A reforma tributária brasileira foi aprovada há dois anos e começou a ser implantada gradualmente agora, em 2026 para entrar em vigor totalmente em 2033. O plano é simplificar o sistema tributário sem elevar a carga de impostos, mas vem gerando diversas questões e preocupações para empresas e profissionais da contabilidade que ajudam na implantação que o executivo Fernando Coan, diretor de produtos da área tributária (Product Management Director) da multinacional Thomson Reuters reconhece que está sendo uma ‘tempestade’ tributária.
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Em entrevista exclusiva para a coluna, com muitos detalhes, ele aborda diversos pontos que preocupam. Diz que essa transição ao novo sistema é complexa e trabalhosa, por isso contadores buscam intensamente mais informações. Alerta que empresas do setor de serviços poderão ter um salto na carga tributária de 4% para até 28%, que empresas do Simples poderão perder clientes se esses não puderem se creditar de valores pagos, que haverá mudanças na precificação de produtos, será adotada arrecadação à vista pelo sistema split payment e vai exigir maior controle do fluxo de caixa das empresas.
O diretor da multinacional afirma que essa ‘tempestade’ tributária está no ‘radar metereológico’ das empresas há cerca de dois anos, mas que elas desconheciam a dimensão dessa mudança. Muitas estão prestando mais atenção agora.
A Thomson Reuters é uma multinacional que atua nas áreas de comércio exterior, jurídica, triburária, contábil e de comunicação. Tem em Criciúma, Santa Catarina, uma unidade desenvolvedora de sistemas para empresas e escritórios de contabilidade. Na entrevista a seguir, o diretor Fernando Coan detalha sobre diversas questões que envolvem a reforma tributária:
O que empresas precisam saber mais sobre a reforma tributária?
– Venho acompanhando a reforma tributária há bastante tempo e temos conversado muito com nossos clientes. Diferentemente do que muitos pensam, a reforma tributária não traz apenas simplificação. Na verdade, ela inaugura um período de transição bastante complexo e trabalhoso, que vai afetar tanto os profissionais contábeis quanto as empresas em geral.
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Vimos, inclusive, alguns ministros fazendo afirmações de que haveria uma redução na necessidade de contadores nas empresas. No entanto, o cenário aponta justamente o contrário. O período de transição, que vai de 2026 até 2032/2033, mostra-se bastante desafiador e exigente.
A reforma tributária traz esse conceito de simplificação ao unificar impostos, e começou com uma proposta interessante. Porém, à medida que avança nos detalhes técnicos, cada segmento do mercado passa a identificar impactos específicos em seus negócios e pressiona os reguladores por ajustes que evitem inviabilizar determinadas atividades.
Que empresas ou atividades poderão ser inviabilizadas?
– Um exemplo claro são as empresas prestadoras de serviços, muitas vezes atuando na informalidade, que agora passam a trilhar um caminho de formalização, mas com uma alíquota que pode se aproximar de 30%. É um impacto significativo no dia a dia dessas empresas. Os contadores, por sua vez, enfrentam um enorme desafio: compreender a complexidade da reforma em nível de detalhe suficiente para garantir a sobrevivência das pequenas e médias empresas, que são seus clientes, e também de seus próprios escritórios.
Embora já tenhamos a lei complementar publicada, ainda há muitas dúvidas sobre a aplicação prática. Sabemos, em grande parte, o que será feito, mas ainda não está claro como tudo funcionará na prática, especialmente em termos de operacionalização.
O que ainda não está claro?
– Desde fevereiro, aguardamos regulamentações mais específicas por parte do governo, que permitam entender, de fato, o que muda no dia a dia: volume de trabalho, apuração de impostos e rotinas operacionais. Por isso, há uma busca intensa por conhecimento sobre a reforma tributária. Contadores têm compartilhado preocupações e discutido caminhos para enfrentar esse cenário.
Como empresa que se posiciona como parceira do contador, temos viabilizado formações completas sobre a reforma, de forma gratuita para nossos clientes. Essas formações contam com nomes de referência no Brasil, como Felipe Guerra, que participa ativamente das discussões da reforma tributária. O objetivo é preparar os profissionais para esse período de transição, que se estende até 2033.
Qual é a principal mudança para as empresas?
– Uma das mudanças mais relevantes, que impactará não apenas contadores e empresários, mas toda a população, é a forma de precificação de produtos e serviços. Hoje, estamos acostumados a ir ao mercado e ver o preço final de um produto. Essa dinâmica tende a mudar significativamente, começando pelas relações entre empresas (B2B), especialmente por conta da lógica de créditos tributários.
