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"Nossos alunos aprendem para a vida", diz professora da Finlândia

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Por Estela Benetti
11/11/2019 - 16h55 - Atualizada em: 12/11/2019 - 14h59
A professora Eeva Penttilä, que fez palestras em Florianópolis Foto: Daniela Garcia, Divulgação
A professora Eeva Penttilä, que fez palestras em Florianópolis Foto: Daniela Garcia, Divulgação

País nórdico muito conhecido por abrigar a Lapônia, terra do Papai Noel, a Finlândia ganhou projeção mundial também pela qualidade da sua educação. Está sempre entre os primeiros colocados no Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa). Entre os segredos das notas altas estão uma educação pública para todos, com aula em tempo integral e incentivo à autonomia do aluno desde os primeiros anos.

O modelo finlandês foi tema de duas palestras sexta-feira, em Florianópolis, ministrado pela professora consultora em educação Eeva Kaarina Penttilä, que durante anos foi membro do Conselho Nacional Finlandês de Educação. Ela falou para professores do Sistema de Ensino Energia e gestores e professores da Secretaria Municipal de Educação, numa iniciativa em parceria com a instituição brasileira Mind Lab, que incentiva educação por meio de jogos de raciocínio.

Quais são as principais razões do sucesso do modelo educacional da Finlândia?

Nosso sistema educacional foi moldado para a nossa cultura. A pesquisa Pisa, que as pessoas valorizam muito, na Finlândia não têm peso na nossa educação. É claro que é bom para nós estarmos bem colocados no Pisa, mas nossa educação não tem esse objetivo. Os testes que a OCDE aplica são adaptáveis à nossa educação, a que nós já aplicávamos na Finlândia. O segredo da nossa educação é que os nossos alunos aprendem para a vida. Eles acabam aprendendo e adaptando tudo para a vida real. Se o Pisa fosse um teste que os alunos reproduzissem apenas o que aprenderam numa memória curta, provavelmente a Finlândia não seria bem colocada porque nós não decoramos. Tentamos passar para os nossos alunos que eles precisam tanto de conhecimentos quanto de habilidades. Nós queremos apenas bons cidadãos e não bons alunos.

E vocês têm conseguido bons cidadãos?

Sim. Somos uma boa nação. Somos até felizes. Ganhamos duas vezes o primeiro lugar como a nação mais feliz do mundo. Agora, quando temos estrangeiros que mudam para a Finlândia, é muito difícil eles se adaptarem ao nosso país porque nossos valores são tão fortes, tão diferentes que outras nacionalidades não nos entendem.

A senhora pode citar exemplo de impacto da cultura finlandesa em estrangeiros?

Eu trabalhei 11 anos na Secretaria de Educação da cidade de Helsinque e uma das minhas funções era achar escolas para crianças, filhos de estrangeiros que mudavam para a Finlândia, mas de famílias bem educadas. Era um trabalho muito difícil. Um estrangeiro que teve no país dele uma outra cultura já chega pedindo: ‘Eu quero a melhor escola de Helsinque para o meu filho’. Eu quero que ele estude na melhor universidade de Helsinque. Eu disse: ‘Isso é impossível’. Eu explicava para ele que, pela lei, o seu filho terá que estudar na escola mais próxima da sua casa e terá que fazer a mesma prova que os demais alunos para ingressar na universidade, como qualquer outra criança. Eu tive o caso de um pai que era um CEO da Nokia naquela época. Ele disse que não conseguiria viver num país como aquele e saiu da Finlândia. Eu recebi naquela ocasião o embaixador daquele determinado país que perguntou porque eu não atendi o executivo da Nokia. Quando eu conto isso para os finlandeses eles perguntam: ‘Eu não acredito que eles fazem esse tipo de exigência’. Quando dizemos aos estrangeiros que as escolas da Finlândia têm o mesmo padrão eles não acreditam. Nossa cultura é muito diferente para quem vem de fora.

Como é a autonomia que o sistema educacional proporciona para as crianças?

