainda deverá ter mais aumentos antes de estabilizar, o que deve ocorrer em função da isenção do imposto de importação. As causas principais da alta são o maior consumo impulsionado pelo pagamento do auxílio emergencial e o crescimento das exportações devido ao dólar alto. Como depende do comportamento do mercado, ações do setor público, como tentativas de controle de preço, não dão certo.

    Para se ter ideia da influência da lei da oferta e da procura, o presidente do Sindicato das Indústrias de Arroz de Santa Catarina (Sindarroz-SC), Renato Franzner, explica que nos últimos 10 anos em apenas dois os produtores do cereal tiveram bons preços no país. Nos demais, lutaram para fechar as contas. Tanto é que muitos deixaram a atividade, especialmente no Rio Grande do Sul, estado que lidera a produção no Brasil e teve safra de 7,840 milhões de toneladas este ano, um pouco acima do projetado. Em SC, segundo maior produtor, a safra 2019/2020 atingiu 1,254 milhão de tonelada, 13,55% acima da anterior.

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    A maior concentração de produtores facilitou a pressão deles no mercado em favor da alta de preços nas últimas semanas, afirma Franzner. Principalmente a partir do final de julho foram os donos de lavouras que ditaram, indiretamente, a alta no mercado ao conter as vendas para esperar preços melhores. Na última semana, a saca no interior do RS estava em R$ 110, uma marca nunca atingida. A alta foi excessiva e rápida porque no dia 14 de julho estava em R$ 65 por saca. Mas com o anúncio da suspensão da Tarifa Externa Cumum (TEC) de 10% a 12%, muitos aproveitaram vender porque os preços podem cair um pouco e se estabilizar com as importações. A estimativa é que na última semana, 15% a 20% da safra ainda não tinha sido vendida.

    - A nossa preocupação é para que haja equilíbrio porque sempre que tem um fato extraordinário no mercado, como preço alto, o primeiro setor a ser apontado como responsável é a indústria, embora ela seja uma repassadora de preços – diz Franzner.

    Segundo o empresário, o aumento do consumo de arroz na pandemia foi uma surpresa porque o setor imaginava que todos tinham acesso ao produto por ser barato. Mas o pagamento do auxílio emergencial mostrou que muitas famílias do país ainda não têm renda suficiente para se alimentar. Ele estima que o efeito pandemia vai elevar de 5% a 10% o consumo de arroz no país este ano. Em média, o brasileiro consome 34 quilos de arroz por ano, cerca de 100 gramas por dia, enquanto em países asiáticos como China, Índia e Tailância, o consumo per capita é superior a 100 quilos por ano. 

    O dólar alto no país foi o outro fator que motivou aumento do preço do arroz porque favoreceu exportações do Brasil e dos países do Mercosul, que são os tradicionais fornecedores de arroz também ao mercado brasileiro. Conforme Franzner, anualmente, o Brasil exporta de 1,2 milhão a 1,5 milhão de tonelada por ano para países da América Central e Venezuela; e importa do Paraguai, Uruguai e Argentina. Desta vez, exportou 1,3 milhão de tonelada e importou cerca de 450 mil. Mas para compensar toda venda no exterior, precisa importar cerca de 1,1 milhão de tonelada. A expectativa é que consiga comprar mais uma parte do Mercosul, mas terá que adquirir cerca de 300 mil toneladas de terceiros mercados para ter estoque suficiente e manter preços até fevereiro, quando virá a próxima safra. Nesses terceiros mercados, comprará sem a TEC, mas o preço não será muito inferior a média do mercado deste ano, observa ele.

    Por isso, no cenário atual, o consumidor ainda terá que enfrentar preços maiores até a chegada dos últimos reajustes do campo à mesa e, depois, a expectativa será de preço estável, mas alto, até a safra do ano que vem. Sobre os reajustes que ainda virão, o preço final pode variar mais de 100%. No campo, a saca de arroz com casca estava em menos de R$ 50 no começo do ano, o que indica que até agora teve alta superior a 120%. Se toda essa variação for até o consumidor final, a unidade de cinco quilos do produto, que custava há três meses R$ 12,50 e hoje está perto de R$ 20, poderá chegar a R$ 28.

    Quando o preço sobre nas alturas, a lei da oferta e procura se encarrega de motivar aumento da produção e logo na colheita da safra seguinte o consumido paga menos pelo produto. Só que não dá para prever um grande efeito disso após a colheita da safra 2020/2021 porque o preço da soja subiu mais que o do arroz e a leguminosa deverá continuar tirando área plantada das arrozeiras.

    Por isso, a expectativa do setor é que o preço do arroz não terá uma queda expressiva na média do ano que vem. Não adiantará culpar, nem a indústria, nem os supermercados. Também pouco efeito terá qualquer ação governamental porque o país não tem grande estoque regulador e a isenção da TEC será até 31 de dezembro para não ter efeito negativo na oferta nacional de longo prazo. Mas o consumidor pode fazer a sua parte para reduzir preços consumindo mais outras fontes de carboidratos como massa, batata, farinha de milho e farinha de mandioca. As pesquisas de preços e substituições são alternativas também para outros produtos que estão com preços em alta no país atualmente.

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