nsc
    nsc

    Entrevista

    “O que vai gerar crescimento são mais investimentos”, diz Ricardo Amorim

    Compartilhe

    Estela
    Por Estela Benetti
    14/10/2019 - 03h30 - Atualizada em: 14/10/2019 - 19h45
    Ricardo Amorim (Foto: Divulgação)
    Ricardo Amorim (Foto: Divulgação)

    Com o propósito de ampliar informações a empresários sobre as perspectivas de retomada do crescimento econômico no Brasil, a Associação Comercial e Industrial de Florianópolis (Acif) e o Sebrae-SC promovem palestra com o economista Ricardo Amorim, nesta quarta-feira (16), a partir das 19h, no Teatro Pedro Ivo, na Capital. O tema central será “Por que a economia deve melhorar e crescer mais do que você imagina nos próximos anos?” Nesta entrevista, Amorim, que é um dos palestrantes mais influentes do Brasil, antecipou um pouco da sua visão. Confira:

    O mundo vive a expectativa de uma nova recessão global. Ela vai acontecer mesmo?

    A dúvida não é se vai acontecer uma nova recessão global, a dúvida é quando ela vai acontecer. Recessões acontecem porque a economia é cíclica. Desta vez, o gatilho mais provável é a guerra comercial Estados Unidos-China. Estamos a pouco mais de um ano da eleição nos EUA e o presidente Donald Trump busca o eleitorado das antigas regiões fabris americanas, a região central dos EUA. Um dos argumentos dele é que está defendendo os trabalhadores dessas fábricas que viram seus empregos ou dos seus pais irem embora para o México ou China.

    Só que ao fazer isso, está colaborando ainda mais para alta de preços nos EUA e na China, e a consequência disso é crescimento menor nos dois casos. Quando isso acontece, eleva o risco de recessão. Mas, apesar disso, não significa que ela está prestes a chega porque as economias da Europa e EUA estão desacelerando, a da China também dá sinais nesse sentido, mas os bancos centrais desses países estão derrubando as taxas de juros para tentar compensar essa desaceleração. Há outro acelerador no caso americano que é o fiscal. O governo está gastando dinheiro como nunca. Neste ano, passou de US$ 1 trilhão e no ano que vem, as projeções oficiais são de que será mais do que isso. Então, a economia americana está com um pé no freio e outro no acelerador.

    Em algum momento, isso vai pender para o lado da recessão. Pode ser que aconteça mais rápido, ou demore uns trimestres mais. Mas dificilmente passa do ano que vem ou do ano seguinte.

    De que forma uma nova crise internacional afetará a economia brasileira?

    Uma crise internacional afeta a economia de todo mundo porque reduz a demanda global. Isso vai gerar um impacto negativo nas exportações brasileiras. O segundo aspecto é que ela reduz a oferta de capitais, afetando mais países emergentes como o Brasil com a vinda de menos capital para cá. Com menos dólares das exportações e menos dólares da entrada de investimentos, a taxa de câmbio se desvaloriza e o preço do dólar sobe, às vezes, bastante.

    Dependendo desse movimento, isso pode encarecer suficientemente os produtos importados pelo Brasil para fazer com que a taxa de juros tenha que subir para evitar a inflação. Essa taxa de juros reduz a oferta de crédito e leva a um crescimento menor. Isso caso haja uma crise global. Não está acontecendo, mas é um risco importante para os próximos anos.

    Quais são as principais razões do seu otimismo com a economia brasileira para os próximos anos?

    Meu otimismo vem de alguns fatos. Um deles é o componente cíclico da economia. O Brasil viveu nos anos de 2015 e 2016 a mais longa recessão da história. Isso gerou uma capacidade ociosa gigantesca na indústria – máquinas que não estão sendo usadas - e maior ainda no mercado de trabalho. As pessoas focam muito nos 11 milhões ou 12 milhões de desempregados que nós temos, mas a quantidade de gente que não está trabalhado ou está com subemprego é muito maior do que isso. Só aparece na taxa de desemprego quem está procurando vaga, mas muitos desempregados não estão procurando.

    Quando a gente soma os que aparecem na taxa de desemprego, os que deixaram de procurar colocação e os que estão subempregados, a gente está falando de 65 milhões de pessoas no Brasil. Colocar esse pessoal para trabalhar aumenta a produção brasileira e é exatamente o que começou a acontecer com a recuperação do emprego. Isso deve se fortalecer nos próximos anos se o Brasil aprovar a reforma da Previdência, que parece que está em vias de acontecer; a reforma tributária que é discutira há mais de 20 anos também pode ser aprovada; já foram aprovadas medidas para reduzir os custos de importação de máquinas e equipamentos, o que aumenta a competitividade da economia; e a MP da Liberdade Econômica facilita a abertura e fechamento de empresas e, por consequência, também estimula o crescimento.