Posso dizer que a independência, a autonomia que proporcionamos para as nossas crianças é possível, primeiro, porque temos um país muito seguro. Isso significa que as crianças podem brincar fora ou andar sozinhas sem o acompanhamento constante dos pais. É natural para nós que a criança aprenda, desde cedo, se vestir só, sobreviver só, colocar a própria toca, a própria luva, e voltar para a escola sozinha. Ela pode fazer isso porque o nosso país é seguro. Na creche, por exemplo, o mais importante do que o conteúdo é ensinar a criança a comer só. A autonomia começa desde pequeno, dessa forma. Deixando a criança fazer pequenas atividades.

A educação de vocês incentiva a igualdade de gênero?

A boa educação, na Finlândia, diz que os pais não devem fazer nada ou muito para os filhos. Na escola, ensinamos que as tarefas domésticas devem ser divididas tanto para homens quanto para mulheres. (A tradutora desta entrevista, Ayla Patrícia Huovi, que é professora no país há 15 anos, contou o exemplo pessoal. Quando casou, a sogra finlandesa disse para o filho que ele deveria cuidar bem da esposa, ajudar nas tarefas de colocar o lixo para fora, cortar lenha e tirar a neve, lavar, passar e cuidar das crianças para que não ficasse muito cansada à noite para amamentar e depois ter que trabalhar no dia seguinte).

Diante do impacto tecnológico nas carreiras, o que a Finlândia oferece de cursos aos cidadãos?

Temos cursos constantes, para todas as pessoas, inclusive para as mais velhas. Os conteúdos vão mudando de acordo com as necessidades do momento. Um exemplo. Nós temos uma universidade na Finlândia, voltada para a fabricação de games (jogos). Temos uma empresa de games que é de um finlandês, que devolveu a metade da fortuna dele ao governo porque o governo deu a ele muito em termos educacionais e ele se sentiu em dívida. Existe também um ensino médio voltado ao desenvolvimento de games.

No Brasil, os professores reclamam que têm salários baixos e usam esse argumento para não se dedicar tanto ao trabalho. Como é a valorização dos professores no seu país?

E posso dizer que o salário médio de um professor na Finlândia é o mesmo, em valores, que o de um funcionário público de um ministério. Fizemos uma pesquisa com os nossos professores que apontou que eles não escolhem essa carreira por causa do salário. Eles escolhem ser professores porque é uma profissão muito livre, muito respeitada e que eles sentem muita gratidão da sociedade, têm um retorno muito grande da sociedade. Eles se sentem importantes porque estão formando novos cidadãos de um país. Eles se sentem felizes em saber que estão repassando valores para novas gerações. Por isso que são professores. Não é pelo salário. (O salário médio do professor na Finlândia é 2.800 euros, o equivalente a R$ 12.800. Mas como o custo de vida no país mais alto que no Brasil, as rendas de professores aqui e lá são equivalentes, explica Ayla Patrícia Huovi mas, para o custo de vida de lá é semelhante ao s no Brasil, explica a tradutora).

Educando com jogos

Mind Lab incentiva uso de games nas escolas

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Educação: Sandra Garcia, diretora da Mind Lab
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O empenho da Mind Lab, instituição privada brasileira de consultoria em educação, para incentivar o uso de jogos educativos é porque essas atividades permitem ensinar muito para a vida, tanto fixação de conteúdos, quanto trabalho em equipes e limites, observa a diretora pedagógica Sandra Garcia.

- A gente trabalha com jogos porque eles podem aproximar as pessoas. Eu participei de uma imersão na Finlândia sobre isso e retornei ainda mais apaixonada com o jeito deles de educar. As crianças de três anos se vestem sozinhas para andar na neve, por exemplo. Estão acostumadas a fazer tudo por si – observou Sandra, que acompanhou a professora Eeva Eeva Kaarina Penttilä nas palestras em Florianópolis.

A Mind Lab tem parcerias com escolas públicas e privadas do país para incentivar o uso de jogos. Algumas dessas instituições são de SC.

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Estela Benetti

Especialista na economia de Santa Catarina, traduz as decisões mais relevantes do mercado, faz análises e antecipa tendências que afetam a vida de empresários, governos e consumidores.

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