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    Vinhos de altitude de SC: duas décadas e futuro promissor com o enoturismo

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    Por Estela Benetti
    12/01/2020 - 13h57 - Atualizada em: 13/01/2020 - 02h41
    Uvas da Vinícola Monte Agudo em 2019
    Uvas da Vinícola Monte Agudo em 2019 Foto:Divulgação

    Com apenas 1,12% da área territorial do Brasil, Santa Catarina tem uma trajetória agrícola afinada com a frase “Nesta terra, em se plantando, tudo dá”, da carta de Pero Vaz de Caminha, a primeira escrita sobre o Brasil. Foi assim com o plantio de parreiras viníferas e com muitas outras culturas no Estado.

    Ao tomarem conhecimento sobre pesquisa da Epagri de que em São Joaquim, um dos municípios mais frios do Brasil, havia condição climática favorável ao cultivo de uvas viníferas europeias, quatro empresários catarinenses apreciadores de vinhos, Acari Amorim, Robson Abbdala, Nelson Essemburg e Francisco Brito, decidiram investir na atividade. Adquiriram área de 87 hectares no distrito de Lomba Seca do município serrano em 1999 e começaram a plantar parreiras em novembro daquele ano. A qualidade dos primeiros vinhos – com acidez, leveza e pouca doçura - surpreendeu. Daí nasceu a vinícola Quinta da Neve.

    Isso motivou outros empresários e profissionais liberais do Estado, Brasil e até do exterior a fazer o mesmo. A vitivinicultura se desenvolveu na Serra e região do Contestado, resultando em vinhos e espumantes com “terroir” diferenciado. Hoje, SC conta com cerca de 35 vinícolas de altitude, a maioria em São Joaquim.

    - Não foi fácil conquistar em apenas 20 anos o reconhecimento que alcançamos, com muitas premiações. Os produtores são movidos pela paixão porque são muitas as dificuldades. Uma delas é a alta carga tributária – alerta Acari Amorim.

    Segundo ele, o enoturismo impulsiona o desenvolvimento ao incentivar diversas atividades, por isso o vinho, a exemplo da maioria dos países, deveria ser tributado como um alimento e não como bebida alcoólica, com mais de 50% de impostos, como hoje.

    Essa posição é compartilhada pelo presidente da Vinhos de Altitude – Produtores Associados, José Eduardo Bassetti. Para ele, a retirada da substituição tributária (pagamento antecipado de ICMS) ajuda, mas, mesmo assim, o setor sofre com o incentivo à importação porque pelos portos de SC a alíquota de importação de vinho é 4%. A inclusão do setor no Simples também ajuda, mas nem todas empresas estão nessa categoria. Por isso, o esforço para uma menor tributação.

    Pioneiros

    Precursores:
    Acari Amorim (E), Nelson Essemburg e Robson Abbdala
    (Foto: )

    A vinícola Quinta da Neve, por ser pioneira na vitivinicultura de altitude de SC, pôde escolher uma das regiões mais favoráveis para instalar seus pomares. A Lomba Seca, em São Joaquim, é um local de pouca chuva, frio, ideal para cultura da uva. Para marcar os 20 anos da vinícola e as duas décadas do setor, o brinde de três dos quatro fundadores – Acari Amorim (E), Nelson Essemburg (C)e Robson Abbdala (D) , no final de 2019, na Decanter Florianópolis, foi com o mais premiado vinho da casa, o Pinot Noir 2005. Atualmente, seguem sócios da vinícola Amorim e Abbdala. Nelson e Francisco Brito venderam as participações para a família Hermann.

    Vinícolas boutique

    O que diferencia os vinhos e espumantes de altitude da Serra catarinense é o perfil do negócio. Enquanto em algumas regiões se produz em grande quantidade, as vinícolas de SC são do tipo boutiques, que elaboram os produtos de forma manual. Um dos pontos altos é a seleção das frutas: somente grãos saudáveis são colocados para vinificação. Conforme Acari Amorim, não entram grãos estragados nem o caule verde do cacho de uvas. O resultado final são vinhos com melhor sabor, percebido por apreciadores da bebida de qualquer lugar do mundo.

    Números do setor

    As duas décadas que colocaram Santa Catarina no mapa dos vinhos finos de altitude somaram 35 vinícolas que cultivam em torno de 700 hectares de parreiras, oferecem 2 mil empregos entre diretos e indiretos e elaboram de 1,2 milhão a 1,5 milhão de garrafas/ano. A região com altitude entre 900 e 1.200 metros conta com 32 municípios.

