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    PESSOAS MUDAM O MUNDO 

    Ternura para sorrir e chorar

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    Mário
    Por Mário Motta
    21/05/2020 - 15h33 - Atualizada em: 23/05/2020 - 14h31
    "Livros não mudam o mundo. Livros mudam pessoas. Pessoas mudam o Mundo" - Mario Quintana (Foto: arquivo pessoal)
    "Livros não mudam o mundo. Livros mudam pessoas. Pessoas mudam o Mundo" - Mario Quintana (Foto: arquivo pessoal)

    Recentemente prestei uma singela homenagem ao querido Nelson Rolim da Editora Insular, enaltecendo seu gesto de doar livros para compor cestas básicas para comunidades carentes de Florianópolis.

    Lembrei das palavras de Mário Quintana: “Livros não mudam o mundo. Livros mudam pessoas. Pessoas mudam o mundo!” e no embalo da emoção e do tema – livros, lembrei de uma passagem envolvendo livros, que vivi tão logo quando cheguei em Santa Catarina nos anos de 1975.

    Fazia pouco tempo que morava em Lages. Ganhei um livro de contos de uma das primeiras amigas que fiz por lá – Ternura para Sorrir e Chorar, de Poldy Bird. Escritora Argentina cultuada em seu país e cuja obra faz parte da relação de livros indicados para o ensino médio argentino, com mais de 80 edições publicadas por lá.

    No Brasil apenas duas edições foram publicadas pela Artenova Editora e com pouca tiragem, lamentavelmente. Adorei o livro e o emprestei (como continuo fazendo com livros e discos, apesar dos conselhos para que não o faça).

    Esse livro não retornou. Fiquei muito triste pois sua leitura havia me impactado profundamente pela qualidade da escrita e pela temática abordada em quatro temas :

    1) As mortes.

    2) O Amor.

    3) Coisas de sempre.

    4) Coisas que são minhas.

    Imaginei encontrar outra unidade facilmente nas livrarias da cidade. Ledo engano.

    Passei 34 anos procurando, em livrarias por todo o país, (ainda não havia a Internet e quando ela chegou os sites de busca não me ajudaram). Hoje, basta ir ao site e inúmeros sebos pelo país informarão ter ou não a edição que procuras, por mais antiga que seja.

    Estava quase desistindo, quando encontrei num sebo em São Paulo uma unidade da edição em castelhano – Cuentos para ler sin rímel, da Orion Editora.

    Fiquei “meio feliz”, pois havia conseguido pelo menos um “meio livro” de volta. Tentei lê-lo, mas não preencheu minha expectativa. Outra língua, outras formas de se expressar, produção de outros sentimentos. Fiquei "meio" triste. Ainda não era o meu livro. Quase desisti definitivamente.

    Em 28 de junho de 2008, estava em Blumenau apresentando um evento de gala produzido pela jornalista Neuza Manske, hospedado no Hotel Glória, da Rua 7 de setembro, quando percebi em frente um pequeno sebo. Cruzei a rua sem grande expectativa e num canto da prateleira encontrei o livro que procurava havia 34 anos.

    Ali estava o Ternura para sorrir e chorar, da Poldy Bird, Artenova Editora, em ótimo estado de conservação, inclusive com uma fita durex colada nos dois cantos da borda (superior e inferior), aliás, muito parecido com o que eu fazia lá nos idos de 1975.

    - Quanto? Perguntei.

    - Veja na última página. Está escrito a lápis! Respondeu a dona do sebo.

    - 5 reais. Conferi.

    O livro era muito parecido com o meu.

    Aliás, o livro não era muito parecido... era o meu livro 34 anos depois!

    Ao abri-lo, no canto superior esquerdo da primeira página, lá estava uma pequena flor com o caule puxado para a direita e sobre a linha uma letra M (de Mário). Era assim que eu marcava meus livros numa homenagem ao Pequeno Príncipe de Exupéry, que havia lido na época

    Minha marca pessoal.
    Minha marca pessoal.
    (Foto: )

    Minhas pernas bambearam, meu coração disparou e eu indaguei da dona do Sebo se ela manteria o preço depois de eu revelar minha história? Claro que sim, disse-me ela. Contei minha busca e ela também se emocionou.

    Não queria cobrar nem mesmo os 5 reais. Fiz questão de pagar e agradecê-la. Reli duas ou três vezes, cada página, cada conto, buscando compensar os 34 anos distante... Não sei por onde meu livro andou, por que mãos passou, que emoções causou, que lágrimas arrancou de quem o leu, enfim, antes de retornar às minhas mãos.

    Sei que é muito mais que um livro. Talvez agora meu amigo Nelson Rolim compreenda por que me emocionei tanto com seu gesto e sua foto. Para mim é uma bela história de amor.

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