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A formação de preços, algo que ainda não faz parte da rotina de muitos empresários no Brasil, passará a exigir mais conhecimento. Quantos empresários hoje se sentem preparados para recalcular seus preços com base em novos tributos? Esse é um desafio que também atinge os contadores, que há muito tempo não passam por uma transformação dessa magnitude. Portanto, o desafio será não apenas reprecificar, mas entender profundamente essa nova lógica no dia a dia.
Do nosso lado, temos trabalhado no desenvolvimento de soluções tecnológicas que ajudem a ganhar eficiência nesse processo. Outra mudança significativa é que a base da reforma prevê que o imposto seja apurado praticamente no momento da emissão da nota fiscal, e não mais posteriormente, como ocorre hoje. Isso altera completamente a dinâmica.
Surge então uma questão importante: qual é a capacitação de um empresário para definir corretamente o imposto no momento da emissão da nota? Isso se torna ainda mais complexo em negócios com grande variedade de produtos, como supermercados ou padarias. Um erro na definição da alíquota no momento da emissão já pode resultar em uma apuração incorreta junto ao governo. Nesse cenário, o contador precisará antecipar seu trabalho, atuando de forma mais próxima do empresário e contando com o apoio da tecnologia para garantir a correta tributação no momento da emissão.
Quais outras questões que ainda estão pendentes nessa reforma?
– Ainda há muitas dúvidas sobre como o governo permitirá correções após erros, especialmente considerando mecanismos como o split payment, em que o imposto é pago no momento da transação, inclusive quando calculado de forma incorreta. Além disso, cada setor começa a buscar tratamentos específicos. Já se observa discussões sobre regimes diferenciados para bares e restaurantes, construção civil, agronegócio, entre outros.
Ou seja, embora haja uma unificação de impostos, a complexidade operacional permanece elevada. Entender e aplicar corretamente essas regras ainda será um grande desafio. Até mesmo a dinâmica do dia a dia de pequenas e médias empresas tende a mudar. A escolha de fornecedores, por exemplo, poderá impactar diretamente o resultado financeiro, devido às regras de crédito tributário.
E quanto às pequenas empresas, o que vai causar impacto nelas?
– Já se sabe que empresas do Simples Nacional, ao venderem para outras empresas, não gerarão crédito para o comprador. Isso pode levar empresas a reconsiderarem seus fornecedores. Isso levanta uma questão importante: quem explicará essa mudança para o empresário, muitas vezes sem formação contábil? E como ele se reorganizará diante disso?
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Caso haja uma migração de empresas para outros regimes tributários, como lucro presumido ou lucro real, surgem novos impactos, inclusive para os escritórios contábeis, especialmente os de pequeno porte, que representam cerca de 80% do setor no Brasil. Esses escritórios, que hoje atendem majoritariamente empresas do Simples Nacional, precisarão se adaptar rapidamente. Há um efeito em cadeia bastante significativo.
Diante disso, temos discutido com os contadores como antecipar esse futuro, que já está muito próximo. Em 2027, por exemplo, PIS e Cofins já serão substituídos pela CBS. A grande questão é: como planejar os próximos anos? Como estruturar cenários tributários para os clientes? E como utilizar tecnologias, como a inteligência artificial, para tornar esse processo mais compreensível e acessível? É nesse contexto que nos posicionamos: para apoiar o contador no dia a dia e, consequentemente, ajudar as empresas a atravessarem esse período de transformação.
Por que o que você fala parece que os empresários vão enfrentar uma tempestade tributária? É isso mesmo?
– Exatamente, é exatamente isso. E veja bem: essa tempestade já está no radar meteorológico há cerca de dois anos. No entanto, observamos, inclusive pelas pesquisas que a Thomson Reuters tem realizado com o mercado contábil, que muitos profissionais ainda desconheciam a dimensão dessa mudança.
Eles ainda estão desconhecendo apesar de já ter começado neste ano?
– Entendemos que sim, muito em função do histórico que temos no Brasil. O que queremos dizer com isso? Já passamos por outras mudanças relevantes, como o eSocial, em 2018. E não se trata de um governo A ou B, essa é uma dinâmica recorrente. Normalmente, lança-se uma mudança nas áreas tributária, contábil ou de folha de pagamento com previsão de início em determinado ano.
Quando esse momento chega, nem tudo está completamente definido, estruturado ou regulamentado. Com isso, há adiamentos, implementações em etapas, primeiro para grandes empresas, depois médias e, por fim, pequenas, até atingir toda a base. Ao longo desse processo, as regras vão sendo ajustadas.
Vocês esperavam que a reforma tributária traria tantas questões a serem resolvidas?
– Quando a reforma tributária surgiu, havia muito ceticismo. Trata-se de um tema debatido há décadas. Mas muitos pensavam: “Se nunca aconteceu, por que aconteceria agora?” Esse era um sentimento comum entre contadores. Mas o projeto ganhou corpo, a Lei Complementar foi publicada, novas normas foram divulgadas no ano passado e a implementação está cada vez mais próxima.
