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    Melhor do que você

    “Os trabalhos desprezados são monumentais, com impactos incalculáveis”

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    Marcos
    Por Marcos Piangers
    10/07/2020 - 07h00
    Imagens exibidas no Fantástico do dia 5 de julho.
    Imagens exibidas no Fantástico do dia 5 de julho. (Foto: Reprodução)

    O vigilante sanitário trata o cidadão com respeito, pede que ele coloque máscara e mantenha um distanciamento das outras pessoas. “Cidadão não! Engenheiro civil, formado, melhor do que você”, responde a amiga. Melhor do que você. Essa frase, verídica da semana passada, virou todo tipo de piada e meme essa semana. Apareceu no Fantástico, virou trending topic no Twitter, a cidadã que a proferiu foi demitida, o assunto morreu, mais uma mini polêmica brasileira. Mil outras já estão na fila.

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    Contudo, me interessei por essa porque está ali explícito: “engenheiro civil, formado, melhor do que você”. É algo que existe, mas raramente é capturado por uma câmera: as pessoas com um pouquinho mais, se sentem superiores àquelas que tem um pouquinho menos. O engenheiro civil se sente superior ao vigilante sanitário. O médico se sente superior ao engenheiro civil. O empresário de sucesso se sente superior ao médico. O empresário de sucesso com a empresa mais valiosa do mundo se sente superior à todas as outras pessoas.

    É algo que existe, mas raramente é capturado por uma câmera: as pessoas com um pouquinho mais, se sentem superiores àquelas que tem um pouquinho menos.

    Ignora-se, aí, todas as mães, os professores, as enfermeiras, os que praticam trabalho voluntário. Se é uma atividade de fácil acesso, não tem valor, independente da dificuldade da execução. Você já imaginou como é difícil levantar uma parede para um lar de crianças? Ou cuidar de um paciente idoso? Você já calculou o quão difícil é ensinar um grupo de crianças em uma sala de aula? Já foi computado o impacto de uma criança cuidada pelo pai e pela mãe com amor, carinho e atenção? Os trabalhos desprezados são monumentais, com impactos incalculáveis. Faltaram, para a cidadã que acha que um engenheiro civil (“Formado!”) é melhor do que um vigilante sanitário, pais que a educassem, professores que a iluminassem, voluntários e enfermeiras que a inspirassem.

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    Um pai me perguntou uma vez se deveria aceitar uma promoção. No novo trabalho ganharia o dobro, mas precisaria viver longe dos filhos e da esposa. Minha resposta foi que muita gente poderia aceitar aquela promoção, mas apenas uma pessoa poderia ser pai dos filhos dele. Alguém pode considerar uma vida medíocre, a de cuidar dos próprios filhos acima de tudo. Realmente, é uma vida medíocre em uma sociedade que despreza o cuidado com o próximo, deprecia o amor, desqualifica o humilde, rebaixa o educado, subestima a felicidade. Pobre da gente que vive nessa sociedade. Pobre dos competidores desta corrida de seres humanos que, olhando para trás para examinar quem ultrapassaram, não percebem que a linha de chegada não existe, e esta maratona é eterna, desnecessária e inglória.

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