Em isolamento há mais de 120 dias, me permito transitar pelos caminhos do coração e da memória (isso ninguém consegue isolar) e percebo que minhas lembranças são imunes ao vírus. Creio que as suas também. E a qualquer vírus, inclusive o tal coronavírus, que vem provocando essa pandemia e esse pandemônio pelo mundo todo.

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Até é possível, que você tenha se lembrado do Alzheimer (se é que ainda não o tem, caso contrário talvez não se lembrasse), mas sobre esse “alemão” que engole nossas lembranças e que até pode ser causado por um vírus (por enquanto ainda não se sabe o que o provoca), ainda hoje acredita-se seja a causa, geneticamente determinada. Então, até prova em contrário – nossas lembranças são imunes ao vírus.

Sei que é uma constatação nada científica, mas muito prazerosa, pois sempre que uma lembrança boa brota na memória e chega ao coração, provoca uma elevação da taxa de imunidade sentimental e deve fazer um bom bem ao cidadão.

Você já percebeu que eu falo de lembranças temporalmente próximas ou distantes e lembranças que provocam saudades (já escrevi por aqui que, só sentimos saudades de eventos, lugares e de pessoas boas). Então, lá vêm lembranças boas…

Dos 503 municípios paulistas levantados pelo IBGE no Censo de 1960 (em 1950 não chegava a 380), eu e minha família devemos ter fixado residência temporária em pelo menos 200, com a companhia circense de meus pais Motinha e Nhá Fia.

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Pode parecer pouco, mas em alguns deles retornamos duas ou três vezes, em temporadas maravilhosas e deixamos um sem número de amigos e admiradores pela forma correta e respeitosa como chegávamos e partíamos.

Aliás, esse foi um dos principais ensinamentos que recebi de meus pais – “Aonde quer que você vá haja com lisura, chegue como se já tivesse estado ali e vá embora sabendo que um dia você poderá retornar”.

Como a televisão só existia nas capitais e em poucas fora do eixo Rio/São Paulo, a divulgação do trabalho dos grandes artistas era feita basicamente através das emissoras de rádio e em shows nos circos e pavilhões pelo interior do país. Por isso, considero minha infância e pré-adolescência períodos mágicos pelos quais passei e que marcaram definitivamente minha existência.

Convivi em suas vindas para shows no nosso Circo com astros como – Mazzaropi (que há mais de 50 anos, antes de ser o astro do cinema nacional já fazia o que hoje chamamos de stand-up comedy nos palcos de circos pelo Brasil), Vicente Celestino, Demônios da Garoa, Mario Zan, Orlando Silva, Cauby Peixoto, Angela Maria e Francisco Alves, que na época eram os maiores nomes da música popular do país, além de duplas sertanejas famosas como Tonico e Tinoco, Cascatinha e Nhana (compadres de meus pais por batizarem meu irmão, jornalista Gilberto Motta) , Irmãs Galvão (primas de minha mãe), Alvarenga e Ranchinho, Tião Carreiro e Pardinho, Zé do Rancho e Mariazinha (avós do Sandy e Junior) e tantas outras.

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> E a gente só sente saudades de coisas boas né?

Emocionado, me vêm à lembrança as vezes em que “brinquei” de sanfoneiro (com minha gaitinha de 4 baixos) com o grande Luiz Gonzaga, a quem meu pai chamava “Véio Lua” e ele retribuía com um carinhoso “Compadre Motinha”.

Muito mais tarde, na presidência do Diretório Acadêmico de minha faculdade em Tupã, promovi com meus companheiros uma série de shows do 1º. Circuito Funarte da Música Popular Brasileira, e realizamos shows com nomes como Toquinho, Vinícius de Moraes, Marilia Medalha e Trio Mocotó juntos; Chico Buarque e MPB 4; Taiguara; Caetano Veloso; Gilberto Gil; Elis Regina, Vanderléia, Jards Macalé e num encontro muito especial, Luiz Gonzaga, Luiz Gonzaga Junior e Quinteto Violado.

Na faculdade, promovemos um show com Gonzagão e Gonzaguinha juntos em 1972.
Na faculdade, promovemos um show com Gonzagão e Gonzaguinha juntos em 1972. (Foto: Cristina Granato / Divulgação)

Já, aqui em Santa Catarina, comandando o Jornal do Almoço, entrevistei várias vezes o filho do Gonzagão – Luiz Gonzaga Junior (Gonzaguinha), que se revelou um dos mais competentes letristas e compositores desse país e cuja morte prematura tanto lamento.

Aliás, Gonzaguinha morreu no dia 29 de abril de 1991, aos 46 anos, vítima de um acidente de carro na rodovia que liga as cidades de Renascença e Marmeleiro, no Paraná. O último show do cantor aconteceu na noite anterior, na cidade de Pato Branco, no mesmo estado e ele viajava para Florianópolis onde faria mais de seus concorridos espetáculos.

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Mas ele continua vivo em nossa lembrança e no seu repertório maravilhoso e ao ouvir a música “Caminhos do coração”, me emociono e penso que, Gonzaguinha sem saber, estava reescrevendo a nossa história de vida no Circo.

Escreveu ele:

“Há muito tempo que eu saí de casa; Há muito tempo que eu caí na estrada; Há muito tempo que eu estou na vida, foi assim que eu quis e assim eu sou feliz. Principalmente por poder voltar a todos os lugares onde já cheguei; pois lá deixei um prato de comida, um abraço amigo, um canto pra dormir e sonhar. E aprendi que se depende sempre de tanta, muita e diferente gente; toda pessoa sempre é as marcas das lições diárias de outras tantas pessoas. E é tão bonito quando a gente entende, que a gente é tanta gente onde quer que a gente vá; E é tão bonito quando a gente sente que nunca está sozinho por mais que pense estar. É tão bonito quando a gente pisa firme nessas linhas que estão nas palmas de nossas mãos; é tão bonito quando a gente vai à vida, nos caminhos onde bate, bem mais forte o coração.“

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A herança mais valiosa deixada por nossos pais não foram bens materiais, imóveis ou dinheiro. Foram valores imensuráveis como honestidade, respeito, ética e principalmente a prática das ações concretas que permitiram sempre o como chegar, sair e voltar a todos os lugares, como tão bem traduziu Gonzaguinha nessa música.

Toda vez que ouço esses versos vou às lágrimas, por sabê-los absolutamente verdadeiros. Verdadeiros e possíveis, pois que até nos dias de hoje isso acontece comigo.

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