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    Henrique Meirelles: “A privatização é importante”

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    Por Marcelo Fleury
    25/04/2018 - 01h00 - Atualizada em: 25/04/2018 - 14h52
    (Diorgenes Pandini, Diário Catarinense)

    Ex-ministro da Fazenda, Henrique Meirelles é pré-candidato do PMDB a presidente da República.

    Está percorrendo o Brasil para dar palestras e ganhar força para disputar com o presidente Michel Temer (outro pré-candidato do partido), a indicação da sigla.

    Em Florianópolis, pousou no meio da manhã de ontem vestindo terno azul, sapatos e meias pretas, além de uma gravata de nó fino, azul, com motivos brancos.

    Foi ao governador. Tomaram café. Dali à Fiesc, onde participaria de almoço do Lide (grupo que reúne empresários).

    Antes, deu entrevista exclusiva a este colunista. Foram 40 minutos de conversa, em que tomou um café, só. Confira a entrevista:  

    Se eleito, como será a relação do presidente com o seu ministro da Economia?

    É uma parte muito importante, mas fácil de resolver. Criamos o “time dos sonhos”.

     

    Então seria alguém da equipe atual?

    Parece que já foi implementado um plano de sucesso.

     

    Qual sua principal diferença em relação ao presidente Michel Temer?

    Acho que mais importante do que frisar diferenças é dizer que trabalhamos juntos e construímos reformas importantes essenciais. Reformas que, de fato, levaram a uma recuperação econômica. Dependendo do cenário eleitoral, o presidente e eu podemos chegar a uma conclusão de que ele seria o melhor nome para concorrer, ou, por alguma razão, caso se considere que meu nome tem melhores condições eleitorais, essa seria a opção.  

    O senhor acha que o PMDB sozinho tem chance de vitória ou é preciso compor com outros partidos?

    Foi feita uma pesquisa interna no PMDB, com governadores, prefeitos, deputados, e a grande maioria disse que o partido deve ter um candidato a presidente. É um partido que tem conduzido o Brasil com grande sucesso e aprovado medidas fundamentais. Mas já temos conversas com vários partidos predispostos a se aliar dentro de um projeto eleitoral comum.  

    Quais?

    Temos conversas com o PP, PTB, PR.  

    O senhor está disposto a abrir mão de concorrer a presidente para sair de vice?

    Não. Nosso projeto é uma candidatura a presidente.

      O senhor fez parte de dois governos hoje atrelados a grandes esquemas de corrupção. Como vê isso?

    Acredito que todos os grandes partidos brasileiros têm membros relevantes que têm sofrido processo de acusação. Todos os grande partidos! Seja o PT, seja PSDB, seja o próprio PMDB! Todos têm líderes que estão sujeitos a acusações dentro desse processo que vive o Brasil. O importante, do meu ponto de vista, é que minha carreira é inquestionável. Minha reputação também é inquestionável, não tenho nenhuma acusação, nenhum procedimento judicial contra mim. Acho isso importante dentro do meu projeto, que é o de ter sido chamado em momentos difíceis. Fui chamado pelo ex-presidente Lula, em 2002, foi uma administração com sucesso. Baixamos a inflação, o país cresceu bastante. Depois, fui convocado pelo presidente Temer para ser ministro da Fazenda. Foi também um projeto de grande sucesso, agora em uma posição muito mais abrangente, em que trabalhamos aí num processo de reformas fundamentais, processo que está sendo muito bem-sucedido.  

    O senhor disse que a gestão Temer tem projetos bem-sucedidos. No entanto, tem baixíssima aprovação popular. Como o senhor vê isso?

    Acho que é um questão de tempo para que, de fato, a sensação de bem-estar da população comece a refletir a melhora das condições da economia. Isso é absolutamente natural. O Brasil enfrentou o maior desemprego da história. Quando este governo assumiu, o PIB estava decrescendo, tinha caído mais de 5% durante um ano apenas, é evidente que a sensação de bem-estar da população era baixíssima. E é normal que isso se refletisse na avaliação do governo, independente de quem fosse o governo. Mas agora a inflação é a mais baixa em 20 anos, a arrecadação já está crescendo com o crescimento econômico, o emprego é crescente, a renda é crescente. Tudo isso vai fazer com que a população, gradualmente, venha a reconhecer isso, o que vai se refletir nos índices de aprovação.

    Que outras reformas o senhor vai propor, se eleito?

    Evidentemente que em primeiro lugar a da Previdência. É prioritária. A segunda é a tributária, da maior importância, que ainda estamos elaborando. Já há algo em relação a Pis/Cofins, e em seguida vamos trabalhar com os governadores do Estado para encontrarmos uma maneira de simplificar a tributação. Mas evidentemente que tudo isso vai depender de discussões detalhadas com os governadores para chagarmos a um acordo em relação a ICMS e outros impostos, como ISS. Temos que simplificar os impostos do país, e isso depende de um acordo geral.

    Com impostos mais concentrados na União, o senhor também vai repetir o discurso perene do Pacto Federativo? E como seria?

    Não. Ainda não dei nenhuma declaração nesse sentido. O que vou dizer que é temos de enfrentar algumas realidades e, a partir delas, trabalhar para uma melhora das funções e arrecadações de União, estados e municípios. Apesar dessa concentração de recursos na União, o fato concreto é que a União teve em 2017 um déficit de R$ 124 bilhões. Então não há excesso de arrecadação no governo federal. O que existe, sim, e o resto é consequência disso tudo, é uma grande concentração de despesas na Previdência Social, que é uma responsabilidade federal. Então é este o problema, que muitos falam, mas não fazem. Então o que precisamos fazer: primeiro, reformar a Previdência Social. Com a reforma da Previdência, aí sim, vamos gerar no devido tempo, também com o teto de gastos públicos federais, superávits das contas da União e, a partir daí, ter condições de rediscutir a repactuação de funções de Estados e municípios.

