Maioria das inovações surgem de necessidades do mercado e de problemas que requerem soluções. É por isso que o livro Oportunidades Disfarçadas, do empresário, publicitário e escritor Carlos Domingos, já vendeu mais de 100 mil cópias. Recentemente, ele fez palestra na Federação das Indústrias de Santa Catarina (Fiesc) e falou com a coluna.  

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Por que o seu livro Oportunidades Disfarçadas faz tanto sucesso?

Como colunista do jornal Valor eu escrevia sobre comunicação com resultado muito baixo. Até que um determinado momento coloquei o título Oportunidade disfarçada. Citei como exemplos as invenções da Fanta e do Velcro. A Fanta foi criada na Alemanha porque o xarope da Coca-Cola parou de chegar ao país durante a Segunda Guerra Mundial. Para não fechar as portas, eles pegaram matérias-primas do local e criaram outros refrigerantes. Deram o nome de Fantásticas, que depois acabou ficando Fanta. Este é um exemplo de oportunidade. No caso do Velcro, um homem saia para caminhar com o seu cão e o animal voltava sempre com os carrapichos no pelo, o que incomodava. Ai ele foi ver porque prendia, observou os ganchinhos da planta e criou algo parecido, que continua até hoje em todos os mercados do mundo. O band aid foi inventado por um funcionário da Johnson & Johnson porque a mulher dele dele sempre se cortava muito na cozinha. As oportunidades estão por traz das verdadeiras inovações. Há um pensamento de que se você colocar quatro pessoas numa sala para fazer inovação elas vão conseguir. Isso não dá certo porque mesmo que tenham boas ideias, a empresa vai acabar jogando contra, seja por razão financeira, seja pelas pessoas ameaçadas por isso.

O meu livro Oportunidades Disfarçadas mostra que os problemas criam oportunidades para inovar.

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As empresas percebem essas oportunidades?

Aqui no mundo ocidental, pensamos que problema é algo ruim. O funcionário não conta para o chefe e quando alguém erra o chefe manda embora. Comecei a ver que a solução é diametralmente o oposto do que as empresas fazem, que é não ter espaço para o feio, para o errado, para a falha. E, na verdade, historicamente, são as falhas que encaminham para achar uma inovação. 

Essa lógica acontece também no setor de tecnologia?

Essa lógica está em todas as atividades humanas. O Como a hipnose é um processo muito demorado Freud criou a psicanálise, que pode ser aplicada para todos os pacientes e de forma mais rápida. Um grande acidente é uma grande oportunidade para ver o que deu errado e corrigir. Aconteceu aquela coisa em Mariana (MG). A Holanda sofreu uma enchente que destruiu sua produção agrícola. Eles resolveram aproveitar esse risco plantando grama e se tornaram os maiores produtores de leite e queijo do mundo. Aqui no Brasil a gente sofre os problemas e não aprende. 

Como as empresas devem proceder nos casos de erros?

As empresas devem entender que o erro nunca está na pessoa, mas no processo. As pessoas erram porque o processo permite. É claro que pode ter pessoas que não têm competência para a função. Mas aí o erro foi no processo de contratação. Toyota é uma das empresas que está focando em processo. A pessoa, ao errar, mostra que há problema no processo. A Toyota espera receber 1 milhão de sugestões. É melhoria contínua. Ninguém entende melhor quanto papel está sendo colocado fora do que a pessoa que está operando a máquina de Xerox, por exemplo. 
 
Como incentivar as sugestões?

As empresas deve criar um ambiente para ouvir as sugestões dos empregados. Com a previsão de que 70% das atividades serão substituídas, a empresa deve aproveitar a informação do balcão, que sabe o que o cliente quer, o que dá para fazer melhor. 

Se fala que as empresas brasileiras investem pouco em inovação, pesquisa e desenvolvimento. O senhor concorda?

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Acho que há um equívoco. Quando estive, há pouco, nos EUA tive a infelicidade de passar em frente da Toys’R’Us. Lá estava escrito: liquidação para fechar. Eles sempre foram líderes e o que fizeram foi investir num super centro de inovação. A empresa quebrou. A minha experiência mostra que se você partir dos problemas que você tem, buscar uma maneira diferente de resolver as coisas e experimentar na prática com pouco risco, você consegue inovar. É preciso ver se o consumidor aceita.

Inovação vem acompanhada de risco. A Apple é uma empresa inovadora, mas ninguém sabe que o número de fracassos dela é quase do tamanho dos acertos.  
 

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