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"Não confio em parte do Judiciário", diz desembargador aposentado Lédio Rosa de Andrade

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Por Moacir Pereira
27/03/2018 - 07h53 - Atualizada em: 27/03/2018 - 07h54
lédio
(Foto: )

*Por Renato Igor, interino

Nascido em Tubarão, aposentado no mês passado após 35 anos de magistratura, o ex-desembargador Lédio Rosa de Andrade, que ingressou sábado no PT, começou a vida partidária com discurso forte: criticou o juiz Sergio Moro, não escondeu os erros do PT e diz que a prioridade em Santa Catarina tem que ser a ética.

Por que o senhor se filiou ao PT?

Sempre tive uma veia politica. Em 35 anos magistratura sempre fiz política, nunca partidária, evidentemente. E quando pensava em me aposentar, por essas coisas da vida, aconteceu. Minha filha foi fazer uma cirurgia com o médico Ricardo Baratieri, marcamos um café, conversamos sobre a cirurgia, eu tava muito preocupado. Ele me tranquilizou e me convidou pra entrar no partido e concorrer a deputado. Logo depois o presidente do partido, Décio  Lima, me ligou, marcamos uma janta e decidi entrar. Eu sei da crise ética que todos partidos passam, e o PT também está envolvido, começando com a condenação do seu líder, que é o Lula.

Mas por que o PT?

Aí é que está o cerne da questão. A minha história de vida não me leva a um partido de direita. A forma como penso economia e as relações sociais me apontam do centro pra esquerda e não do centro pra direita. O PT foi o único que me convidou e desde o suicídio do meu amigo reitor Luiz Carlos Cancellier eu venho fazendo uma discussão profunda dos absurdos que vêm ocorrendo dentro do Judiciário. No Judiciário existe gente muito boa, mas existem juízes que estão destruindo o estado democrático de direito e usando politicamente o Judiciário em benefício próprio, em benefício de causas que a gente nem sabe quais são. Hoje, vejo muita gente falar. O Brasil está radicalizado, contra Lula e a favor de Lula, nesse maniqueísmo. Sobre a condenação do Lula, vejo pouca gente ler o processo e ver se tem prova suficiente para condená-lo daquilo que estão acusando ele. A leitura que eu faço é que esse processo está nesse rolo compressor dessa ala do Judiciário e MP e polícia que não respeita os princípios constitucionais. E todos nós, que hoje aplaudimos uma condenação apressada, muito cedo iremos nos arrepender. Não há nada pior do que um país em que o direito não respeita as pessoas. Eu ponderei muito, decidi aceitar. Porque se eu não fizer política, alguém vai fazer. Então eu tenho que fazer junto, não posso me omitir.

O senhor será candidato ao governo?

O PT me convidou pra ser candidato a governador. Eu disse que quero entrar pra fazer algo diferente. Se eu entro na política discutindo cargo, eu já entro fazendo tudo igual a todos. Não quero entrar no PT pra receber um cargo a ser disputado. Vou começar a me movimentar, participar de reuniões, me aproximar. Vou conversar e vou deixar essa discussão pra um segundo momento. Se for pra ser governador será, se for pra senador, será, se não for pra nada, tudo bem. Eu quero construir algo. Não sei se os militantes do PT querem. Será que há espaço pra mim nessa política do jeito que eu penso? Eu quero ver isso primeiro pra depois decidir.

O PT não fez exatamente aquilo que sempre criticou?

As alianças, a corrupção, tesoureiros presos. O PT não se afastou de suas origens? Estou entrando pra fazer uma política diferente desse passado. Eu não quero fazer política desse tipo. O PT fez muita coisa errada. Mas também, pra quem analisa com calma e racionalidade, principalmente nos dois governos Lula, houve avanço social impressionante. E diminuição da pobreza. Nem tudo está certo e nem errado. Houve, sim, grandes erros, que eu não faria nunca. Eu entro dizendo que esse tipo de aliança eu não faço. A corrupção, não é questão de defender o PT porque fizeram coisa errada, mas saiu o ranking dos partidos em corrupção por parlamentar. O maior não é o PT. Na Petrobras, a maioria dos cargos era do PMDB, não era do PT - o que não justifica o que o PT fez. O que não entendo é porque se crucifica só o PT como "o corrupto" e os outros não? No Brasil, só não está envolvido com corrupção o partido que ainda não esteve no poder. A corrupção é um fenômeno nacional, não um fenômeno partidário do PT e que tem que ser combatido com muita força.

O PT deveria afastar quem foi condenado?

Essa é uma questão do conselho de ética, que não conheço, as normativas internas de como funciona. Creio que precisa diferenciar várias coisas; no caso de Lula, o PT tem certeza de que é condenação política injusta. Se acham isso, afastar uma pessoa seria colaborar com a perseguição política. Se você me pergunta se é possível desembargadores e o juiz Sergio Moro condenarem injustamente? Eu respondo: é possível. Agora temos que ver o que o STJ vai dizer.

O ex-presidente Lula, no mínimo, não teve uma relação promíscua com empreiteiros que possuíam  contratos com o governo? No caso do sítio e do apartamento do Guarujá, com envolvimento direto de engenheiros destas companhias?

Não posso responder porque não vi as provas. Se elas existem eu preciso ver e elas me convencerem de que é um fato concreto ou fato inventado. Eu respeito presunção de inocência. Eu, como jurista de 35 anos, preciso estar muito convencido de que qualquer pessoa, mais simples ou mais importante,  está em situação demonstrada de culpabilidade ou inocência. Se não fizer isso estou destruindo o estado democrático de direito. Não se brinca com isso.

O senhor fala em referência ao uso do sítio, reforma feita pela empreiteira e a reforma feita pelo engenheiro da empreiteira que tem negócios com o governo e no caso do apartamento do Guarujá?

Eu sou desembargador, jogo xadrez. Todo ano vou nos Jogos Abertos e fico em algum lugar. Esse ano, por exemplo, um colega desembargador falou com um empresário amigo dele, que me emprestou um sítio. Fiquei uma semana. Não conhecia o empresário, não sei quem é. Não sei se é corrupto ou não. Fui na confiança do meu amigo. Se esse empresário estiver envolvido com a Lava-Jato eu também estou? Me fotografaram, saiu no jornal que eu estava lá. E daí? Eu preciso ver isso aí. Não sou advogado do Lula, mas numa parte do Judiciário eu não confio.

Qual a prioridade em Santa Catarina?

Ética, fazer com que o dinheiro público seja aplicado em obras publicas, priorizando educação e saúde. Segurança, que as pessoas colocam como primeiro grande problema, isso é uma consequência. Estamos num momento de insegurança porque nossa juventude não tem escola, trabalho, nossas crianças não têm o que fazer. Claro, como estamos num momento extremo, não pode negligenciar polícia, prisões. Mas nenhum país do mundo resolve problema de violência criando prisões e contratando policiais. Em países sem criminalidade as prisões estão fechando, são os casos da Suécia e da Noruega - porque aplicaram em educação, saúde e isso trouxe trabalho para a maioria. Aí o crime passa a ser exceção.

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