    Enoturismo e potencial

    O presidente da Vinhos de Altitude – Produtores Associados, José Eduardo Bassetti, fundador e sócio da vinícola Villaggio Bassetti, de São Joaquim, lembra que quando a Santur, estatal catarinense de projeção do turismo começou a registrar números do enoturismo da Região Sul do país, enquanto SC recebia cerca de 60 mil visitantes, a Serra gaúcha recebia 200 mil. Hoje, com o impulso da região geográfica reconhecida Vale dos Vinhedos, os gaúchos recebem 2 milhões de visitantes/ano e SC, 200 mil.

    Vinícolas abertas

    Nem todas as vinícolas catarinenses já contam com receptivo e outras atrações para receber visitantes. Atualmente, recebem turistas em São Joaquim as vinícolas D’Alture, Villa Francioni, Villagio Bassetti, Leone de Venezia e Monte Agudo. Em Bom Retiro está a Thera, em Campo Belo do Sul a Abreu Garcia, em Água Doce a Villagio Grando e em Treze Tilias, a Kranz. A lista de vinícolas de altitude inclui também, além da pioneira Quinta da Neve, a Hiragami, Pericó, Sanjo, Santa Augusta, Serra do Céu, Suzin, Tenuta, Terramilia, Villagio Conti, Cota Mil, Urupema e Taipa Mayer.

    Falta de logística

    As reclamações sobre a falta de logística para chegar até a belíssima região dos vinhos de altitude de SC é geral. O presidente da associação alerta que o bom seria privatizar a BR-282, incluindo melhorias nos trechos mais lentos. Além disso, defende o início das atividades do aeroporto de São Joaquim e do Aeroporto Regional de Lages, em Correia Pinto. Também destaca que falta concluir a Rodovia da Neve, que permitiria, em menos de duas horas, fazer o trajeto São Joaquim-Serra Gaúcha. Os acessos às vinícolas também são ruins e em São Joaquim, por exemplo, há falta de hotel, de Uber e de vans.

    7ª Vindima de altitude

    O setor organiza mais uma Vindima de Altitude, a festa da colheita da uva, no mês de março. O lançamento será dia 13 de fevereiro, em Florianópolis, na sede do Sebrae/SC. A festa vai começar dia 1º de março e, novamente, será na Praça Cesário Amarante. A expectativa era de fazer no Parque da Maçã, mas a reforma do mesmo não ficará pronta para março. Durante a vindima, o setor recebe o maior número de visitantes. Um dos desafios é a falta de hotel, mas o Airbnb opera em São Joaquim e a rede hoteleira da região também atende.

    Enoturismo e PIB

    São Joaquim, apontado como o município que produz a melhor maçã do mundo, também ganha fôlego na economia com o enoturismo, que tem impacto direto e indireto em diversos setores econômicos. Acari Amorim gosta de lembrar que, quando a vitivinicultura estreou, São Joaquim era a quarta maior economia da Serra, atrás de Lages, Correia Pinto e Otacílio Costa. Com o avanço das videiras, vinhos e enoturismo, subiu para a segunda posição na região. Em 2011, o PIB de São Joaquim, segundo o IBGE estava em R$ 309,7 milhões. Em 2017, último apurado, chegou a R$ 858,5 milhões, uma alta de 177% em seis anos.

    Acordo Mercosul-EU

    Um desafio do setor, a longo prazo, é a prometida entrada em vigor do acordo Mercosul-União Europeia. Se for efetivado o acordo, os vinhos europeus devem ficar cerca de 30% mais baratos no Brasil e isso vai exigir um esforço grande para redução de custos. Por esse motivo também o setor, no Brasil, luta por uma redução da carga tributária. Afinal, só a ajuda do fundo prometido pelo Ministério da Agricultura não será suficiente.

    A melhor uva

    Para fazer bons vinhos e espumantes é preciso uva de qualidade e a que melhor se adapta em cada região. Desde o início, o polo vitivinícola da Serra catarinense cultiva variedades europeias renomadas como Cabernet Sauvignon, Pinot Noir, Merlot, Sangiovese, Sauvignon Blanc, Chardonnay, Montepuciano, Touriga Nacional e outras. Mas, segundo o empresário Acari Amorim, a uva que melhor se adaptou à região de frio de Santa Catarina é a Montepuciano. Já são elaborados vinhos com essa uva, mas o consumidor ainda está acostumado às variedades tradicionais, como Cabernet Sauvignon e Merlot.

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