    A dívida não se discute?

    Não! Dívida não há como discutir. Foram papéis do Tesouro Nacional emitidos, com responsabilidade do Tesouro. Não há como repassar essa dívida para ninguém. A dívida do Tesouro Nacional terá de ser paga, no devido tempo, o que é fundamental, inclusive para manter o risco-país baixo, para manter a taxa de juros baixa, a inflação baixa e o país crescendo.

    Saindo da economia, dois temas que preocupam muito os brasileiros são a corrupção e a insegurança? Que propostas o senhor tem para essas áreas?

    Pesquisas qualitativas que temos feito mostram que o perfil desejado pelos eleitores para o próximo presidente da República é competência, experiência e honestidade pessoal. Quando no final das pesquisas se pergunta, depois de conhecerem a minha história, que perfil os eleitores atribuem a mim, são: competência, experiência e honestidade pessoal. Meu histórico é a maior demonstração dos meus projetos e da minha atitude em relação à questão da ética e absoluto respeito às leis do país. Em relação aos serviços públicos, certamente há uma necessidade muito grande em relação à segurança, que é uma prioridade, como reequipamento das polícias estaduais, treinamento dos policiais, requalificação das forças, coordenação de esforços das diversas políticas estaduais, estabelecimento de um serviço de troca de informações entre os diversos órgãos policiais do Brasil e uma coordenação também com o governo federal, Ministério da Justiça e Receita Federal no sentido de policiamento de fronteira, prevenção principalmente de contrabando de armas etc. E também um trabalho, que é pouco falado e pouco entendido, diplomático, com países da região, visando exatamente que nossos países vizinhos também participem do esforço de controle do contrabando de armas. Agora, para isso, é necessário que haja recurso. Para haver recurso, é necessário aumento da arrecadação, a economia tem que crescer.  

    Como os senhor faria para melhorar saúde e educação no Brasil (dado o teto de gastos)? O senhor cogitaria aumento de impostos ou taxaria fortunas e heranças?

    Não. O maior fator que influencia a arrecadação é o crescimento econômico. Existem dois fatores importantes. Por exemplo: arrecadação direta da União. Subindo o PIB, sobe a arrecadação proporcionalmente. A arrecadação não é só dependente de aumento de impostos. Subindo o PIB, sobe a arrecadação proporcionalmente. Mais do que isso: subindo o PIB, a arrecadação cresce mais do que o PIB. Isso é série histórica. A arrecadação cresce muito com o crescimento econômico. E isso é a maior fonte de receitas. Não é necessariamente correto se dizer que é necessário criar imposto. Segundo, investimento em saúde e educação, no projeto que se estabeleceram limites, não foi criado um teto para despesas em saúde e educação. Na realidade, foi colocado um piso nos investimentos para os dois. Então isso pode aumentar, sim. Dentro da estrutura constitucional aprovada. O que vai demandar, certamente, é uma racionalização dos demais gastos. Principalmente, e agora eu vou enfatizar isso mais uma vez, os gastos com a Previdência Social. O espaço virá da reforma da Previdência. No ano passado, a Previdência representou 57% do Orçamento. E em 10 anos, seria 80%.

    Privatizações também são uma possibilidade?

    Privatizar é uma prioridade. Estamos já conduzindo a privatização da Eletrobras. Será tão importante para o Brasil como a privatização da Telebras na década de 90. Depois disso, serão projetos que irão se seguir. Não há dúvida de que a privatização é importante.

      O senhor é um liberal?

    Sim, no sentido de que acredito na liberdade das pessoas, portanto essa é a essência do liberalismo.  

    Em todos os sentidos?

    No sentido de ir e vir, no direito de opinião, no direito dos jornalistas perguntarem o que quiserem, no sentido de a imprensa publicar o que julga adequado, sem outras preocupações. E, evidentemente, as pessoas terem a liberdade de empreender sem serem direcionadas pelo governo.

    Como foi sua relação com a JBS?

    Muito simples. Prestei consultoria para a montagem da plataforma digital do Banco Original (ligado à JBS), que foi muito bem sucedido, o primeiro projeto de um banco digital no mundo. Portanto foi um trabalho técnico, direcionado e feito com grande sucesso.

    O senhor se decepciona com os donos da JBS?

    Eu, como os demais brasileiros, estamos aguardando o prosseguimento da Justiça para formular uma opinião final.

    Qual sua opinião sobre o protecionismo brasileiro, endossado historicamente pela direita e pela esquerda?

    O protecionismo vai muito além de empresas estatais. O protecionismo diz respeito a barreiras comerciais. No caso das barreiras comerciais, sim, o Brasil tem um histórico protecionista e que tem prejudicado bastante o desenvolvimento do país. Então, o que estamos fazendo, é a abertura comercial, negociando uma abertura entre Mercosul e União Europeia. E dentro desse processo é importante tornar as empresas, como no caso da Eletrobras, mais capitalizadas e com administração profissional. E já estamos nos movendo nessa direção. Outro exemplo: a própria Caixa Econômica Federal, que tem um novo estatuto aprovado, no qual os vice-presidentes serão escolhidos pelo conselho, e não mais nomeações do próprio presidente da República.

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