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A virada começa em 2027. Hoje, praticamente todos os eventos de contabilidade no Brasil dedicam mais de 50% da agenda à Reforma Tributária. E isso reflete a dimensão do impacto. Se os profissionais contábeis não se prepararem adequadamente, o efeito será sentido diretamente pelas empresas e pode ser tarde demais.
Temos um exemplo claro: a dificuldade histórica de muitos empresários em manter uma boa gestão financeira, misturando finanças pessoais e empresariais. A reforma tributária exigirá um controle rigoroso de fluxo de caixa. Isso porque o imposto passará a ser pago de forma antecipada, e o crédito será apropriado posteriormente. Hoje, o modelo é diferente: a movimentação ocorre ao longo do mês, e o pagamento do imposto vem depois. Essa lógica mudará completamente. A pergunta é: quem está preparado para isso? Quem tem fluxo de caixa?
Queria perguntar justamente isso. O split payment prevê pagamento na hora, e as empresas estão acostumadas a pagar um mês depois, ou até mais. Como será essa transição? Vai haver um período de adaptação? Porque, enquanto a empresa ainda paga o modelo antigo, ela não terá caixa disponível para o novo.
– Exato. O split payment, originalmente, seria obrigatório a partir de janeiro de 2027. No entanto, recentemente, o governo definiu que ele será opcional nesse primeiro momento, e apenas nas transações entre empresas, não para o consumidor final. Essa mudança ocorreu devido à forte pressão de empresários, contadores e também do setor bancário.
Hoje, quando um tributo é pago, o banco retém esse valor por um ou dois dias antes de repassá-lo ao governo, gerando ganho financeiro (float). O split payment elimina essa etapa, transferindo o valor diretamente. Ou seja, até o setor bancário está sendo impactado. Atualmente, o modelo está previsto como opcional em 2027, mas a tendência é que se torne obrigatório no futuro.
Outra questão: os bancos também ganham muito com antecipações de pagamento e crédito. Isso muda, certo?
– Sim, mas o impacto não é apenas negativo para os bancos. Por um lado, eles perdem essa retenção temporária de recursos. Por outro, ganham oportunidade de oferecer crédito, já que as empresas precisarão reforçar seu fluxo de caixa. O ponto central é que o split payment elimina o intermediário bancário na transação do imposto, tornando o processo mais direto e imediato.
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E sobre as pequenas e médias empresas que não gerarão crédito para outras empresas? Isso pode causar um problema enorme na economia?
– Exatamente. Esse é um dos maiores receios que temos ouvido da classe contábil. Caso não haja ajustes nisso, muitas dessas empresas poderão migrar de regime tributário, o que também aumentará sua carga de impostos.
Muitas empresas ainda não sabem quanto pagarão a mais, especialmente no setor de serviços, certo?
– Correto. Hoje, serviços são tributados pelos municípios, com alíquotas que podem girar em torno de 4% de ISS. Com a reforma, esses serviços passam a ser tributados pelos novos impostos, com alíquotas estimadas entre 27% e 28%. É uma mudança extremamente significativa.
Além disso, caminhamos para um modelo em que a sonegação se torna muito mais difícil. Tudo é digital: pagamentos via PIX, notas fiscais eletrônicas, cruzamento de dados. Isso amplia enormemente a capacidade de fiscalização e força uma formalização mais ampla da economia. Mesmo empresas já formalizadas, como as do Simples Nacional, precisarão se adaptar a um novo patamar de exigência.
Ou seja, o impacto pode ser maior do que estamos percebendo?
– Sem dúvida. O Brasil vem se preparando há anos para esse momento. Temos um nível de digitalização tributária muito avançado em comparação com outros países. A nota fiscal eletrônica existe desde 2009, as obrigações acessórias são digitais, o imposto de renda é digital, e o PIX se popularizou amplamente. Faltava apenas integrar tudo isso, e é isso que a Reforma Tributária faz: conecta essas pontas e leva o sistema a um novo nível de formalização.
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Um exemplo recente é a obrigatoriedade de emissão de nota para aluguéis, combinada com o cruzamento de dados via código único de imóveis. Tudo passa a ser monitorado. Portanto, a reforma vai muito além da simplificação de impostos. Ela promove uma transformação estrutural, com aumento de controle, formalização e, possivelmente, da carga tributária. Esse é o cenário que identificamos, e é por isso que estamos trabalhando fortemente no desenvolvimento de soluções, ferramentas, treinamentos e uso de inteligência artificial para apoiar os contadores e empresas nesse processo.