    O programa de privatizações é bastante agressivo e vai aumentar a competitividade da economia. Aliás, Florianópolis é um belo exemplo disso – a privatização recente do aeroporto deixa claro a qualidade dos serviços antes e depois.

    O que pode atrapalhar?

    Tudo isso indica que o Brasil pode crescer bem desde que não haja o início de uma recessão global em primeiro lugar e, em segundo lugar, que o Bolsonaro não brigue com boa parte daqueles que devem investir no Brasil para que as perspectivas melhorem. O que vai gerar crescimento são mais investimentos tanto de empresas brasileiras quanto estrangeiras. Só que quando ele briga com a Angela Merkel (chanceler da Alemanha) e Emmanuel Macron (presidente da França), ele reduz a possibilidade de investimentos desses países. Até agora não há nada preocupante. Eu conversei com investidores desses países e eles continuam interessados em investir no Brasil. Se o conflito continuar, isso pode atrapalhar no futuro.

    O que ajuda e o que atrapalha a economia no governo de Bolsonaro?

    O que atrapalhou a economia no início do governo Bolsonaro foi a postura política do governo brigando com todo mundo, inclusive com o presidente da Câmara, gerando preocupações de que o a reforma da Previdência e o resto da agenda econômica que precisa ser aprovada pelo Congresso não avançaria. Se isso acontecesse, o Brasil teria uma crise fiscal grave nos próximos anos porque não valeria a pena investir em novos negócios no país porque teríamos uma crise econômica em breve.

    Essa preocupação fez com que a economia parasse de crescer no primeiro trimestre após oito trimestres de crescimento. Só que à medida que ficou claro que apesar dessa relação complicada do Bolsonaro com o Congresso que a agenda econômica avançaria, já no segundo trimestre a economia voltou a crescer. É provável que no terceiro esse crescimento seja maior do que no segundo e no quarto trimestre, com a aprovação da Previdência pode haver uma aceleração da economia, o que sinaliza com crescimento melhor para o ano que vem.

    Como avalia o atual momento do setor de tecnologia de Florianópolis e do Brasil e quais as perspectivas?

    O Brasil tem vários hubs e ecossistemas de inovação importantes. O de Florianópolis é um deles. Esses ecossistemas são cada vez mais numerosos e mais fortes. É normal que isso aconteça. Esses processos vêm de algumas empresas iniciais que têm sucesso, seus fundadores vendem essas empresas e ao saírem com dinheiro montam fundos de venture capital e financiam o crescimento de outras empresas. Além disso, eles já têm uma série de conhecimentos adquiridos, têm contatos e sabem quais empresas podem ter sucesso e, por tudo isso, têm sucesso. O Vale do Silício nasceu assim e em outros ecossistemas também. A gente está vendo isso cada vez com mais frequência no Brasil e isso vai se acelerar nos próximos anos. Inovação significa mais geração de riqueza, produtos e serviços melhores para todos.

    O agronegócio seguirá com protagonismo na economia brasileira?

    O Agronegócio, desde 2001, vem sendo um dos setores de maior crescimento da economia brasileira. Isto começou quando a China entrou para a Organização Mundial do Comércio. De lá para a frente houve uma explosão gigantesca da demanda por alimentos no mundo. Isso não é só na China, que passou a importar muito do Brasil, mas pelo efeito indireto. O crescimento da economia chinesa e por consequência, de renda e consumo na China, levou vários outros países, o Brasil inclusive, a exportar mais para o mercado chinês e isso vai continuar. No caso brasileiro continuará porque o país tem várias vantagens importantes no agronegócio. A primeira delas é um espaço muito amplo para plantar. Só 7,6% do território brasileiro hoje está plantado. Esses são dados da Nasa (agência espacial dos EUA). Se a gente excluir a Amazônia, o que sobra são menos de 10% de área destinada à agricultura. O potencial de plantar em novas terras é gigantesco. O Brasil tem, também, disponibilidade gigante de água doce. Isso é outra vantagem importante. Clima favorável. E mais recentemente, o país está exportando mais para a China em função da guerra comercial dela com os EUA. Além disso, ela vai comprar mais porque com a peste suína o país asiático perdeu 80 milhões de porcos, que é mais do que toda a produção do Brasil. A consequência disso é que ela está importando mais carne suína e vai comprar ainda mais. Isso é particularmente benéfico para o Estado de Santa Catarina, que é um grande produtor e exportador.

    Ainda não é assinante? Assine e tenha acesso ilimitado ao NSC Total, leia as edições digitais dos jornais e aproveite os descontos do Clube NSC.

    Deixe seu comentário:

    Últimas do colunista

    Loading...

    Mais colunistas

      Mais colunistas